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ToggleA Arte do Lixo: Sokari Douglas Camp, Esculpir O Petróleo
Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepara-te para conhecer Sokari Douglas Camp, natural da Nigéria e mergulhar num dos movimentos criativos mais potentes do continente.
Numa altura em que o consumo desenfreado e a extracção sem controlo dos recursos se tornam símbolos de devastação, há vozes em África que mostram que a arte pode emergir da crise para dar forma à memória, à identidade e à resistência.
Com uma fusão única de tradição kalabari, inovação escultórica e consciência política, Sokari trabalha sobretudo com aço, barris de petróleo reciclados e metais industriais descartados. A sua arte não é apenas estética: é intervenção, é questionamento, é chamada à responsabilidade.
Este é o décimo primeiro artigo de 17, da série Artistas Do Lixo, dedicada a esses criadores visionários que recuperam materiais esquecidos e reinventam a forma de pensar a arte, a sustentação ambiental e o futuro do planeta. Cada peça é uma prova de persistência, criatividade e ligação às suas comunidades — mostra-nos que do que parecia perdido pode nascer um discurso transformador.
Se procuras inspiração, provocação e uma nova perspectiva sobre o que a arte contemporânea pode ser, não percas esta viagem. Vais conhecer uma artista que desafia os limites que recusa o silêncio diante da destruição e que faz de África um palco activo de criação artística a partir do inesperado: o lixo.
Sokari Douglas Camp

Nascida em 1958, na cidade de Buguma, no Delta do Níger, Sokari Douglas Camp cresceu numa região onde o quotidiano é ditado pela água, pela pesca, pelos rituais ancestrais e pelas tensões invisíveis que sempre rondaram o território. Filha do povo Kalabari, herdou uma tradição profundamente ligada às máscaras, às danças cerimoniais e à espiritualidade que atravessa a vida comunitária.
Esta matriz cultural viria a tornar-se o alicerce conceptual do seu trabalho escultórico. Durante a infância, o mundo de Sokari era feito de canoas longas, celebrações que duravam noites inteiras e narrativas transmitidas pela oralidade. A certa altura, porém, a família decidiu enviá-la para o Reino Unido, onde iniciou os estudos numa escola interna em Devon.
O impacto desta travessia — não apenas física, mas identitária — seria decisivo: de um lado, a memória do Delta do Niger; do outro, o choque cultural de um ambiente britânico que pouco ou nada reflectia o imaginário que carregava de casa.
Esse desdobramento entre dois territórios criou na artista uma urgência de afirmação, uma espécie de necessidade íntima de dizer, através da escultura que “o sítio de onde venho importa”.
Antes de regressar definitivamente à Europa, Sokari passou um período decisivo nos Estados Unidos da América (EUA), no California College of Arts and Crafts, onde mergulhou em debates estéticos, experimentou novas técnicas e compreendeu que podia transformar metal em gesto, matéria industrial em voz política.
Seguiu depois para Londres e ali encontrou o ambiente fértil para o seu amadurecimento artístico. Primeiro na Central School of Art and Design, onde começou a trabalhar com aço de forma sistemática e mais tarde no prestigioso Royal College of Art, onde concluiu o mestrado e definiu a estrutura visual que marcaria o seu nome no panorama internacional.
As Luzes da Ribalta
A partir da década de 1980, Sokari começou a emergir como uma das escultoras mais singulares da diáspora africana. Exposições como Alali – Festival Time e Echoes of the Kalabari apresentaram ao mundo a fusão entre tradição nigeriana e técnica contemporânea, sempre ancorada naquele olhar simultaneamente íntimo e crítico sobre o Delta do Níger.
Não demorou até que museus e curadores de várias partes do mundo reconhecessem a força da sua linguagem. Hoje, as suas obras fazem parte de colecções tão distintas quanto o British Museum, o Smithsonian Institution e museus no Japão e na Europa.
