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Sábado, Fevereiro 21, 2026

A Arte do Lixo: Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-Arte

E se o lixo pudesse falar que histórias nos contaria? Talvez nos falasse de histórias de abandono e de desperdício além de consumo desenfreado que devora recursos sem pensar no amanhã, ou talvez nos lembrasse que cada objecto carrega uma memória, um uso, uma vida anterior.Em África há artistas que ousam dar-lhe outra voz: a voz da beleza, da memória e da resistência cultural. São criadores que não vêem lixo, mas sim matéria-prima para a imaginação, símbolos de resistência e possibilidades infinitas. No lixo que a sociedade descarta, eles descobrem matéria-prima para reinventar a vida e inspirar comunidades inteiras.

A Arte do Lixo: Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-Arte


Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepare-se para conhecer Ifeoma U. Anyaeji, da Nigéria e mergulhar num dos movimentos criativos mais relevantes e estimulantes do continente africano contemporâneo.

Num panorama mundial marcado pelo consumo excessivo e pelo desperdício constante, há criadores em África que escolhem olhar para os resíduos não como um sinal de falência social e económica, mas como uma matéria de possibilidade, memória e reinvenção.

Ifeoma integra-se nessa linhagem com uma abordagem muito específica: transforma plásticos não biodegradáveis, sobretudo sacos e garrafas, em esculturas e instalações densas, coloridas e de grande complexidade táctil.

A artista descreve o seu método como “Plasto-art”, um processo de remaking que converte poluentes persistentes em “têxteis” visuais feitos de tranças, espirais, círculos e laços, construídos com tempo, repetição e disciplina manual.

Este é o primeiro artigo do ano do Mais Afrika e o último de uma série de 17 dedicada a estes artistas visionários que, preservam e reinterpretam patrimónios culturais e linguagens artísticas tradicionais, ao integrarem materiais reciclados nas suas obras, demonstrando que a inovação não rompe com a tradição, antes a prolonga e que a arte africana contemporânea continua a ser um espaço fértil de experimentação e pensamento crítico.

Mais do que denúncia, esta arte gera diálogo. As obras produzidas a partir de resíduos ultrapassam fronteiras culturais e geográficas, atraem atenção internacional e contribuem para um panorama artístico mundial mais inclusivo e diverso. Ao desafiarem as noções convencionais de valor, beleza e utilidade, estes artistas provam que daquilo que parecia perdido pode nascer algo transformador.

Se procura inspiração, consciência e uma perspectiva diferente sobre o que a arte pode ser no século XXI, não perca esta viagem. Vai descobrir criadores que fazem de África um palco vibrante da arte contemporânea feita a partir do inesperado: o lixo.


Ifeoma U. Anyaeji


(20260103) A Arte do Lixo Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-arte
Imagem: © 2019 Colin Davison

Ifeoma U. Anyaeji nasceu em Benin City, na Nigéria e identifica-se como uma artista neo-tradicional. Esta expressão situa o seu trabalho entre heranças culturais locais e debates contemporâneos sobre ecologia, género e materialidade. A sua formação inclui uma licenciatura em Pintura pela University of Benin (com distinção) e um MFA em Escultura na Washington University in St. Louis.

Paralelamente, desenvolve um percurso académico avançado, associado a estudos doutorais em Humanidades/Studio Arts na Concordia University, no Canadá, o que explica a densidade conceptual do seu discurso sobre valor, reutilização e cultura material. A dimensão profissional da artista não se limita ao atelier.

A documentação disponível refere actividade docente e participação em programas e residências, além de um percurso internacional com exposições e projectos institucionais. Este mapa é importante para compreender que a Plasto-art não é apenas uma “solução criativa” para a falta de materiais: é uma prática amadurecida, com vocabulário próprio e distinções claras face a categorias genéricas.

Ifeoma, por exemplo, faz questão de separar o seu método de “reciclagem” industrial e de rótulos contemporâneos aplicados indiscriminadamente, defendendo a Plasto-art como um conceito específico de reutilização e transformação, ancorado em técnicas tradicionais e num trabalho manual repetitivo que deixa marcas, ritmos e decisões visíveis na forma final.

