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ToggleA Arte do Lixo: Ifeoma U. Anyaeji E A Plasto-Arte
Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepare-se para conhecer Ifeoma U. Anyaeji, da Nigéria e mergulhar num dos movimentos criativos mais relevantes e estimulantes do continente africano contemporâneo.
Num panorama mundial marcado pelo consumo excessivo e pelo desperdício constante, há criadores em África que escolhem olhar para os resíduos não como um sinal de falência social e económica, mas como uma matéria de possibilidade, memória e reinvenção.
Ifeoma integra-se nessa linhagem com uma abordagem muito específica: transforma plásticos não biodegradáveis, sobretudo sacos e garrafas, em esculturas e instalações densas, coloridas e de grande complexidade táctil.
A artista descreve o seu método como “Plasto-art”, um processo de remaking que converte poluentes persistentes em “têxteis” visuais feitos de tranças, espirais, círculos e laços, construídos com tempo, repetição e disciplina manual.
Este é o primeiro artigo do ano do Mais Afrika e o último de uma série de 17 dedicada a estes artistas visionários que, preservam e reinterpretam patrimónios culturais e linguagens artísticas tradicionais, ao integrarem materiais reciclados nas suas obras, demonstrando que a inovação não rompe com a tradição, antes a prolonga e que a arte africana contemporânea continua a ser um espaço fértil de experimentação e pensamento crítico.
Mais do que denúncia, esta arte gera diálogo. As obras produzidas a partir de resíduos ultrapassam fronteiras culturais e geográficas, atraem atenção internacional e contribuem para um panorama artístico mundial mais inclusivo e diverso. Ao desafiarem as noções convencionais de valor, beleza e utilidade, estes artistas provam que daquilo que parecia perdido pode nascer algo transformador.
Se procura inspiração, consciência e uma perspectiva diferente sobre o que a arte pode ser no século XXI, não perca esta viagem. Vai descobrir criadores que fazem de África um palco vibrante da arte contemporânea feita a partir do inesperado: o lixo.
Ifeoma U. Anyaeji

Ifeoma U. Anyaeji nasceu em Benin City, na Nigéria e identifica-se como uma artista neo-tradicional. Esta expressão situa o seu trabalho entre heranças culturais locais e debates contemporâneos sobre ecologia, género e materialidade. A sua formação inclui uma licenciatura em Pintura pela University of Benin (com distinção) e um MFA em Escultura na Washington University in St. Louis.
Paralelamente, desenvolve um percurso académico avançado, associado a estudos doutorais em Humanidades/Studio Arts na Concordia University, no Canadá, o que explica a densidade conceptual do seu discurso sobre valor, reutilização e cultura material. A dimensão profissional da artista não se limita ao atelier.
A documentação disponível refere actividade docente e participação em programas e residências, além de um percurso internacional com exposições e projectos institucionais. Este mapa é importante para compreender que a Plasto-art não é apenas uma “solução criativa” para a falta de materiais: é uma prática amadurecida, com vocabulário próprio e distinções claras face a categorias genéricas.
Ifeoma, por exemplo, faz questão de separar o seu método de “reciclagem” industrial e de rótulos contemporâneos aplicados indiscriminadamente, defendendo a Plasto-art como um conceito específico de reutilização e transformação, ancorado em técnicas tradicionais e num trabalho manual repetitivo que deixa marcas, ritmos e decisões visíveis na forma final.
Coerência Artística

Num tempo em que o reaproveitamento de materiais se tornou tendência em muitas geografias, Ifeoma U. Anyaeji distingue-se pela consistência entre método, tema e linguagem formal. O Threading não é uma citação superficial; é uma estrutura que organiza a obra e mantém a ligação entre gesto contemporâneo e a memória colectiva.
A Plasto-art, por sua vez, não é um sinónimo genérico de reutilização: é um conceito com etapas definidas, com vocabulário próprio e com uma intenção clara de estimular leituras múltiplas sobre valor, consumo e preservação cultural.
