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ToggleNíger: Rússia Ganha Força Com Aposta No Nuclear
O Níger, um país árido situado na orla do Sahara e dependente da importação de electricidade, entrou para centro de uma nova disputa internacional que está a redefinir o panorama energético e geopolítico da África Ocidental. A Rússia apresentou a possibilidade de construir uma central nuclear no território, prometendo não só energia, mas também um futuro de maior autonomia tecnológica.
A proposta surge no momento em que a junta militar nigerina rompeu definitivamente as relações históricas com a França, a antiga potência colonial que durante mais de cinquenta anos explorou o urânio nigerino através do grupo Orano, sem, no entanto, partilhar os benefícios tecnológicos com o país fornecedor.
Mais do que uma simples questão energética, este confronto representa um choque de estratégias e de visões sobre o papel de África no mundo. Enquanto a França perde terreno, limitada pela sua herança colonial e por décadas de exploração unilateral, a Rússia surge como nova potência disposta a investir na cooperação técnica e a oferecer alternativas à dependência externa.
Mas por detrás das promessas pairam muitas dúvidas, tanto técnicas, como económicas e de segurança, num dos territórios mais instáveis do planeta. É neste panorama que se joga o futuro do Níger: entre o passado marcado pela dominação francesa e a aposta arriscada numa parceria russa que poderá transformar o equilíbrio de forças no Sahel.
A Proposta Russa

A Rússia apresentou ao Níger, um vasto estado árido na orla do Deserto do Sahara que tem de importar a maior parte da sua electricidade, apesar de ser rico em urânio, a possibilidade de vir a construir uma central nuclear no país, ao mesmo tempo que proporciona autonomia tecnologia.
Pode ser considerado impraticável e talvez nunca venha a acontecer, mas o conceito é mais um movimento de Moscovo para procurar ganhar vantagem geopolítica sobre as nações ocidentais. Historicamente, o Níger exportou o metal para posterior refinação em França, mas isso está a mudar, à medida que o país, governado por uma junta militar, corta os laços com a antiga potência colonial.
A operação mineira do urânio, explorada pelo grupo nuclear francês Orano, foi nacionalizada em Junho, o que abriu caminho para que a Rússia se apresentasse como novo parceiro.
Fala-se em geração de energia e aplicações médicas, com aposta na formação de quadros locais, no âmbito de um acordo de cooperação assinado entre a corporação estatal russa Rosatom e as autoridades nigerinas.
Se alguma vez se concretizar, este será o primeiro projecto de energia nuclear a ser realizado na África Ocidental. Para além das discussões iniciais, não está claro até que ponto este caminho avançará. Mas já com este primeiro gesto, Moscovo mostrou compreender a profundidade das frustrações locais.
O Fim da Era Francesa

Durante mais de cinco décadas a Orano – conhecida como Areva até 2018 – explorou o urânio do Níger, para abastecer o sector nuclear que está no centro da estratégia energética de França. A empresa estatal francesa obtém agora a maior parte dos seus fornecimentos do Canadá e do Cazaquistão e tem projectos em desenvolvimento na Mongólia e no Usbequistão.
Mas a ligação ao Níger continuava significativa e carregada de um peso político e talvez até cultural. Contudo, Paris não partilhou o seu conhecimento em energia nuclear com o seu fiel fornecedor africano. O Níger, entretanto, tem de depender em grande medida de geração a carvão e de importações de electricidade da Nigéria.
Mas agora, a ruptura nas relações entre a junta nigerina e a França permitiu a Moscovo oferecer a esperança, ainda que distante, de um futuro nuclear – algo que a Areva/Orano, ao longo de tantos anos de actividade local, nunca quis proporcionar.
“A nossa tarefa não é apenas participar na exploração de urânio”.
“Devemos criar todo um sistema para o desenvolvimento da energia nuclear pacífica no Níger”.
Declarou o ministro russo da Energia, Sergei Tsivilev, a 28 de Julho de 2025, durante uma visita a Niamey, a capital do país.
O Valor Estratégico do Urânio

