Uma sequência histórica de chuvas torrenciais transformou paisagens, interrompeu rotinas comunitárias e catapultou regiões inteiras da África do Sul para uma crise de inundações que ameaça vidas e infra-estruturas. À medida que os rios transbordam e as planícies baixas se convertem em zonas de água corrente, a resposta das autoridades, a evacuação de parques nacionais e o espectro de destruição começam a moldar um novo capítulo de alerta climático.
As inundações na África do Sul já causaram 19 mortos e obrigaram à retirada de pessoas do Parque Kruger. Desde finais de Dezembro de 2025 e ao longo de Janeiro de 2026, fortes chuvas têm assolado vastas regiões do norte da África do Sul, em particular as províncias de Limpopo e Mpumalanga.
As chuvas intensas provocaram cheias generalizadas, deslizamentos de terras, transtornos no transporte e evacuações de emergência. Esta vaga de precipitação persistente, alimentada por sistemas atmosféricos intensos que continuam a descarregar água sobre a mesma bacia hidrográfica durante semanas, levou as autoridades meteorológicas a emitir um alerta vermelho de nível 10.
Este alerta, reflecte o risco grave de mais chuva e inundações nos próximos dias. As águas dos principais rios, incluindo o Letaba, Crocodile e Sabie, romperam as suas margens e saturaram solos já encharcados, transformando vales e zonas baixas em extensões de água que cortam ligações rodoviárias, isolam comunidades e ameaçam habitações.
Em várias áreas das províncias afectadas, pontes e estradas ficaram intransitáveis, o que dificultou o acesso de serviços de emergência e multiplicou os desafios logísticos para apoiar vítimas e desalojados.
As cheias aumentaram de intensidade e, em muitos casos, nas últimas 48 horas precipitaram uma resposta coordenada por parte das forças de resgate, incluindo a mobilização de helicópteros para evacuar pessoas de zonas submersas ou isoladas.
A participação das forças de defesa e das equipas de emergência tem sido fundamental para retirar famílias e turistas em perigo e deslocar feridos para centros de saúde seguros.
O Kruger National Park, um dos maiores parques de vida selvagem em África, foi um dos locais mais afectados pelas cheias intensas. As chuvas e o consequente aumento do nível dos rios forçaram as autoridades do SANParks a suspender visitas de dia, fechar entradas e iniciar evacuações de emergência em vários acampamentos.
Em áreas como Letaba Rest Camp e Shingwedzi Rest Camp, as águas elevaram-se de forma abrupta, inundando zonas baixas e levando à retirada de hóspedes e pessoal por helicóptero e por rotas terrestres seguras, sempre que possível.
A decisão de suspender o acesso de visitantes de um dia foi tomada como medida de precaução para evitar incidentes que consumissem recursos de emergência já sobrecarregados. Vários portões do parque, incluindo Phalaborwa Gate, foram temporariamente fechados enquanto as condições meteorológicas e o nível das águas são monitorizados pelas equipas de gestão.
A situação tornou-se tão grave que a circulação dentro do parque, antes planeada e programada como experiência de turismo de natureza, foi drasticamente limitada, com corredores tradicionais de travessia cortados pelas massas de água.
O Governo da África do Sul destacou ainda a importância da cooperação com o sector privado do turismo que tem apoiado hóspedes afectados com soluções de alojamento alternativas e comunicação contínua às partes envolvidas.
Reynold Thakhuli, porta-voz do Parque Nacional Kruger, disse que os animais do parque são adaptáveis e podem deslocar-se para terrenos mais elevados, mas são necessárias medidas de precaução para proteger os visitantes, alguns dos quais já tinham sido transferidos para outras acomodações no início da semana.
“Tivemos de transferir certos acampamentos, em particular os da mata e os rústicos”, disse Thakhuli.
A ministra do Turismo, Patricia de Lille, expressou solidariedade aos visitantes cujos planos foram afectados e reafirmou que as prioridades se centraram na segurança de todos os intervenientes no processo.
Para além dos parques e pontos turísticos, na África do Sul, as cheias mostram um impacto humano profundo nas zonas residenciais mais vulneráveis das províncias de Mpumalanga e Limpopo. As autoridades de gestão de desastres sul-africanas reportaram pelo menos 19 mortes directamente atribuíveis ao impacto das chuvas intensas desde o início das precipitações anormais no mês anterior.
Registos provinciais indicam que várias comunidades foram isoladas, com casas inundadas e famílias obrigadas a abandonar as suas residências, muitas vezes sem acesso a água potável, energia eléctrica nem meios de transporte.
Em alguns casos, os órgãos de resgate utilizaram helicópteros para alcançar moradores em telhados ou zonas inacessíveis por via terrestre, enfatizando a rapidez com que as condições de segurança se deterioraram. As infra-estruturas públicas sofreram danos consideráveis, obrigando a suspensões de tráfego e cortes em serviços básicos em várias localidades afectadas.
Enquanto o Governo trabalha para restabelecer o acesso e reparar as roturas, os efeitos económicos e sociais destas cheias deverão prolongar-se nas semanas seguintes, com pesado impacto sobre meios de subsistência e actividade empresarial local.
As previsões meteorológicas indicam que as chuvas intensas poderão persistir ainda por vários dias, elevando o risco de novas inundações em áreas já saturadas. Os serviços meteorológicos da África do Sul mantêm avisos de tempo severo para a região, com estimativas de até 200 mm de precipitação adicional em certas zonas, o que pode agravar ainda mais os níveis dos rios e a extensão das cheias.
Além da África do Sul, estas condições climáticas extremas têm um alcance de alerta que se estende a países vizinhos. Mapas de previsão incluem partes do Botswana, Essuatíni, Moçambique e Zimbabwe, onde as precipitações também podem elevar o risco de inundações em áreas ribeirinhas e zonas baixas.
Em Moçambique, instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) e o Instituto Nacional de Gestão de Risco de Desastres (INGD) emitiram alertas vermelhos e avisos preventivos à população, apelando à evacuação de zonas de risco e à tomada de medidas de precaução face às descargas controladas de barragens e às chuvas fortes.
Conclusão
As recentes cheias na África do Sul ilustram, de forma dramática, a vulnerabilidade de ecossistemas, infra-estruturas e comunidades perante eventos climáticos extremos que se tornam cada vez mais frequentes e intensos.
A resposta coordenada mostra a importância de sistemas de alerta e de resiliência social, mas também sublinha lacunas que exigem reforço contínuo de capacidades de adaptação.
À medida que as chuvas prosseguem e o nível das águas continua elevado, o país enfrenta a urgente tarefa de proteger vidas, restabelecer serviços e preparar-se para as possíveis sequelas sociais e económicas de uma temporada chuvosa que já entrou para os registos como uma das mais graves dos últimos anos.
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