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ToggleMoçambique: ONG Dá 5 Toneladas De Roupa
As cheias em Moçambique estão a marcar de forma dramática o início de 2026 e continuam a deixar um rasto de destruição humana e material. Num contexto de destruição de casas, bens e meios de subsistência, a ADPP Moçambique iniciou a distribuição de cinco toneladas de roupa em segunda mão às vítimas das inundações nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane.
A iniciativa arrancou a 17 de Fevereiro, no centro de acolhimento da Escola Básica 19 de Outubro, no distrito de Boane, em coordenação com o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). A iniciativa surge num momento em que o país contabiliza 228 mortos, 12 desaparecidos, 321 feridos e mais de 863 mil pessoas afectadas desde Outubro.
Só as cheias de Janeiro afectaram mais de 724 mil pessoas, enquanto a passagem do ciclone Gezani, em Fevereiro, em Inhambane, agravou o quadro, provocando novas mortes e destruição adicional.
Num panorama em que milhares de famílias perderam casas, bens e meios de subsistência, o acesso a vestuário torna-se uma necessidade básica imediata, especialmente nos centros de acolhimento temporários. Mais do que uma acção pontual, a distribuição integra uma resposta humanitária mais ampla num país que enfrenta, ano após ano, o impacto severo de fenómenos climáticos extremos.
Resposta Humanitária
A primeira fase da operação contemplou 480 famílias no centro de Boane, correspondendo a uma tonelada e meia de vestuário distribuído em pacotes familiares, pacotes para crianças e pacotes destinados a mulheres. O centro de acolhimento da Escola Básica 19 de Outubro é o maior do distrito e continua a receber deslocados que perderam quase tudo.
Segundo Moniz Comboio, representante da ADPP Moçambique, a organização mobilizou-se após ter constatado o impacto positivo da distribuição de vestuário nas cheias de 2023, naquele mesmo local. A experiência anterior reforçou a decisão de actuar novamente com rapidez.
Nos próximos dias, estão programadas acções semelhantes nos centros de acolhimento do distrito de Marracuene, abrangendo a restante quantidade das cinco toneladas disponibilizadas nesta fase.
O INGD mantém a coordenação das respostas de emergência, enquanto organizações da sociedade civil e outros parceiros institucionais reforçam o apoio em áreas essenciais como o abrigo, a alimentação e a assistência básica. Entre os beneficiários encontram-se famílias que chegaram aos centros de acolhimento apenas com a roupa do corpo.
Olga Kongole foi forçada a abandonar a sua residência no bairro 25 de Setembro e perdeu não apenas os seus bens pessoais, mas também o pequeno negócio de produção e venda de bebida tradicional que garantia o sustento familiar.
“Estamos a recomeçar a nossa vida com os bens que temos recebido de pessoas de boa vontade”, afirmou.
Teresa Fabião, mãe solteira de três filhos, viu a sua casa inundada e o seu negócio de reciclagem interrompido.
“Chegámos aqui apenas com a roupa do corpo, porque todo o nosso vestuário foi levado pelas águas”, relatou.
O vestuário distribuído representa um elemento básico de dignidade num momento em que milhares de famílias enfrentam incerteza quanto ao regresso às suas casas e à recuperação das suas fontes de rendimento.
“Calamidade”: Economia e Sustento
O vestuário em segunda mão desempenha um papel estrutural na economia moçambicana. Conhecido localmente como “calamidade”, tem uma dimensão que ultrapassa a resposta humanitária, sendo um sector estruturante da economia moçambicana.
Um estudo divulgado em 2025 concluiu que esta actividade sustenta mais de 200 mil empregos formais e informais e apoia cerca de um milhão de pessoas. O relatório, realizado pela Consulting For Africa e pela Abalon Capital Limitada, concluiu que esta actividade tem um papel vital na vida quotidiana e na economia do país, funcionando como catalisador para o crescimento económico.
Estima-se que Moçambique importe aproximadamente 36.750 toneladas anuais de vestuário em segunda mão, com um crescimento da procura na ordem dos 3,5% no último ano analisado. Cada tonelada importada sustenta cerca de 7,8 empregos directos e indirectos.
Nos mercados urbanos, a venda de roupa usada constitui uma actividade âncora, especialmente para mulheres e jovens, funcionando como alternativa de sobrevivência num panorama económico marcado por vulnerabilidades estruturais.
A ADPP Moçambique é uma organização não governamental moçambicana que trabalha nas áreas da educação de qualidade, saúde e bem-estar, agricultura sustentável e ambiente. Criada em 1982, a organização tem crescido de forma constante, expandindo as suas intervenções por todo o país com a implementação de vários projectos.
Actualmente emprega cerca de 3.300 pessoas e implementa mais de 50 projectos em todas as províncias do país, beneficiando cerca de 8.2 milhões de moçambicanos todos os anos. As actividades da ADPP dependem do financiamento de parcerias que foram criadas e estabelecidas ao longo de mais de 40 anos da sua existência no país.
Conclusão
Num país onde os fenómenos climáticos extremos se tornaram recorrentes, a resposta às cheias exige mais do que acções emergenciais. As cinco toneladas agora distribuídas representam um gesto concreto de solidariedade num momento de fragilidade nacional.
Entre perdas humanas, casas destruídas e negócios interrompidos, a reconstrução começa por pequenos passos. O vestuário entregue nos centros de acolhimento não resolve todos os desafios, mas devolve às famílias afectadas um mínimo de conforto e dignidade enquanto Moçambique enfrenta mais uma época das chuvas marcada por vulnerabilidade climática crescente.
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Imagem: © 2026 ADPP Moçambique
