O Dia Em Que Trump Declarou Anarquia Mundial
Donald Trump, ao ordenar o ataque norte-americano à Venezuela no início de 2026, marcou um dos momentos na História em que uma decisão rasga definitivamente o tecido das regras internacionais, empurrando o mundo para uma nova era.
Não foi apenas uma operação militar; foi a consagração da anarquia como método e a da força bruta como linguagem diplomática. Nesse dia, morreu o Ocidente pois deixou de existir tal como o conhecíamos.
Ao ordenar uma intervenção armada em território venezuelano sem ter um mandato internacional, sem apoio formal de aliados e sem qualquer base jurídica credível, Trump deixou claro que os Estados Unidos da América (EUA) já não se sentem vinculados às normas que ajudaram a criar após a Segunda Guerra Mundial.
O rapto do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, anunciada com triunfalismo a partir da Casa Branca, simboliza algo mais profundo: a normalização da mudança de regime como espectáculo político e instrumento de poder pessoal.
A justificação apresentada – a existência de um “Narco-Estado terrorista” responsável por uma vaga de opiáceos nos EUA – não resiste a nenhum tipo de análise séria. As rotas do tráfico que alimentam a crise norte-americana passam essencialmente pelo México e por redes transnacionais, não pela Venezuela.
A narrativa serviu apenas como pretexto, tal como no passado serviram as inexistentes armas de destruição maciça no Iraque. O resultado é conhecido: caos prolongado, instabilidade regional e a erosão moral das democracias que afirmavam defender a lei internacional.
O que Trump fez não é apenas ilegal. É estrategicamente irresponsável. Ao atacar um vizinho soberano sem apoio internacional, os EUA abriram um precedente perigoso que altera o equilíbrio mundial. A mensagem é simples e devastadora: quem tem poder militar pode usá-lo quando quiser. As regras deixaram de ser universais e passaram a ser opcionais.
Este gesto concede, na prática, carta branca a outras potências. A Rússia passa a ter legitimidade implícita para consolidar e expandir a ocupação da Ucrânia. A China ganha um argumento sólido para avançar sobre Taiwan, invocando interesses históricos e estratégicos. Se Washington pode redesenhar fronteiras à força no seu “quintal”, porque não Moscovo ou Pequim nos seus?
Entrámos numa era de esferas de influência assumidas, onde o mundo é repartido como num novo Tratado de Tordesilhas do século XXI. O hemisfério ocidental sob controlo directo dos EUA, a Europa Oriental sob a sombra russa, o Indo-Pacífico dominado pela China. Não há arbitragem, não há garantias, não há salvadores. Apenas poder, cálculo e intimidação.
A Europa, paralisada por dependências estratégicas e medos políticos, assiste em silêncio. A NATO, esvaziada de sentido, limita-se a sobreviver como estrutura burocrática. Países outrora aliados são agora vulneráveis a ameaças explícitas, incluindo anexações e intervenções “preventivas”, como Trump já deu a entender em relação ao Canadá, Gronelândia e agora Cuba.
A distinção entre amigo, aliado e alvo tornou-se difusa. O mais inquietante é que esta transformação não é acidental. É deliberada. Trump não está a quebrar regras por impulso; está a substituí-las por um mundo onde a força define a razão e onde a diplomacia é um instrumento secundário.
Ao politizar as forças armadas, fragilizar o sistema judicial e favorecer interesses económicos próximos do poder, os EUA aproximam-se perigosamente de modelos autoritários que antes criticavam.
Para África, as implicações são graves. Um mundo sem regras é um mundo onde os Estados mais frágeis se tornam tabuleiros de disputa, zonas de extracção e territórios descartáveis. A história mostra que, quando o direito internacional colapsa, o Sul Global paga sempre um preço elevado.
O que se viveu nos primeiros dias deste ano de 2026 não foi apenas uma crise venezuelana. Foi a declaração informal de um novo sistema mundial. Um sistema em que ninguém está verdadeiramente seguro, em que os tratados valem pouco ou nada e em que a violência volta a ser a linguagem legítima das grandes potências.
O Ocidente terminou não com um colapso ruidoso, como muitos preconizavam, mas sim com um acto de arrogância. E o mundo acordou este ano, mais perigoso, mais cínico e mais solitário.
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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