Coerência Artística


(20260103) A Arte do Lixo Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-arte
Imagem: © 2019 Colin Davison

Num tempo em que o reaproveitamento de materiais se tornou tendência em muitas geografias, Ifeoma U. Anyaeji distingue-se pela consistência entre método, tema e linguagem formal. O Threading não é uma citação superficial; é uma estrutura que organiza a obra e mantém a ligação entre gesto contemporâneo e a memória colectiva.

A Plasto-art, por sua vez, não é um sinónimo genérico de reutilização: é um conceito com etapas definidas, com vocabulário próprio e com uma intenção clara de estimular leituras múltiplas sobre valor, consumo e preservação cultural.

Essa clareza ajuda a compreender por que razão o trabalho tem encontrado espaço em instituições e projectos internacionais: a obra oferece uma resposta estética forte e simultaneamente abre discussão sobre problemas que são locais e mundiais. A relevância do seu percurso também reside na forma como reintroduz no debate artístico um tipo de conhecimento frequentemente tratado como periférico.

Ao dar estatuto escultórico a técnicas de cabelo, tecelagem e cestaria, Ifeoma mostra que a inovação não rompe com a tradição, antes a prolonga e que a arte contemporânea africana continua a ser um espaço fértil de experimentação e pensamento crítico. A lição é simples e exigente: a beleza pode nascer do que foi descartado, mas essa beleza não é fuga ao real, é confronto com ele.

Exposições e Projectos


O percurso expositivo de Ifeoma inclui apresentações em vários países e contextos institucionais. Fontes biográficas e páginas de instituições referem exposições individuais ao longo de anos, com destaque para projectos no Reino Unido e para circulação internacional em África, Europa e Estados Unidos da América (EUA).

Um marco amplamente documentado é a exposição “Ezu hu ezu – In(complete)” no BALTIC Centre for Contemporary Art (Gateshead, Reino Unido) que reforçou a visibilidade do seu trabalho com plásticos transformados em “tramas” escultóricas e instalações. Outro ponto recente de grande relevância é a apresentação “Ijem nke Mmanwu m (The journey of my masquerade)” no Tramway, em Glasgow.

Este projeto é descrito como uma comissão que faz referência ao masquerade Igbo (Mmanwu), um rito mascarado tradicionalmente realizado por homens que envolve performance e indumentária para evocar relações entre humanos e ancestrais.

Ifeoma reimagina esse universo em forma escultórica através de práticas artesanais frequentemente associadas ao feminino, explorando o potencial político e subversivo de técnicas e trabalhos decorativos categorizados por género.


A Plasto-Art


(20260103) A Arte do Lixo Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-arte
Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos

A Plasto-art começa com a escolha de uma matéria-prima simultaneamente banal e problemática: plásticos descartados. Em vez de os encaminhar para um processo industrial, Ifeoma transforma-os manualmente numa etapa inicial que designa como “Plasto-yarning”, convertendo o plástico em “fios” e “tranças” que se comportam como fibra.

A partir daí, são aplicadas técnicas de entrelaçar, coser, enrolar, tecer e construir volumes, com uma lógica próxima da cestaria e da tecelagem tradicional, mas com um material que mantém sempre a memória do seu uso anterior.

O resultado são superfícies densas e vibrantes, onde a cor não provém de pigmento, mas do próprio plástico, reorganizado em camadas, espirais e padrões que podem sugerir arquitectura, mobiliário, corpo humano ou espaços domésticos. Um elemento técnico e simbólico central é a ligação ao African Hair Threading, conhecido como Threading e referido pela artista como Ikpa Owu na língua Igbo.

Esta prática capilar, outrora predominante em zonas da Nigéria e de países vizinhos, é descrita como uma técnica arquitectónica de linhas, tensão e repetição que hoje se encontra em declínio. Ifeoma incorpora esse conhecimento como motor formal: as tranças e amarrações deixam de ser apenas “cabelo” e tornam-se estrutura escultórica.

Assim, a artista converte um gesto cultural em linguagem de construção, ao mesmo tempo que chama a atenção para a perda de práticas tradicionais, para as pressões da modernidade e para os impactos ambientais observados na sua comunidade.


O Simbolismo de Ifeoma U. Anyaeji


(20260103) A Arte do Lixo Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-arte
Imagem: © 2019 Colin Davison

O simbolismo do trabalho de Ifeoma nasce do confronto entre dois regimes de valor: o valor do que é considerado “novo” e o valor do que já foi usado. A artista reflecte sobre a imaginação como ferramenta de crescimento e defende que limitar a imaginação restringe a possibilidade de mudança.

