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ToggleBienal de Veneza 2026: Tons Menores Africanos
A Bienal de Veneza 2026 abre ao público a 9 de Maio e estende-se até 22 de Novembro, devolvendo à cidade-laguna o seu estatuto de capital simbólica da arte contemporânea. Intitulada In Minor Keys (“Em Tons Menores”), a edição deste ano, propõe um gesto de escuta num mundo atravessado por guerras, inflação, desigualdade, crises climáticas e fadiga colectiva.
O projecto curatorial foi concebido pela curadora camaronesa-suíça Koyo Kouoh e será concretizado pela equipa por si escolhida após o seu falecimento em Maio de 2025, com a organização a sublinhar que a edição avançará para preservar e divulgar as suas ideias. A proposta recusa o ruído como método e aposta em frequências baixas, na intimidade e na relação.
Em vez de uma exposição que tenta explicar tudo ao visitante, a Bienal de Veneza 2026 apresenta-se como uma experiência sensorial e relacional capaz de desacelerar o tempo e de criar um “oásis” dentro da cidade. A escala também muda: a mostra principal tem 111 participantes. Artistas individuais, duos, colectivos e organizações, numa selecção anunciada oficialmente hoje, 25 de Fevereiro de 2026.
Os Giardini e o Arsenale mantêm-se como eixos centrais, mas o mapa expande-se por Veneza em palácios, igrejas dessacralizadas, fundações privadas e espaços industriais onde o mundial, o africano e a lusofonia se cruzam sem se reduzirem a etiquetas.
In Minor Keys

A ideia de In Minor Keys (“em tons menores”) serve de coluna vertebral à Bienal de Veneza 2026. No texto de enquadramento transmitido à presidência da Biennale em Abril de 2025, Koyo Kouoh descreveu a tonalidade menor como estrutura musical e como efeito emocional e a equipa que agora executa o projecto mantém essa ambição: trocar a marcha pelo murmúrio e o discurso totalizante pela nuance.
A exposição principal organiza-se por motivos conceptuais que funcionam como movimentos de uma mesma composição: Shrines, Procession, Schools, Rest e Performances. A nomenclatura não é decorativa. Cada motivo estabelece um tipo de experiência e um modo de circular pela cidade e pelas obras.
Nos “Shrines”, dois espaços no Pavilhão Central prestam tributo a Issa Samb e Beverly Buchanan, figuras de referência para a visão de Kouoh, numa homenagem que evita o formato retrospectivo e prefere a ideia de altar como lugar de encontro.
“Procession” propõe deslocações menos lineares no espaço expositivo e dialoga com tradições afro-atlânticas e carnavalescas onde o corpo atravessa o poder sem pedir licença.
“Schools” convoca organizações e ecossistemas artísticos como infra-estrutura de pensamento e de cuidado, incluindo entidades sediadas em Dakar, Lagos e Nairobi, integradas na exposição como práticas vivas e não como notas de rodapé.
“Rest” assume-se como argumento político: devolver o tempo ao visitante e ao artista num mundo que consome a atenção como se fosse combustível.
“Performances” fecha o círculo ao trazer a dimensão do convívio e do rito para o centro da comunidade.
A organização confirmou 111 participantes para a mostra principal, entre artistas individuais, duos, colectivos e organizações lideradas por artistas com idades que vão de criadores nascidos na década de 1940 a outros nascidos já nos anos 1990. A organização também indicou que a mostra será realizada com a equipa seleccionada por Kouoh.
A Cidade Como Palco