Naturalmente, isto não é inteiramente altruísta. Existem benefícios económicos para a Rússia e trata-se de parte de um esforço mais vasto para afastar a influência ocidental da região do Sahel. Os russos poderão ter a oportunidade de desenvolver a mina de Imouraren, uma das maiores jazidas de urânio do mundo.
Um plano francês para desenvolver o local foi inicialmente travado pelo colapso da procura mundial de urânio após o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. Foi reactivado em meados de 2023, apenas para que a junta militar que tomou o poder semanas mais tarde, cancelasse os direitos da Orano sobre o depósito de Imouraren.
Apossar-se deste activo-chave cimentaria a já importante posição da Rússia na produção mundial de urânio, uma mercadoria hoje tão vital para as esperanças do mundo de que a energia nuclear ajude a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa.
E Moscovo poderá muito bem comprar, a um preço favorável, a totalidade ou parte das até 1.400 toneladas de concentrado semi-processado de urânio, conhecido como “yellowcake” que aguardam exportação da mina Sominak, operada pela Orano em Arlit e que foi apreendida pelo Níger em Junho.
As reservas começaram a acumular-se depois de o bloco regional da África Ocidental, a CEDEAO, ter imposto um bloqueio comercial ao Níger, após a deposição do presidente civil do país, Mohamed Bazoum, em Julho de 2023. Mas mesmo depois de as sanções terem sido levantadas, o novo regime militar impediu a Orano de retomar os embarques.
A certa altura, a China também demonstrou interesse em comprar parte do concentrado. Os nigerinos chegaram mesmo a explorar contactos com o Irão, até que os Estados Unidos da América os advertiram a não prosseguir qualquer venda nessa direcção específica.
Entre Promessas e Realidade
É claro que a imagem de uma central nuclear nigerina, tal como Tsivilev descreveu, levanta enormes questões – técnicas, económicas e relativas à segurança numa região conhecida pelo militância islamista. De facto, os franceses nunca pareceram considerar a opção digna de análise séria.
Enquanto a refinação do minério “yellowcake” podia ser feita no Níger, a subsequente conversão, enriquecimento e transformação em combustível nuclear era realizada no estrangeiro, na fábrica da Orano em Cap de la Hague, na Normandia. Dali era entregue às centrais nucleares francesas.
Construir uma central nuclear pode levar anos e tais projectos requerem uma enorme quantidade de investimento de capital e, uma vez operacionais, necessitam de uma rede eléctrica ampla e segura. Além disso, a viabilidade depende da disponibilidade de consumidores industriais e domésticos que possam suportar o preço da energia gerada.
Existem também dúvidas sobre se uma central nuclear poderia ser construída e protegida em segurança no actual e frágil Sahel, assolado pela violência. Grupos armados jihadistas controlam grandes áreas de território no Mali e no Burkina Fasso, bem como partes do oeste do Níger, o que torna a zona altamente insegura.
Dadas as dificuldades, os custos e as complicações de desenvolver o sector nuclear no Níger, isto continua a ser uma perspectiva distante. Provavelmente não oferece uma solução imediata para aliviar a actual pressão sobre o fornecimento de energia ou a necessidade de diversificação económica, mas, de certo modo, estas questões técnicas perdem-se no essencial do debate.
Uma Visão Diferente

O que a Rússia soube aproveitar foi o sentimento de ressentimento dos nigerinos face à suposição francesa de que deveriam contentar-se indefinidamente em permanecer como fornecedores de minerais brutos, sem a esperança de algum dia ascender a um nível mais industrializado.
As juntas militares aliadas nos vizinhos Mali e Burkina Fasso aplicaram já a sua visão soberanista africana ao seu maior produto de exportação, o ouro. Novas regras de prospecção obrigam os investidores estrangeiros a conceder papéis mais relevantes a parceiros empresariais locais e a garantir que parte da produção seja refinada internamente, mantendo mais “valor acrescentado” de empregos e lucros em casa.
O Mali chegou mesmo a deter alguns executivos da empresa mineira canadiana Barrick durante meses, devido a uma disputa sobre receitas. Agora o Níger também decidiu endurecer a sua posição. O encerramento e a subsequente nacionalização das operações da Orano foram rodeados de recriminações mútuas, com o governo e a empresa a acusarem-se mutuamente de obstrucionismo.
O director do grupo no país, Ibrahim Courmo, encontra-se detido desde Maio, sem acusação formal. E a junta actualmente no poder parece determinada a pôr fim à era da exploração de urânio francesa no Níger, com um responsável a afirmar ao jornal parisiense Le Monde que a Orano se estava a empanturrar com os recursos naturais do Níger.
Quem poderá dizer o que as propostas de Moscovo para uma parceria científica nuclear e talvez mesmo para a geração de energia, virão a representar em termos concretos? Mas uma coisa é clara: no Níger, foram os russos que souberam ler correctamente o clima político.
Conclusão
A disputa pelo urânio do Níger ultrapassa o simples domínio sobre uma jazida mineral: trata-se de uma batalha pela influência política e económica em África. Ainda que o futuro nuclear do Níger permaneça distante, o episódio ilustra uma mudança fundamental: a redefinição da soberania africana sobre os seus recursos estratégicos, já transformaram o tabuleiro político do Sahel.
Enquanto Paris perde espaço, incapaz de responder às críticas de décadas de exploração sem desenvolvimento local, Moscovo apresenta-se como um novo actor disposto a investir não apenas na extracção, mas também na promessa de transferência de conhecimento e criação de capacidade industrial.
Contudo, os desafios técnicos, financeiros e de segurança levantam dúvidas sérias sobre a viabilidade de um projecto nuclear em pleno Sahel. Entre promessas e tensões, o que se torna evidente é que o Níger já não aceita o papel de fornecedor passivo de matérias-primas e procura afirmar-se como protagonista do seu próprio futuro energético.
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Imagem: © 2024 Issifou Djibo / EPA via Shutterstock