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Sábado, Fevereiro 21, 2026

CAN 2025: Moçambique Quebra O Jejum

Neste CAN 2025, um lance muda tudo e Moçambique provou-o diante do Gabão. Nos outros grupos, a segunda jornada também confirmou que ninguém pode respirar sem sofrer até ao apito final.

O CAN 2025 entrou na segunda jornada com os grupos a ganharem densidade e com as contas do apuramento a deixarem de ser teoria. Numa fase inicial com 24 selecções distribuídas por seis grupos, o equilíbrio entre ambição e prudência torna-se determinante: os dois primeiros avançam directamente, enquanto a via dos melhores terceiros mantém a porta entreaberta.

Esta jornada do torneio confirmou a sua natureza imprevisível e implacável: quem não concretiza paga e quem resiste ao caos pode sair da tempestade com pontos que definem destinos.

É neste terreno que as equipas se medem não apenas pelo talento, mas pela capacidade de gerir momentos, proteger vantagens, reagir a golpes psicológicos e transformar períodos fortes em golos. Foi exactamente aí que Moçambique encontrou, finalmente, o ponto de viragem.

Depois de seis participações e 16 jogos sem vencer em fases finais, os Mambas escreveram uma página em falta há demasiado tempo ao derrotarem o Gabão num encontro de coragem e inteligência competitiva, com Geny Catamo a assumir o papel de catalisador e com uma influência clara de jogadores oriundos da Liga Portugal a dar corpo ao triunfo.


Gabão 2-3 Moçambique: Viragem Histórica


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Franck Fife / AFP

Moçambique chegou ao duelo com o Gabão com uma mistura rara de serenidade e urgência. A derrota por 1-0 diante da Costa do Marfim deixara bons indicadores e, sobretudo, a convicção de que a equipa podia competir a este nível sem se limitar a defender. Essa leitura ficou evidente na forma como os Mambas entraram: mais agressivos na disputa, mais claros na saída, mais rápidos a ocupar o último terço.

Witi teve logo uma oportunidade que poderia ter aberto o marcador, mas a incapacidade de finalizar com o pé direito prolongou, por instantes, um fantasma antigo. Só que desta vez Moçambique não se deixou prender por memórias.

A primeira parte do Gabão foi descrita como fraca e os moçambicanos souberam castigar: Geny Catamo bateu um canto com precisão e Faisal respondeu de cabeça aos 37 minutos. Cinco minutos depois, num lance que expôs nervos gaboneses, Domingues recuperou a bola e caiu na área, permitindo a Catamo converter a grande penalidade para o 0-2.

O sonho ganhou corpo e ainda tocou na trave num remate de Guima, mas a história não seria limpa: Aubameyang aproveitou uma defesa incompleta e reduziu aos 45+5’, recolocando o Gabão no jogo no pior momento possível para quem estava por cima. A reacção moçambicana, porém, foi adulta.

No reatamento, Witi voltou a ser decisivo no cruzamento e Diogo Calila fez de cabeça o 1-3 aos 52’, um golo raro pela forma e precioso pela função. A partir daí, o Gabão subiu linhas e Moçambique recuou para proteger. Mbaba multiplicou intervenções, mas Moussounda reduziu aos 76’ e o final tornou-se um teste de resistência.

Geny ainda viu um lance invalidado em fora de jogo, já nos descontos, mas a vitória não escapou. Foi a primeira de sempre de Moçambique numa fase final do CAN e, com ela, a possibilidade real de sonhar com um apuramento histórico.


Guiné Equatorial 0-1 Sudão: Eficácia Decisiva


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Sebastien Bozon / AFP

O jogo entre Guiné Equatorial e Sudão começou com a urgência típica de quem perdeu na estreia. A Guiné Equatorial assumiu o comando desde cedo e criou as melhores ocasiões da primeira parte, sobretudo com Pedro Obiang que ficou perto do golo, mas rematou por cima após uma falha defensiva.

Apesar do domínio territorial, o encontro foi marcado por interrupções, frustração e pouca qualidade no último terço. No segundo tempo, a Guiné Equatorial voltou a ameaçar primeiro: o suplente José Nabil entrou e, num contra-ataque rápido, rematou rente ao poste.