A partir dessa premissa, os sacos e as garrafas de plástico descartados são tratados como objectos expulsos da esfera do cuidado. A Plasto-art rompe com essa sentença ao propor uma transição do “descartado” para o “estético” ou até para o “funcional”, mantendo a materialidade do plástico, mas alterando radicalmente o seu estatuto.

Há também um subtexto político e social que emerge da insistência na repetição e no trabalho manual. Ao escolher um processo lento, físico e meticuloso, Ifeoma contrasta com a velocidade do consumo e com a facilidade do descarte. Cada laço e cada trança afirmam uma ética de atenção que funciona como crítica silenciosa ao excesso, à produção em massa e à ideia de que tudo tem prazo curto.

Em vez de uma mensagem única, a artista procura construir obras abertas a múltiplas interpretações, onde coexistem memória pessoal e experiência colectiva, referências a folclore, moda, música e poesia e ainda discussões sobre corpo, espaço doméstico e “sistemas” de valorização social. Esta abertura é coerente com a intenção de estimular respostas colectivas positivas para questões ecoculturais.

Mensagens Cruzadas


As mensagens ambientais são explícitas no ponto de partida: a artista usa materiais que são poluentes persistentes, abundantes em contextos urbanos e difíceis de degradar naturalmente.

No entanto, a abordagem de Ifeoma evita o moralismo directo e procura construir consciência por meio da forma: o plástico não desaparece, não é “purificado” por magia estética, é assumido como presença que atravessa o quotidiano e que, por isso mesmo, pode ser reconfigurado.

Ao afirmar que o material descartado é um “recurso viável” a explorar além do uso predefinido, a artista desloca a responsabilidade para uma imaginação colectiva: a mudança não depende apenas de políticas, depende também do modo como as pessoas interpretam utilidade, beleza e desperdício. Ao mesmo tempo, a dimensão de género não aparece como apêndice temático: está no próprio método.

A ligação ao Threading e a incorporação de técnicas de tecelagem e cestaria colocam em primeiro plano práticas historicamente associadas a trabalho feminino e a artesanato “menor” que muitas vezes foram desvalorizadas por hierarquias coloniais e por modelos académicos que preferiam separar arte e ofício.

Ao transformar essas práticas em estrutura escultórica de grande escala, Ifeoma desafia essa separação e demonstra que aquilo que foi rotulado como doméstico, decorativo ou utilitário pode conter complexidade formal, força conceptual e alcance político. É nesse cruzamento entre ecologia e cultura que a sua obra ganha densidade: não é apenas sobre plástico, é sobre memória, sobre sistemas de valor e sobre o futuro das linguagens tradicionais em sociedades em mutação.


Conclusão


Ifeoma U. Anyaeji construiu uma prática que une rigor artesanal, reflexão crítica e uma ética de reutilização. A artista parte de poluentes concretos, sacos e garrafas de plástico, não biodegradáveis e transforma-os através da Plasto-art e do Threading/Ikpa Owu em esculturas e instalações que lembram têxteis, cestaria e arquitectura, sem perder a memória do material de origem.

O seu trabalho aborda problemas ambientais sem se reduzir a uma mensagem única, liga essa problemática à perda e reinvenção de tradições e introduz uma dimensão de género ao reimaginar rituais e formas culturais com técnicas artesanalmente codificadas.

Ao longo de exposições e projectos em instituições como o BALTIC e o Tramway, a artista demonstra que a arte feita de resíduos pode ser simultaneamente formalmente poderosa e intelectualmente rigorosa. No fim, a Plasto-art funciona como prova de que o lixo não é apenas aquilo que se rejeita: é também aquilo que revela como vivemos, o que valorizamos e o que estamos dispostos a esquecer.

A obra de Ifeoma não promete soluções fáceis, mas oferece um modo de ver: um modo que obriga a reconhecer o peso material do consumo e a imaginar outras formas de relação com os objectos, com a cultura e com o ambiente.


O que achas da arte de Ifeoma U. Anyaeji? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

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A Arte do Lixo: Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-Arte

 

Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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