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ToggleCOP30: O Futuro Da Humanidade Discute-se Hoje
Começou hoje a COP30. Entre 10 e 21 de Novembro de 2025, mais de 190 países discutem como travar a subida da temperatura num planeta que já tocou a fasquia simbólica de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais e onde 2024 foi o ano mais quente de sempre.
O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, exigiu que a conferência “leve a sério os alertas da ciência” e chamou a atenção para duas frentes inadiáveis: acelerar a transição energética e proteger as florestas. António Guterres, Secretário-Geral da ONU, tratou os 1,5ºC como uma “linha vermelha para a humanidade” e insistiu no verbo que faltou nas cimeiras anteriores: implementar.
Do lado diplomático, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, sugeriu concentrar esforços em decisões operacionais que não dependam de consensos frágeis e reconheceu mudanças de protagonismo com países emergentes a chegarem “com soluções”, num momento em que a China difunde tecnologias limpas a custos competitivos.
“Os países emergentes estão aparecendo nesta COP com um papel diferente. A China está chegando com soluções para todos”, disse.
Em paralelo, Simon Stiell, chefe da Convenção do Clima da ONU, apresentou uma síntese das NDC a indicar queda projectada de 12% das emissões até 2035 face a 2019, sinal de que a curva começa a dobrar, ainda que devagar. No rio e nas ruas, povos indígenas vindos dos Andes até Belém pedem voz efectiva na gestão dos territórios e lembram que a crise climática já lhes toca a casa e o corpo.
Com este pano de fundo, a agenda abre por onde quase sempre falhámos: finanças, ritmo da descarbonização, adaptação e governação.
A Agenda da COP30

A cimeira do clima que se realiza em Belém, na Amazónia, começou esta segunda-feira e é vista como o momento decisivo para salvar o Acordo de Paris e evitar o colapso ambiental. O presidente do Brasil Lula da Silva, no discurso de abertura citou do povo Yanomami da Amazónia.
“Cabe aos seres humanos sustentar o céu, para que não caia sobre a Terra”.
Três décadas de COP deixaram um arquivo cheio de marcos e omissões. Tivemos a criação da Convenção em 1992, o Protocolo de Quioto em 1997, o Acordo de Paris em 2015, o “balanço” de Glasgow em 2021, o reconhecimento do afastamento dos fósseis em 2023 e, em Baku 2024, a indicação de um novo patamar para financiamento climático.
No entanto, as emissões mundiais não iniciaram uma descida sustentada e os impactos agravam-se em ondas de calor, cheias, secas e perdas de biodiversidade.
A ciência tem sido coerente: cada décimo de grau evitado poupa vidas e riqueza, a electrificação e as renováveis ganham com a escala, a eficiência energética é a “primeira energia” e o fim da desflorestação até 2030 é condição obrigatória de estabilidade climática, hídrica e agrícola.
Em Belém, o teste é operacional. O debate sobre abandonar gradualmente os combustíveis fósseis precisa de um mapa com prazos e salvaguardas sociais. As Contribuições Nacionalmente Determinadas devem ser revistas para alinhar com os 1,5ºC, sob pena de ficarmos num trilho de 2,5 ºC.
O tema agrícola, tantas vezes empurrado para a margem, entra por fim na sala porque as emissões do sector e a segurança alimentar vivem na mesma realidade. O presidente da COP30 advoga colheitas de decisões específicas e verificáveis em vez de comunicados grandiloquentes.
Stiell insiste que o Acordo de Paris “funciona” sempre que liga negociação a mudanças na economia real: cada gigawatt limpo corta poluição e cria empregos, cada acção persistente salva-vidas e protege cadeias de abastecimento. O fio condutor é a credibilidade: metas com calendário e métricas com acompanhamento público.
PALOP na COP30