Se a exposição principal dá o tom, a cidade dá a ressonância. A Bienal de Veneza 2026 continua ancorada nos Giardini e no Arsenale, mas insiste que limitar a Bienal a esses espaços seria amputar a sua própria natureza. Os Giardini, com os pavilhões nacionais históricos, funcionam como vitrina diplomática e como arquivo vivo da modernidade europeia.
O Arsenale, antiga potência naval da Sereníssima, convertida em nave expositiva, oferece a escala industrial necessária para instalações imersivas, vídeo e projectos concebidos para o lugar. Entre ambos estende-se uma rede de pontes e passagens onde a arte se mistura com o quotidiano e obriga o visitante a atravessar Veneza como quem atravessa uma partitura.
A Bienal vai decorrer de 9 de Maio a 22 de Novembro e a pré-abertura, acontece na semana de 6 a 8 de Maio antes da inauguração formal. Ao longo de mais de seis meses, Veneza activa também as suas margens menos previsíveis: igrejas dessacralizadas, claustros, palácios à beira dos canais e espaços industriais temporários que recebem projectos paralelos e exposições independentes.
Bairros como Dorsoduro, Cannaregio, Castello e San Marco voltam a ser corredores culturais onde o visitante passa de um pavilhão nacional para um projecto autónomo e de uma instalação num antigo convento para uma performance num pátio.
Geografia Expandida
Esta geografia expandida tem efeitos directos na economia cultural da cidade. A Bienal atrai centenas de milhares de visitantes, entre profissionais do sector, curadores, coleccionadores, académicos e público geral e reactiva cadeias de serviços que vão da hotelaria ao transporte local.
Mas o impacto simbólico é o que sustenta o seu peso mundial: durante meses, Veneza torna-se num laboratório onde as tendências estéticas são testadas e onde a linguagem da arte contemporânea é reescrita em tempo real.
Em 2026, a promessa é dupla: uma escala mais contida no núcleo principal e uma cidade inteira transformada em campo de experiências onde a escuta e a convivência substituem a pressa e o excesso.
O Sul Global no Centro

A lista dos 111 participantes, anunciada oficialmente hoje, 25 de Fevereiro de 2026, confirma uma orientação geopolítica clara: a Bienal de Veneza 2026 procura uma cartografia relacional onde o Sul Global deixa de ser um apêndice e passa a ser o eixo central.
A selecção reúne artistas individuais, duos, colectivos e organizações lideradas por artistas provenientes de múltiplas geografias, escolhidas por Koyo Kouoh pela afinidade entre práticas, mesmo quando estas se desenvolvem longe umas das outras.
A página oficial da Biennale sublinha exemplos desse arco de encontros ao citar artistas a trabalhar em cidades como Dakar, Beirute, Paris, Nashville, San Juan e Salvador, convocados para imaginar convergências sem necessidade de filiação directa.
Entre os nomes confirmados para a exposição principal surgem artistas associados a investigações sobre território, corpo, memória e espiritualidade. A Bienal inclui, por exemplo, Otobong Nkanga, Wangechi Mutu, Torkwase Dyson, Ebony G. Patterson, Álvaro Barrington, Nick Cave e Tuấn Andrew Nguyễn, entre muitos outros.
A estrutura da mostra não pretende criar uma vitrina de passaportes, mas um conjunto de ligações onde materiais, ritmos e ritos dialogam entre sí.
É por isso que organizações e plataformas como Raw Material Company, em Dakar, GAS Foundation, em Lagos e Nairobi Contemporary Art Institute, entram na lógica de “Schools” como infra-estruturas de formação e de cuidado no próprio coração do certame.
Debate Mundial
Alguns casos ilustram como o debate mundial entra na Bienal através de histórias concretas sem que a exposição se transforme num instrumento de propaganda.
A participação do artista australiano Khaled Sabsabi, por exemplo, ganhou destaque internacional por surgir tanto no pavilhão nacional como na exposição principal depois de um processo controverso na Austrália com obras inspiradas na prática espiritual e na experiência de migração.
A Bienal acolhe trajectos marcados por deslocação e pertença e usa-os para construir uma experiência menos didáctica e mais sensorial alinhada com o espírito de In Minor Keys. O resultado é um retrato concentrado da produção contemporânea que prefere a densidade à acumulação e troca o ruído pelo detalhe.
A Visão de Koyo Kouoh