Em 2005, a artista foi distinguida como Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE), um reconhecimento raro para uma escultora africana que trabalha com materiais industriais recuperados. Apesar de viver e trabalhar em Londres, Sokari nunca se desprendeu do Delta do Níger.
Continua a regressar ao seu ponto de origem — às suas águas, aos seus ritos, à memória e à dor da extracção petrolífera que continua a marcar a região. A sua vida é, de certa forma, uma ponte permanente: entre tradição e modernidade, entre raízes e deslocamento, entre a violência ambiental e a necessidade de transformar essa violência em forma artística.
A Arte do Petróleo

Sokari Douglas Camp utiliza primordialmente o aço — chapas de metal, perfis, tubos — e recicla também barris de petróleo e lixo industrial para compor as suas esculturas.
A escolha deste tipo de material tem um sentido profundo: o petróleo é o recurso que moldou a sua terra natal e que ao mesmo tempo a contaminou. Ela afirma que o barril de óleo “é familiar em todo o mundo” e recorda-se de os ver no Delta do Níger, mesmo enquanto criança.
Na sua prática artística aparecem figuras humanas estilizadas, máscaras, trajes de festa kalabari transformados em aço, estruturas que evocam movimento, ritual e teatro. A artista menciona que a sua obra parte de desenhos e protótipos que depois traduz directamente em metal, dobrando, cortando e soldando os materiais com um forte sentido físico e visual.
Em certas peças integra também elementos trazidos da modernidade: chapas pintadas, letras recortadas que ligam o local com o mundial. Um exemplo marcante é a obra Green Leaf Barrel (2014), em que utiliza um barril de petróleo cortado ao meio para representar uma figura feminina que brota desse objecto de destruição — imagem simbólica da capacidade de regeneração da região afectada.
Outra das suas obras de relevo é Europe Supported by Africa and America (2015), em que incorpora mangueiras de combustível (petrol nozzles) no corpo da escultura, reforçando a crítica à dependência petrolífera.
O efeito visual das suas peças é forte: o aço cortado revela padrões, as formas lembram vestuário tradicional ou trajes cerimoniais kalabari e as texturas industriais coabitam com a cor e o ornamento visual africano. Assim, o seu trabalho situa-se entre a tradição e a contemporaneidade, o ritual e a crítica, o local e o mundial.
O Simbolismo de Sokari Douglas Camp

Por trás da obra de Sokari Douglas Camp reside um simbolismo múltiplo: o material que escolhe, a forma que representa e o contexto que interroga. Primeiro, há o petróleo — aqui visto como fonte de riqueza, mas também de destruição ambiental, de dependência económica, de devastação ecológica e social para o Delta do Níger.
A artista salienta que na sua zona de origem “é inseguro regressar por causa da má governação e da poluição”. Assim, o barril de óleo reciclado torna-se símbolo da dualidade entre a acumulação de riqueza e a perda de vidas, entre o consumismo e os danos causados por ele.
Em segundo lugar, a cultura kalabari — de onde descende — alimenta a sua estética: os trajes cerimoniais, as máscaras, a dança, o teatro de máscaras, são reinventados em aço. A artista menciona que “sempre tive um pé em ambos os campos” — o da Nigéria e o do Reino Unido — e por isso precisava “gritar alto que a minha cultura é tão importante quanto a vossa”.
Através da escultura, Sokari reivindica a dignidade ancestral e torna visível o invisível: a história, os rituais, a beleza africana.
Em terceiro lugar, há a interligação entre o local e o mundial: ao usar barris de petróleo, lixo industrial e mangueiras de combustível, ela aponta para as cadeias de produção, consumo e desperdício que cruzam os continentes. O uso de logótipos, sacos de plástico ou referências ao consumo em algumas das suas obras sugere que a destruição ecológica do Delta do Níger não é só “lá”, mas está ligada ao “aqui”.
Finalmente, há também um comentário de género e poder. A escolha da escultora em trabalhar com aço — tradicionalmente visto como masculino — e em representar sobretudo figuras femininas ou comunidades do Delta do Níger, sublinha uma “capacidade de resistência” e de reescrever papéis tradicionais.
