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Segunda-feira, Janeiro 12, 2026

Sudão: UE Pressiona E Condena Atrocidades

Num continente onde demasiadas guerras se apagam do noticiário antes de se apagarem da vida das pessoas, o Sudão tornou-se o exemplo mais duro do que acontece quando o silêncio internacional se prolonga por tempo suficiente para banalizar o horror.

Sudão: UE Pressiona E Condena Atrocidades


A guerra no Sudão, a aproximar-se do terceiro ano, transformou-se numa das maiores tragédias humanas do século XXI. O conflito violento entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) já gerou uma devastação sem paralelo.

Cidades sitiadas durante meses, execuções sumárias, violência sexual sistemática, fome usada como método de guerra e um êxodo que já ultrapassa os 12 milhões de pessoas — a maior crise de deslocados do mundo, segundo as Nações Unidas. A captura da cidade de El Fasher, último bastião militar na região do Darfur, marcou um ponto de viragem.

Testemunhos recolhidos por missões humanitárias e pela Missão Internacional Independente de Verificação de Factos da ONU descrevem “um crime em directo”: aldeias queimadas, famílias executadas por motivos étnicos e milhares de pessoas forçadas a fugir para campos sobrelotados sem água, comida ou cuidados médicos. entre as atrocidades.

A União Europeia endureceu a sua posição, aprovando sanções contra Abdelrahim Hamdan Dagalo, número dois das RSF. Advertiu que novas medidas podem atingir todos os que alimentam o conflito, incluindo fornecedores de armas. A UE centra a estratégia na responsabilização, apoiando investigações do Tribunal Penal Internacional (TPI) e da Missão de Averiguação da ONU.

Simultaneamente, EUA, Arábia Saudita e membros do “Quad” procuram relançar as negociações para um cessar-fogo. Contudo, a violência alastra e o risco de desintegração territorial é real. O papel da União Europeia ganha relevância, não só como mediadora, mas como voz que exige que o Sudão não seja abandonado ao caos.


Crimes de Guerra


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Imagem: © 2023 DR

A tomada de El Fasher pelas RSF, após dezoito meses de cerco e fome deliberada, simboliza a brutalidade no Sudão desde Abril de 2023. Segundo o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU, o ataque foi acompanhado por uma “campanha sistemática de violência étnica”, dirigida sobretudo contra comunidades massalit e outras populações de Darfur.

Relatos recolhidos por equipas de emergência descrevem execuções em massa, corpos deixados nas ruas como aviso, violações colectivas e o rapto de mulheres e crianças. Volker Türk, Alto-Comissário das Nações Unidas, afirmou perante o Conselho dos Direitos Humanos que “a comunidade internacional tem o dever moral de agir para evitar a continuação de violações em larga escala”.

Para Türk, o Darfur voltou a transformar-se num “epicentro de violência que lembra os piores momentos da década de 2000”. O impacto humanitário é devastador. O Programa Mundial de Alimentação alerta que mais de 70% da população do Darfur enfrenta a fome severa. Os Médicos Sem Fronteiras relatam crianças com desnutrição aguda após semanas a comer ração animal.

A destruição de infra-estruturas agrícolas e o bloqueio da ajuda internacional agravam o risco de fome generalizada. A intensidade do conflito já adquiriu dimensão regional. As autoridades sudanesas e especialistas da ONU acusam os Emirados Árabes Unidos de apoiar militarmente as RSF, alegações negadas por Abu Dhabi.

A UE sublinha que a continuidade das atrocidades depende de quem, directa ou indirectamente, fornece armas, financiamento ou logística. Esta ligação externa, segundo Bruxelas, alimenta um ciclo de violência incontrolável sem intervenção diplomática concertada.

As Forças Armadas do Sudão negam responsabilidades, mas são também acusadas pela ONU de ataques indiscriminados, incluindo bombardeamentos em zonas residenciais. A competição entre os grupos, antigos aliados pós-Bashir, degenerou numa luta que ameaça destruir a estrutura estatal, transformando o país num vazio político entregue a milícias.


Resposta da UE


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Imagem: © 2025 United Press International

Face à violência, a União Europeia endureceu a sua posição. As sanções contra Abdelrahim Hamdan Dagalo — congelamento de bens e proibição de entrada no espaço europeu — mostram a intenção de Bruxelas em responsabilizar indivíduos.

Kaja Kallas, Alta Representante para a Política Externa, declarou que a “apreensão de El Fasher abriu um novo capítulo devastador no conflito” e que a UE pretende “enviar um aviso inequívoco de que a impunidade tem de terminar”.

O Conselho Europeu considera que as RSF recorreram a métodos proibidos pelo direito internacional: fome como arma, violência sexual, ataques étnicos e bloqueio de ajuda. Estas práticas configuram crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A UE não hesitará em sancionar outros responsáveis — militares, civis ou aliados internacionais — caso continuem a desestabilizar o país.

Paralelamente, a UE reforçou o apoio financeiro às missões de investigação da ONU e aos mecanismos do Tribunal Penal Internacional, insistindo na recolha de provas. Segundo a embaixadora europeia Deike Potzel, tornando a documentação rigorosa uma prioridade absoluta.

“Persistir na impunidade é abrir espaço para novas atrocidades” – Deike Potzel.

A política europeia não se limita às sanções. A UE exige acesso humanitário imediato e irrestrito, insistindo que a protecção de civis não pode depender de um cessar-fogo. Bruxelas apela à aceleração de vistos para situações humanitárias, à eliminação de taxas e ao fim das expulsões arbitrárias de equipas médicas.