O Sudão reagiu com disciplina e paciência para escolher o momento certo. Por volta dos 60 minutos, Mohamed Eisa viu um remate ser salvo em cima da linha por Esteban Orozco. Esse caminho surgiu aos 74 minutos num lance de bola parada que terminou em autogolo de Saúl Coco, desvio infeliz que acabou por decidir a partida.

A partir desse instante, o Sudão fechou espaços, controlou o ritmo e ainda esteve perto de ampliar. A vitória, surpreendente pelo peso do domínio da Guiné Equatorial, reabriu as contas do Grupo E para uma selecção que raramente encontra margem para errar.

Já a Guiné Equatorial que dominou sem concretizar, viu o castigo típico do CAN 2025: quem não marca quando manda paga no detalhe e fica agora obrigada a um resultado improvável diante da Argélia.


Nigéria 3-2 Tunísia: Apuramento Dramático


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Abdel Majid Bziouat / AFP

A Nigéria confirmou o apuramento para os oitavos de final com uma vitória por 3-2 sobre a Tunísia, num jogo em que a superioridade nigeriana foi real, mas nunca totalmente confortável. A partida começou equilibrada, com muita disputa e pouca baliza.

Victor Osimhen, após uma primeira parte de insistência com cabeceamentos falhados e um golo anulado, desbloqueou o marcador aos 44 minutos, cabeceando um cruzamento de Ademola Lookman. No reatamento, a Nigéria carregou e marcou cedo: Wilfred Ndidi fez o 2-0 aos 50’, também de cabeça na sequência de um canto cobrado por Lookman.

O jogo parecia encaminhado, mas a Tunísia nunca aceitou o papel de figurante. A Nigéria marcou o terceiro aos 67’ com Lookman a finalizar, mas a Tunísia reduziu aos 74’ com Talbi a desviar de cabeça um livre de Mejbri e, já aos 87’, Abdi converteu uma grande penalidade que recolocou a pressão no lado nigeriano.

Ferjani Sassi esteve perto do empate e a Nigéria foi obrigada a gerir os minutos finais com atenção máxima. A vitória confirmou um registo forte na fase de grupos e deixou a Tunísia ainda em posição de lutar, embora com margem apertada.

Zaidu ficou no banco, num detalhe que sublinha como, no CAN 2025, as escolhas de gestão física e táctica pesam tanto como o talento. A Nigéria sai apurada, mas também avisada: dominar não chega se houver falhas de concentração.


Uganda 1-1 Tanzânia: Empate Sofrido


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Sebastien Bozon / AFP

Uganda e Tanzânia entraram no jogo com o mesmo peso nos ombros: a derrota na primeira jornada deixara ambas com a obrigação de pontuar e de mostrar resposta emocional e táctica. O Uganda começou melhor, mais agressivo na pressão e próximo do golo. Allan Okello e Mato tiveram grandes ocasiões, com a Tanzânia a parecer presa à própria área.

A resposta tanzaniana foi quase sempre em transição e Msuva falhou o alvo numa das poucas oportunidades claras da primeira parte. O nulo ao intervalo reflectia a falta de eficácia do Uganda e a incapacidade da Tanzânia para sair do sufoco. No entanto, o segundo tempo foi outro.

A Tanzânia entrou com mais intensidade e foi recompensada com uma grande penalidade, após remate de Msanga desviado com a mão por Alhassan. Msuva assumiu a marcação e fez o 0-1 aos 58’. O Uganda, porém, respondeu com pressão e cruzamentos, até empatar: Denis Omedi serviu e Uche Ikpeazu cabeceou ao segundo poste para o 1-1. A partir daí, o jogo tornou-se uma sucessão de nervos.

O Uganda teve a oportunidade perfeita para virar com uma grande penalidade, mas Okello atirou por cima. A Tanzânia, logo a seguir, também desperdiçou um golo feito, com M’Mombwa a falhar à queima-roupa.

O empate deixa tudo em aberto para a última jornada, com Uganda a enfrentar a Nigéria e Tanzânia a medir forças com a Tunísia, num cenário em que qualquer deslize pode ser fatal e qualquer ponto pode ser salvação.


Senegal 1-1 RDC: Resposta Tardia


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Chris Milosi / Anadolu via AFP

O Senegal entrou frente à República Democrática do Congo (RDC) com estatuto e confiança. Na primeira parte, esse favoritismo foi visível no volume ofensivo: nove remates à baliza da RDC antes do intervalo. O problema foi a eficácia.