Essa clareza ajuda a compreender por que razão o trabalho tem encontrado espaço em instituições e projectos internacionais: a obra oferece uma resposta estética forte e simultaneamente abre discussão sobre problemas que são locais e mundiais. A relevância do seu percurso também reside na forma como reintroduz no debate artístico um tipo de conhecimento frequentemente tratado como periférico.
Ao dar estatuto escultórico a técnicas de cabelo, tecelagem e cestaria, Ifeoma mostra que a inovação não rompe com a tradição, antes a prolonga e que a arte contemporânea africana continua a ser um espaço fértil de experimentação e pensamento crítico. A lição é simples e exigente: a beleza pode nascer do que foi descartado, mas essa beleza não é fuga ao real, é confronto com ele.
Exposições e Projectos
O percurso expositivo de Ifeoma inclui apresentações em vários países e contextos institucionais. Fontes biográficas e páginas de instituições referem exposições individuais ao longo de anos, com destaque para projectos no Reino Unido e para circulação internacional em África, Europa e Estados Unidos da América (EUA).
Um marco amplamente documentado é a exposição “Ezu hu ezu – In(complete)” no BALTIC Centre for Contemporary Art (Gateshead, Reino Unido) que reforçou a visibilidade do seu trabalho com plásticos transformados em “tramas” escultóricas e instalações. Outro ponto recente de grande relevância é a apresentação “Ijem nke Mmanwu m (The journey of my masquerade)” no Tramway, em Glasgow.
Este projeto é descrito como uma comissão que faz referência ao masquerade Igbo (Mmanwu), um rito mascarado tradicionalmente realizado por homens que envolve performance e indumentária para evocar relações entre humanos e ancestrais.
Ifeoma reimagina esse universo em forma escultórica através de práticas artesanais frequentemente associadas ao feminino, explorando o potencial político e subversivo de técnicas e trabalhos decorativos categorizados por género.
A Plasto-Art

A Plasto-art começa com a escolha de uma matéria-prima simultaneamente banal e problemática: plásticos descartados. Em vez de os encaminhar para um processo industrial, Ifeoma transforma-os manualmente numa etapa inicial que designa como “Plasto-yarning”, convertendo o plástico em “fios” e “tranças” que se comportam como fibra.
A partir daí, são aplicadas técnicas de entrelaçar, coser, enrolar, tecer e construir volumes, com uma lógica próxima da cestaria e da tecelagem tradicional, mas com um material que mantém sempre a memória do seu uso anterior.
O resultado são superfícies densas e vibrantes, onde a cor não provém de pigmento, mas do próprio plástico, reorganizado em camadas, espirais e padrões que podem sugerir arquitectura, mobiliário, corpo humano ou espaços domésticos. Um elemento técnico e simbólico central é a ligação ao African Hair Threading, conhecido como Threading e referido pela artista como Ikpa Owu na língua Igbo.
Esta prática capilar, outrora predominante em zonas da Nigéria e de países vizinhos, é descrita como uma técnica arquitectónica de linhas, tensão e repetição que hoje se encontra em declínio. Ifeoma incorpora esse conhecimento como motor formal: as tranças e amarrações deixam de ser apenas “cabelo” e tornam-se estrutura escultórica.
Assim, a artista converte um gesto cultural em linguagem de construção, ao mesmo tempo que chama a atenção para a perda de práticas tradicionais, para as pressões da modernidade e para os impactos ambientais observados na sua comunidade.
O Simbolismo de Ifeoma U. Anyaeji

O simbolismo do trabalho de Ifeoma nasce do confronto entre dois regimes de valor: o valor do que é considerado “novo” e o valor do que já foi usado. A artista reflecte sobre a imaginação como ferramenta de crescimento e defende que limitar a imaginação restringe a possibilidade de mudança.