Assim, o simbolismo na obra de Sokari não é apenas estético: é político, ecológico, identitário e profundamente ligado à materialidade do mundo.
Percurso e Formação

A trajectória de Sokari Douglas Camp desenvolveu-se de forma gradual, firme e profundamente marcada pela intersecção entre dois mundos: o das tradições Kalabari, herdadas da infância no Delta do Níger e o das instituições ocidentais onde consolidou o domínio técnico que definiria o seu percurso enquanto escultora.
Embora tenha iniciado os estudos artísticos fora da Nigéria, foi precisamente esse afastamento geográfico que lhe permitiu olhar para o legado cultural Kalabari com uma nova profundidade, transformando-o em matéria estética e conceptual. Desde cedo a sua produção começou a interligar o legado africano e a vivência ocidental.
A sua primeira exposição individual de relevo, “Alali – Festival Time” (1985), apresentou ao público britânico um conjunto de esculturas que evocavam as celebrações do Delta do Níger e marcou o seu verdadeiro lançamento internacional.
Poucos anos depois, “Echoes of the Kalabari” (1988–1989, Washington DC) reforçou a sua reputação nos EUA ao mostrar como o aço podia assumir a função simbólica das máscaras, das danças e das figuras cerimoniais da sua comunidade de origem.
O mesmo veio a acontecer com a mostra “Spirits in Steel – The Art of the Kalabari Masquerade” (1998–1999, Nova Iorque), onde a artista aprofundou a ligação entre ritual, memória e escultura contemporânea. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Sokari afirmou-se como uma das vozes mais consistentes da escultura africana na diáspora.
A partir da década de 2000, essa afirmação recebeu também reconhecimento institucional: em 2005, foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) pelos seus serviços à arte, um marco particularmente significativo para uma artista que trabalha com materiais muitas vezes descartados pela sociedade industrial.
Instalações de Rua
O seu percurso, porém, não decorre apenas no espaço de estúdio. Sokari tem participado em projectos públicos, memoriais e intervenções urbanas que transportam para o espaço colectivo debates sobre identidade, violência petrolífera e memória histórica.
Hoje, o seu trabalho integra colecções de referência, como o British Museum (Londres), o Smithsonian Institution (Washington) e o Setagaya Art Museum (Tóquio).
A artista vive e trabalha em Londres, mas mantém uma ligação visceral à Nigéria e, em especial, ao Delta do Níger — a sua “terra” simbólica e material. Essa permanência entre duas geografias torna-se uma ferramenta conceptual, permitindo-lhe articular simultaneamente crítica e pertença, denúncia e afecto.
Mensagens Sociais e Ambientais

O trabalho de Sokari Douglas Camp insere-se numa lógica de crítica social e ambiental que raramente se vê com tanta clareza na arte contemporânea africana.
A região do Delta do Níger sofreu e sofre um impacto brutal da extracção petrolífera: fugas de petróleo a contaminarem as águas, degradação ambiental, perda de meios de subsistência tradicionais (pesca, agricultura), contaminação do solo, além da água e deslocação das populações.
Sokari não contorna o tema: ela incorpora-o no seu material de trabalho — os barris de petróleo, o aço industrial, as mangueiras de combustível — e faz da destruição industrial a matéria-prima da arte. Ao transformar os barris de petróleo num símbolo de regeneração (como em “Green Leaf Barrel”), ela questiona o modelo económico que coloca a exploração acima das pessoas e acima dos territórios.
A peça torna-se alegoria da capacidade de reescrever o futuro a partir da devastação. Além disso, a artista destaca a importância da memória cultural: ao usar a estética kalabari — trajes, máscaras, metáforas visuais da comunidade — ela afirma que o mundo marginalizado não está ausente, não está em silêncio. É visível. É escultura. É presente.
