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ToggleEtiópia: ONG Querem Fechar Maior Mina De Ouro
A maior mina de ouro a céu aberto da Etiópia voltou ao centro do debate público e internacional. Organizações não governamentais (ONG) e comunidades locais da região de Oromia intensificaram os apelos à suspensão das actividades da Mina de Lega Dembi, explorada pela MIDROC Gold, alegando danos ambientais graves e riscos significativos para a saúde das populações residentes.
As denúncias acumulam-se há vários anos e apontam para contaminação de fontes de água, degradação do solo e aumento de problemas de saúde associados à actividade mineira. Situada numa zona rural densamente habitada, a mina tornou-se um símbolo das tensões entre exploração de recursos naturais e direitos das comunidades locais.
Estudos independentes e relatos de residentes referem a presença de substâncias perigosas, como mercúrio e cianeto, no ambiente, associando a actividade mineira a complicações reprodutivas, doenças crónicas e deformidades congénitas.
As autoridades etíopes chegaram a suspender temporariamente as operações após protestos violentos em 2018, mas a actividade foi retomada, aprofundando a desconfiança entre a população e a empresa.
Poluição Ambiental

As acusações de poluição ambiental estão no centro das críticas dirigidas à exploração da mina de Lega Dembi. Segundo organizações locais e internacionais, a actividade mineira tem afectado de forma directa o rio Lega Dembi, principal fonte de água para consumo humano, agricultura e pecuária na região.
Amostras recolhidas ao longo dos anos indicam níveis elevados de mercúrio e cianeto na água e no solo, substâncias amplamente utilizadas no processo de extracção do ouro e conhecidas pelos seus efeitos tóxicos.
Os residentes relatam alterações visíveis na qualidade da água, perda de colheitas e mortalidade de animais, elementos que reforçam a percepção de que a contaminação ambiental está a afectar de forma directa os meios de subsistência locais. A poluição atmosférica é outro ponto de preocupação, com queixas recorrentes sobre poeiras e emissões associadas às operações a céu aberto.
Para comunidades cuja economia depende quase exclusivamente da agricultura de subsistência, estes impactos representam uma ameaça existencial. As ONG sublinham que os danos ambientais não se limitam ao perímetro imediato da mina, mas estendem-se a áreas mais vastas, afectando ecossistemas e recursos hídricos partilhados.
A ausência de informação pública detalhada sobre a gestão de resíduos mineiros e sobre planos de mitigação ambiental alimenta a suspeita de negligência e dificulta qualquer avaliação independente credível sobre a verdadeira dimensão dos impactos.
Transparência e Responsabilidade

A ausência de transparência é um dos pontos mais criticados no caso da mina de Lega Dembi. Organizações da sociedade civil acusam a MIDROC Gold de não divulgar de forma adequada os estudos de impacto ambiental e de minimizar os danos causados pela exploração.
Esta opacidade dificulta o escrutínio público e impede que investigadores independentes avaliem a conformidade da mina com normas ambientais e de saúde internacionalmente reconhecidas.
A empresa pertence ao bilionário Mohammed Hussein al-Amoudi, uma das figuras empresariais mais influentes da Etiópia, o que acrescenta uma dimensão política ao debate. Para as ONG, a influência económica do grupo não deve servir de escudo contra a responsabilização ambiental e social.
A pressão actual não se limita à suspensão imediata das operações. As ONG exigem maior transparência, a divulgação de estudos de impacto ambiental e a implementação de medidas rigorosas de reparação ambiental e de saúde pública.
O caso de Lega Dembi levanta questões mais amplas sobre a governação dos recursos naturais, a responsabilidade empresarial e a justiça ambiental num país que procura equilibrar crescimento económico com estabilidade social.
A exigência central passa pela suspensão definitiva das actividades ou, em alternativa, pela imposição de medidas rigorosas de reparação ambiental, compensação às comunidades afectadas e acompanhamento de saúde a longo prazo.
O caso de Mina Ouro Etiópia é frequentemente citado como um teste à capacidade do Estado etíope para regular o sector extractivo de forma equilibrada, garantindo crescimento económico sem sacrificar direitos humanos e ambientais. A forma como este conflito será resolvido poderá estabelecer precedentes importantes para outros projectos mineiros no país.
Saúde Pública

Os riscos para a saúde das populações vizinhas são apresentados como uma das consequências mais graves da actividade mineira em Lega Dembi.
Estudos citados por organizações de defesa ambiental associam a exposição prolongada a metais pesados e produtos químicos tóxicos a um aumento de problemas de saúde, incluindo doenças respiratórias, complicações reprodutivas e casos de deformidades congénitas.
Embora a empresa conteste a relação directa entre a mina e estes problemas, a percepção de risco permanece elevada entre os residentes. Mulheres e crianças são frequentemente apontadas como os grupos mais vulneráveis. Relatos de abortos espontâneos, infertilidade e doenças crónicas reforçam o clima de medo e desconfiança.
Em regiões com acesso limitado a cuidados de saúde especializados, a dificuldade em diagnosticar e tratar estas condições agrava o impacto social da crise. Para as comunidades locais, a ausência de respostas claras e de programas de acompanhamento médico sistemático é vista como uma falha grave tanto da empresa como das autoridades reguladoras.
As ONG defendem a realização de estudos epidemiológicos independentes e a implementação imediata de medidas de saúde pública, incluindo rastreios médicos regulares e compensações para as famílias afectadas. Sem estas acções, alertam, o custo humano da exploração mineira continuará a aumentar, transformando um projecto económico estratégico num foco permanente de instabilidade social.
Conflito Social

A renovação da licença de exploração da mina, em 2018, marcou um ponto de viragem no conflito entre a MIDROC Gold e as comunidades locais. A decisão governamental, tomada apesar da oposição expressa de residentes e líderes comunitários, desencadeou protestos violentos na região de Oromia.
Os confrontos resultaram em mortes, detenções e na suspensão temporária das operações, numa tentativa de conter a escalada de tensão. No entanto, a retoma da actividade mineira, sem que as principais preocupações ambientais e de saúde fossem resolvidas de forma transparente, aprofundou a sensação de injustiça.
Para muitos residentes, o episódio confirmou a percepção de que os interesses económicos prevalecem sobre os direitos das comunidades afectadas. O conflito social em torno de Lega Dembi passou a integrar um contexto mais amplo de contestação local contra projectos extractivos percebidos como impostos sem consulta adequada.
Os analistas sublinham que a falta de diálogo estruturado e de mecanismos eficazes de participação comunitária contribuiu para a radicalização das posições. As ONG defendem que a suspensão das actividades é necessária não apenas por razões ambientais, mas também como medida de descompressão social, capaz de abrir espaço para negociações credíveis e soluções duradouras.
Conclusão
A contestação em torno da mina de Lega Dembi expõe as contradições de um modelo de desenvolvimento baseado na exploração intensiva de recursos naturais em contextos sociais frágeis. As denúncias de poluição, riscos para a saúde e conflitos sociais transformaram a maior mina de ouro da Etiópia num caso emblemático de justiça ambiental em África.
A pressão exercida por ONG e comunidades locais reflecte uma exigência crescente de responsabilidade, transparência e participação. Mais do que uma disputa localizada, Lega Dembi representa um debate mais amplo sobre quem beneficia da riqueza mineral e quem suporta os seus custos.
O desfecho deste processo será determinante para o futuro das comunidades afectadas e para a credibilidade das políticas extractivas num país que procura afirmar-se economicamente sem comprometer a coesão social.
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Imagem: © 2018 DR