O eixo africano da Bienal de Veneza 2026 não é um efeito secundário da biografia, mas sim uma parte integrante da sua gramática.
Koyo Kouoh foi nomeada directora artística do Departamento de Artes Visuais com a missão de conceber a curadoria da 61.ª edição e, a própria Bienal, reconhece que o projecto foi desenvolvido de forma intensa entre o Outono de 2024 e o início de Maio de 2025, quando a curadora definiu o enquadramento teórico, seleccionou artistas e delineou identidade gráfica e o desenho espacial.
A sua morte em Maio de 2025 transformou a edição num acto de continuidade e de responsabilidade institucional e a organização afirmou que avançaria para preservar e disseminar as suas ideias. Essa continuidade ganha expressão na centralidade do Sul Global e na forma como a exposição integra escolas, plataformas e redes africanas como agentes de pensamento.
Quando “Schools” convoca organizações como Raw Material Company ou GAS Foundation, o gesto não é apenas programático: é afirmar que a produção de conhecimento e de comunidade em Dakar, Lagos ou Nairobi tem estatuto de arquitectura cultural e não de “periferia” visitada em excursões.
O continente aparece também pela variedade de referências sonoras e rituais convocadas pelo conceito de “em tons menores”, onde cabem lamentos, chamadas e respostas e formas de alegria que sobrevivem à violência e à deslocação.
A Presença Africana
Nos pavilhões nacionais, a presença africana ganha rosto e disputa o espaço. Marrocos participa no Arsenale com a artista Amina Agueznay, enquanto o Zimbabwe confirma um conjunto de cinco artistas sob a organização da Galeria Nacional do Zimbabwe.
A Bienal acolhe ainda debates que atravessam a política cultural contemporânea, como se viu no caso sul-africano que chegou aos tribunais quando a escolha de uma artista para representar o país foi contestada por razões políticas antes do prazo de confirmação do pavilhão.
Esses episódios lembram que Veneza continua a ser o palco onde a arte e o poder se enfrentam sem filtros. Em 2026, a proposta curatorial tenta responder não com slogans, mas com espaços de convívio, repouso e beleza capazes de sustentar a vida em tempos difíceis.
Pontes Sobre o Atlântico

A lusofonia entra na Bienal de Veneza 2026 com sinais claros de diversidade e de afirmação autoral. Portugal confirmou, através da Direcção-Geral das Artes, a selecção do artista Alexandre Estrela para representar oficialmente o país com o projecto RedSkyFalls, com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau e apresentação prevista entre 9 de Maio e 22 de Novembro no Fondaco Marcello.
A escolha coloca a representação portuguesa em linha com o mote In Minor Keys, não como tradução literal, mas como procura de ressonâncias entre imagem, tempo e espaço numa edição que se define pela escuta e pela experiência sensorial.
O Brasil apresenta no Giardini as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão num pavilhão que tende a combinar investigação histórica com linguagem plástica incisiva. A presença brasileira estende-se também à exposição principal através de nomes como Ayrson Heráclito e Eustáquio Neves, ampliando o diálogo afro-atlântico entre rituais, memória e arquivo.
Timor-Leste participa com Veronica Pereira Maia, Etson Caminha e Juventino Madeira, com curadoria de Loredana Pazzini-Paracciani e com a preparação acompanhada pelas autoridades culturais timorenses.
A sua presença reforça a dimensão transcontinental da língua portuguesa num certame que valoriza geografias relacionais e afinidades entre práticas separadas por oceanos.
Vista em conjunto, a cartografia lusófona desta edição mostra que a língua partilhada não produz uniformidade e expõe fricções entre memória e futuro, entre o arquivo e o gesto, entre a política e a intimidade.
A Bienal de Veneza 2026 torna-se assim um espaço onde heranças coloniais e continuidades contemporâneas não são tratadas como um tema distante, mas como matéria viva que atravessa o corpo, a paisagem e a linguagem.
Conclusão
A Bienal de Veneza 2026 apresenta-se como uma decisão estética e política: desacelerar. Ao reunir 111 participantes e ao organizar a exposição por motivos como santuários, procissões, escolas, repouso e performances, o certame recusa a ansiedade de “dizer tudo” e aposta em criar condições para sentir e pensar.
Veneza volta a funcionar como capital mundial da cultura onde o presente é testado em público, mas desta vez com um vocabulário de baixa frequência. A centralidade africana inscrita na visão de Koyo Kouoh e a afirmação lusófona com Portugal, Brasil e Timor-Leste mostram que a disputa contemporânea passa tanto pela forma como pelo conteúdo.
Em Maio, quando as portas abrirem, o desafio será simples e exigente: escutar o que a arte consegue dizer quando o mundo baixa a voz.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