Do lado lusófono africano, a mensagem chegou clara. Angola apresentou a Estratégia Nacional para as Alterações Climáticas, a chamada NDC 3.0, assente numa economia de baixo carbono com reforço solar e hídrico, eficiência energética e melhor gestão de resíduos.
“Adaptar é sobreviver” foi a frase-chave da intervenção da delegação angolana, que pediu uma transição justa e solidária e sublinhou as vulnerabilidades que atingem a agricultura, a água e a saúde.
Cabo Verde, o pequeno Estado insular responsável por apenas 0,0017% das emissões mundiais, reiterou o apelo para que as promessas financeiras se tornem desembolsos acessíveis, com taxas compatíveis e assistência técnica, porque o défice entre o que os arquipélagos conseguem fazer e o que necessitam continua a crescer.
Moçambique insistiu num ponto concreto e recorrente em todo o Sul mundial: menos burocracia no acesso aos fundos e mais rapidez na aprovação de projectos de adaptação e resistência.
As delegações dos PALOP alinham-se ainda com a ambição de Belém ao defenderem que o roteiro Baku–Belém feche as lacunas entre metas e meios, tanto no financiamento como na transferência de tecnologia e no reforço de capacidades. Na frente política, a Aliança dos Pequenos Estados Insulares recorda que 1,5ºC não é um slogan é uma fronteira existencial.
Para que isto saia do plano das intenções, os países mais ricos têm de cumprir a palavra dada, clarificar os fluxos de perdas e danos e garantir que os mecanismos de acesso não excluem quem mais precisa. Em Belém, os PALOP trazem exemplos de adaptação local e pedem escala, rapidez e previsibilidade para transformar projectos pilotos em políticas públicas duradouras.
Finanças, Oceanos e Metano

O clima mede-se também em números que o mundo financeiro entende. A WWF projecta um custo de 7,7 biliões de euros para a economia mundial na próxima década se a degradação dos oceanos continuar ao ritmo actual, lembrando que a saúde marinha é um activo que sustenta a pesca, o turismo, as propriedades costeiras, o crédito e o emprego.
A recomendação é directa a bancos centrais e supervisores: integrar o risco oceânico na política monetária, nos testes de resistência e na regulação, para que o sistema financeiro deixe de financiar a erosão do seu próprio capital natural.
Noutro flanco de ganhos rápidos, a Bloomberg Philanthropies anunciou 100 milhões de dólares para cortar no metano, gás de efeito de estufa de vida curta, com grande potencial de abatimento imediato em petróleo e gás, agro-pecuária e resíduos.
A verificação por satélite, protocolos de medição e reparação de fugas e transparência de dados criam um ciclo virtuoso de identificação-intervenção-verificação. Do lado industrial, a queda de custos no solar, eólica e armazenamento, puxada pela escala asiática e pela concorrência, aproxima-se do ponto de inflexão em múltiplos mercados, o que reforça a viabilidade económica da transição.
Mas tecnologia sem linhas concretas produz desalinhamentos. É por isso que a COP30 discute “como” tanto “quanto”: padrões de registo, metodologias de medição, plataformas públicas de dados e auditoria independente, para que cada compromisso possa ser seguido por jornalistas, académicos, tribunais de contas e, acima de tudo, pelos cidadãos.
No terreno, povos indígenas que viajaram dos Andes a Belém lembram que não existe transição eficaz sem proteger quem guarda as florestas e os rios. A sua exigência é simples e dura: menos promessas abstractas e mais salvaguardas territoriais, participação efectiva e respeito pela vida que ali se mantém há milénios.
Conclusão

Se a COP30 quer ser lembrada como um ponto de viragem, precisa de sair de Belém com um mapa de execução que caiba no calendário de governos e empresas e no quotidiano das pessoas.
O que isso significa na prática? Primeiro, um plano operacional para reduzir emissões em linha com os 1,5ºC, com metas de electrificação, renováveis e eficiência por sector e com o fecho definitivo da desflorestação até 2030.
Segundo, um pacote de financiamento claro e verificável para adaptação, perdas e danos e transição justa, incluindo linhas de crédito concessionais, garantias e assistência técnica que permitam aos países vulneráveis apresentar projectos financiáveis e receber desembolsos sem labirintos.
Terceiro, um programa de metano com cronogramas, responsabilidades e medição pública por satélite, porque é aqui que os cortes rápidos podem ganhar tempo ao sistema climático.
Quarto, a integração do oceano na supervisão financeira, para que os riscos ecológicos deixem de ser externalidades e passem a variáveis reais nas decisões de crédito e investimento.
Quinto, gestão com acompanhamento trimestral, plataformas abertas de dados, auditorias independentes e mecanismos de correcção de rumo, para que a conferência responda ao teste da credibilidade.
Para os PALOP, isto traduz-se em acesso a fundos, tecnologia e obtenção de capacidades que façam a diferença em água, agricultura, energia e cidades costeiras. Para o mundo, significa ligar negociação a empregos, ar mais limpo, contas de luz mais baixas e alimentos menos expostos aos choques climáticos.
A Amazónia ofereceu o palco e a urgência. Cabe agora às delegações provar que compreenderam a mensagem: não é mais hora de anunciar, é hora de fazer. Cada trimestre sem entrega é uma oportunidade perdida e uma factura mais alta amanhã. Cada medida concreta posta em prática é vida protegida hoje.
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Imagem: © 2025 UNFCC