As suas obras funcionam também como um memorial à comunidade e ao ambiente que foi sacrificado em nome do petróleo. No plano ambiental, o gesto de reciclar barris, chapas metálicas e lixo industrial é simbólico e prático: parte do material que se tornaria lixo torna-se obra de arte. A artista transforma o desperdicio num acto de criação e propósito.
Os materiais que são símbolo da extracção e do lucro tornam-se assim um veículo de reflexão e consciência. Socialmente, Sokari prova que a arte pode ser um instrumento de força simbólica: destaca a identidade africana, a vida das mulheres kalabari, a crise ambiental do Delta do Níger e a relação Norte-Sul no consumo de energia. A arte torna-se interlocutora de justiça, reparação e dignidade.
Interrogar, Despertar, Renovar

A obra de Sokari Douglas Camp tem plena razão de ser no mundo de hoje. Num tempo em que a extracção de recursos naturais continua a produzir desigualdades profundas, destruição ambiental e fragiliza as comunidades do Delta do Níger, a sua escultura surge como contraponto estético, ético e político.
Não se trata apenas de forma ou técnica; trata-se de uma arte que questiona, provoca e exige uma tomada de consciência. Cada peça funciona como um convite a reflectir sobre os efeitos duradouros da exploração petrolífera e sobre o modo como esta actividade redesenhou geografias, economias e memórias.
Mais do que criar obras de impacto visual fortes, Sokari demonstra que a arte africana contemporânea pode dialogar com o panorama mundial sem abdicar das suas raízes. O encontro entre os barris de petróleo, o aço industrial, a iconografia Kalabari e a realidade sociopolítica do Delta do Níger, constrói uma narrativa simultaneamente local e universal.
A sua escultura é um território onde as tradições ancestrais convivem com os símbolos da modernidade extractiva, expondo tensões, feridas e possibilidades de reconstrução. A sua prática reforça também a ideia de que os materiais carregam história. O metal industrial, a chapa usada, o barril corroído, os restos de maquinaria são fragmentos de um sistema que extrai, consome e descarta.
Sokari reverte esse percurso: em vez de deixar que esses objectos continuem a representar dominação ou abandono, converte-os em veículos de crítica, memória e reimaginação. A transformação do lixo em monumento denuncia e, ao mesmo tempo, reivindica a capacidade criativa das comunidades afectadas para reinventar o que lhes foi imposto.
O Que Esperar?
Seguir o percurso de Sokari Douglas Camp é compreender que a arte não se separa da vida. Ela brota dos solos contaminados, dos rios que deixaram de correr livres, dos protestos esquecidos e das identidades que persistem mesmo quando o poder económico tenta apagá-las.
As suas esculturas lembram-nos que a resistência também é estética que a cultura pode desafiar estruturas e que o olhar atento é o primeiro passo para a mudança. Vale a pena ver a sua obra, percebê-la e deixar que nos inquiete — porque no desconforto nasce, muitas vezes, a vontade de agir.
Conclusão
Sokari Douglas Camp faz parte desse conjunto de artistas africanos que transformam o “lixo” em manifesto — material, simbólico, social — e catalisador de mudança. A sua produção, enraizada no Delta do Níger e alargada ao mundo, reúne tradição, inovação, crítica e criação.
Num mundo saturado de imagens e consumo efémero, a sua arte recorda-nos que a verdadeira riqueza pode estar na consciência, na memória, no acto de reconverter o que foi ferido. O barril de petróleo que figura na sua arte não é um mero objecto: é o símbolo da transformação possível.
A arte de Sokari desafia, incomoda e inspira. Olhar para uma das suas esculturas é confrontar-se com a história do petróleo, da extracção, da cultura, da diáspora e da identidade. Mas é também vislumbrar um futuro em que a criatividade humana transforma a devastação em regeneração.
No panorama contemporâneo da arte feita a partir do inesperado — do desperdício, do lixo, da história invisível — a sua voz sobressai com clareza. Neste momento em que o planeta exige novas narrativas, a obra de Sokari é luminosa e urgente.
O que achas da arte de Sokari Douglas Camp? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
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Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