A presença permanente da ONU no Darfur, sublinha a UE, “é condição mínima para garantir segurança”. Por fim, a União Europeia pretende alargar o embargo de armas da ONU a todo o Sudão. Para Bruxelas, enquanto existirem rotas de armamento para RSF ou SAF, o conflito escalará.

A UE intensificará também oscontactos diplomáticos com Estados facilitadores, pressionando-os a assumir responsabilidades e a cessar o apoio de guerra.


Reacção Internacional


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Imagem: © 2024 Dany Abi Khalil / BBC

Além da União Europeia, outras potências intensificaram esforços diplomáticos. Os EUA trabalharão com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Egipto para restabelecerem as negociações. O Presidente norte-americano declarou que a violência no Darfur exige uma acção coordenada, sob risco de perda de controlo.

A Arábia Saudita, mediadora anterior, defende um cessar-fogo imediato e propôs a criação de uma supervisão independente. Contudo, a falta de confiança mútua, alimentada por massacres e bloqueios, dificulta os avanços diplomáticos, mantendo a ONU, uma forte presença no terreno.

Tom Fletcher, subsecretário-geral humanitário, descreveu o Darfur como “um verdadeiro horror”, comparando El Fasher a “uma cena de crime a céu aberto”. O Conselho dos Direitos Humanos convocou uma sessão especial, apoiada por Estados-membros da UE, para condenar as atrocidades e reforçar o mandato da Missão de Averiguação de Factos.

“A comunidade internacional tem de agir com urgência para impedir que a violência se transforme em genocídio prolongado” – Volker Türk, Alto-Comissário das Nações Unidas.

Para Türk, a combinação de limpeza étnica, fome, cerco e violência sexual sistemática revela intenções que ultrapassam um conflito convencional. Apesar dos alertas, a resposta internacional fragmenta-se. Divergências entre países que apoiam lados opostos e os que defendem a neutralidade atrasam as resoluções do Conselho de Segurança.

Milhões de sudaneses permanecem presos entre duas forças militares com pouca disposição para negociar. Especialistas em diplomacia africana alertam para um ponto sem retorno: a destruição de El Fasher, a implosão administrativa e o domínio crescente de milícias locais podem significar a desintegração do país.


Colapso Estatal


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Imagem: © 2024 Yao Chen / UNOCHA

A crise humanitária atinge proporções inéditas. Mais de 12 milhões de pessoas abandonaram as suas casas desde 2023, superando crises como a da Síria ou Iémen. No Darfur, as famílias percorrem quilómetros sob bombardeamentos, chegando a campos de deslocados onde falta tudo: água, alimentos, medicamentos, abrigo e segurança. O impacto nas crianças é devastador.

Os Médicos Sem Fronteiras examinaram 70 menores recém-chegados a El Fasher numa noite, todos com desnutrição aguda. Após 500 dias de cerco, muitas famílias sobrevivem com ração animal, alertam as instituições humanitárias. A destruição deliberada de infra-estruturas – hospitais, escolas, mercados, furos de água – torna vastas zonas do Darfur inabitáveis.

A ONU adverte que, sem ajuda imediata, a fome poderá atingir os níveis de 2003–2004. No resto do país, o panorama é grave. Cartum, outrora capital dinâmica, está reduzida a escombros. Bairros desapareceram após combates e saques. As SAF e as RSF disputam zonas residenciais, transformando as ruas, as escolas e os hospitais em trincheiras.

O colapso económico e a ausência de serviços básicos agravam o sofrimento: salários por pagar, hospitais sem electricidade e a moeda desvalorizada em mais de metade. Vários diplomatas africanos alertaram para o risco real de fragmentação territorial, semelhante à Somália nos anos 90, com milícias regionais a controlarem o terreno e o Estado central a perder autoridade.

Este cenário teria consequências desastrosas para o Corno de África, já instável, com grupos extremistas e crises alimentares. Os especialistas alertam que o tempo para impedir o colapso se está a esgotar. Sem um cessar-fogo monitorizado, sem o fim do fluxo de armas e sem um compromisso político efectivo, o país corre o risco de se tornar um vazio de poder ingovernável e irreversível.


Conclusão


O Sudão vive um dos momentos mais sombrios da sua história. Violência extrema, fome deliberada, deslocamento massivo e destruição de infra-estruturas essenciais colocam o país à beira do colapso.

A resposta da União Europeia — sanções, responsabilização, embargo de armas e pressão diplomática — é um passo significativo, mas insuficiente para travar a espiral de violência. No entanto, a complexidade do conflito transcende a mera luta entre a SAF e a RSF, envolvendo uma intrincada rede de interesses regionais e internacionais, bem como tensões étnicas e históricas no país.

A intervenção de actores externos que directa ou indirectamente apoiam as facções, adiciona camadas de dificuldade à resolução pacífica, tornando o panorama ainda mais volátil e imprevisível.

Assim, o futuro do Sudão depende de três factores essenciais: a capacidade das partes em cessarem as hostilidades, o compromisso real dos actores externos em suspender o apoio militar e financeiro às facções armadas e o relançamento urgente de um diálogo inclusivo que envolva todas as partes interessadas.

A comunidade internacional, pelo seu lado, enfrenta uma escolha decisiva. Ignorar a crise significa permitir a desintegração do país e o risco para milhões de vidas. Agir exige coordenação, firmeza diplomática e investimento prolongado. UE, ONU e os parceiros regionais deixaram claro: as atrocidades não podem continuar impunes.

A paz ainda é possível, mas o tempo esgota-se perigosamente.

 


O que pensas da posição da EU perante a crise do Sudão? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2025 United Press International / Francisco Lopes-Santos
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