A partir dessa premissa, os sacos e as garrafas de plástico descartados são tratados como objectos expulsos da esfera do cuidado. A Plasto-art rompe com essa sentença ao propor uma transição do “descartado” para o “estético” ou até para o “funcional”, mantendo a materialidade do plástico, mas alterando radicalmente o seu estatuto.
Há também um subtexto político e social que emerge da insistência na repetição e no trabalho manual. Ao escolher um processo lento, físico e meticuloso, Ifeoma contrasta com a velocidade do consumo e com a facilidade do descarte. Cada laço e cada trança afirmam uma ética de atenção que funciona como crítica silenciosa ao excesso, à produção em massa e à ideia de que tudo tem prazo curto.
Em vez de uma mensagem única, a artista procura construir obras abertas a múltiplas interpretações, onde coexistem memória pessoal e experiência colectiva, referências a folclore, moda, música e poesia e ainda discussões sobre corpo, espaço doméstico e “sistemas” de valorização social. Esta abertura é coerente com a intenção de estimular respostas colectivas positivas para questões ecoculturais.
Mensagens Cruzadas
As mensagens ambientais são explícitas no ponto de partida: a artista usa materiais que são poluentes persistentes, abundantes em contextos urbanos e difíceis de degradar naturalmente.
No entanto, a abordagem de Ifeoma evita o moralismo directo e procura construir consciência por meio da forma: o plástico não desaparece, não é “purificado” por magia estética, é assumido como presença que atravessa o quotidiano e que, por isso mesmo, pode ser reconfigurado.
Ao afirmar que o material descartado é um “recurso viável” a explorar além do uso predefinido, a artista desloca a responsabilidade para uma imaginação colectiva: a mudança não depende apenas de políticas, depende também do modo como as pessoas interpretam utilidade, beleza e desperdício. Ao mesmo tempo, a dimensão de género não aparece como apêndice temático: está no próprio método.
A ligação ao Threading e a incorporação de técnicas de tecelagem e cestaria colocam em primeiro plano práticas historicamente associadas a trabalho feminino e a artesanato “menor” que muitas vezes foram desvalorizadas por hierarquias coloniais e por modelos académicos que preferiam separar arte e ofício.
Ao transformar essas práticas em estrutura escultórica de grande escala, Ifeoma desafia essa separação e demonstra que aquilo que foi rotulado como doméstico, decorativo ou utilitário pode conter complexidade formal, força conceptual e alcance político. É nesse cruzamento entre ecologia e cultura que a sua obra ganha densidade: não é apenas sobre plástico, é sobre memória, sobre sistemas de valor e sobre o futuro das linguagens tradicionais em sociedades em mutação.
Conclusão
Ifeoma U. Anyaeji construiu uma prática que une rigor artesanal, reflexão crítica e uma ética de reutilização. A artista parte de poluentes concretos, sacos e garrafas de plástico, não biodegradáveis e transforma-os através da Plasto-art e do Threading/Ikpa Owu em esculturas e instalações que lembram têxteis, cestaria e arquitectura, sem perder a memória do material de origem.
O seu trabalho aborda problemas ambientais sem se reduzir a uma mensagem única, liga essa problemática à perda e reinvenção de tradições e introduz uma dimensão de género ao reimaginar rituais e formas culturais com técnicas artesanalmente codificadas.
Ao longo de exposições e projectos em instituições como o BALTIC e o Tramway, a artista demonstra que a arte feita de resíduos pode ser simultaneamente formalmente poderosa e intelectualmente rigorosa. No fim, a Plasto-art funciona como prova de que o lixo não é apenas aquilo que se rejeita: é também aquilo que revela como vivemos, o que valorizamos e o que estamos dispostos a esquecer.
A obra de Ifeoma não promete soluções fáceis, mas oferece um modo de ver: um modo que obriga a reconhecer o peso material do consumo e a imaginar outras formas de relação com os objectos, com a cultura e com o ambiente.
O que achas da arte de Ifeoma U. Anyaeji? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
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Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