Sadio Mané ficou perto do golo num livre que enganou o guarda-redes Lionel Mpasi, mas saiu por pouco e Pape Gueye tentou de longe com Mpasi a responder com qualidade. Do outro lado, a RDC também mostrou que podia morder: Wan-Bissaka chegou a colocar a bola no fundo das redes, mas o lance foi anulado por fora de jogo, mantendo o equilíbrio.

O segundo tempo confirmou que o jogo não seria uma narrativa simples. O primeiro golo surgiu cedo para os Leopardos: Cédric Bakambu aproveitou uma defesa incompleta de Édouard Mendy e encostou para o 0-1. A resposta foi imediata e inevitável: Mané que já ameaçara, desviou à boca da baliza para empatar e inaugurar a sua contagem no torneio.

A partir daí, o Senegal voltou a parecer mais perto de vencer, mas o jogo entrou numa fase de menor intensidade, com a RDC a proteger-se e o Senegal a gerir energia. A divisão de pontos mantém o Senegal no topo do grupo apenas à frente na diferença de golos e mantém a RDC em posição de discutir o apuramento.

Para uma equipa que ambiciona ir longe, o Senegal confirmou uma característica essencial no CAN 2025: mesmo quando não está no seu máximo, encontra forma de não cair. Para a RD Congo, a leitura é igualmente positiva: resistiu ao assédio inicial, marcou primeiro e saiu com um ponto que pode valer muito.


Benim 1-0 Botswana: Superação Histórica


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 Paul Ellis / AFP

O Benim entrou no duelo com o Botswana com um peso histórico incómodo: nunca tinha vencido no tempo regulamentar em participações passadas no CAN. O jogo começou com um sinal claro de que a equipa não queria repetir a história. Aos quatro minutos, Tosin Aiyegun marcou, mas o golo foi anulado por fora de jogo.

Longe de abalar, o Benim manteve-se por cima e continuou a procurar espaços com paciência, até encontrar o momento decisivo. O golo surgiu por Yohan Roche aos 28 minutos, com um remate de pé direito colocado no ângulo superior, traduzindo o domínio e a melhor organização do Benim.

O Botswana teve o seu momento mais perigoso ainda antes do intervalo, num livre à entrada da área que Mothusi Johnson enviou à barra, um lance que podia ter mudado o rumo do encontro. Na segunda parte, o Benim controlou de forma mais clara os primeiros 20 minutos, com posse mais longa e melhor ocupação dos corredores.

Tamimou Ouorou esteve perto do segundo aos 65 minutos e voltou a ameaçar pouco depois. O problema, para o Benim, foi não matar o jogo: a vantagem mínima exigiu atenção até ao fim, mesmo quando o Botswana mostrava dificuldades em criar oportunidades claras.

Ainda assim, a vitória por 1-0 foi suficiente para recolocar o Benim na corrida, deixando-o em igualdade pontual com Senegal e RDC antes do confronto direto entre os principais candidatos do grupo.

Para o Botswana, o cenário tornou-se sombrio: com mais uma derrota, entrou na recta final praticamente obrigado a que surja um milagre. O CAN 2025, aqui, repetiu a sua regra silenciosa: quem quebra um ciclo ganha não apenas pontos, mas confiança.


Argélia 1-0 Burquina Fasso: Vantagem Consolidada


(20251228) CAN 2025 Moçambique Quebra O Jejum
Imagem: © 2025 CAF

A Argélia deu um passo firme rumo ao apuramento no CAN 2025 ao vencer o Burquina Fasso por 1-0. A gestão competente da vantagem e a maturidade competitiva foram cruciais. Num jogo equilibrado e intenso, com duelos físicos no meio-campo, os Guerreiros do Deserto resolveram cedo um teste de paciência.

A primeira parte revelou-se decisiva. O Burquina Fasso entrou agressivo, condicionando a saída de bola argelina e impondo um jogo de contacto, com cartões nos primeiros minutos. A Argélia respondeu com maior critério na circulação, procurando Mahrez entre linhas. A partida ganhou contornos mais favoráveis aos argelinos aos 23 minutos, após grande penalidade.

Riyad Mahrez converteu com classe, colocando a Argélia em vantagem e reforçando a sua liderança na competição. O golo alterou o panorama do encontro. O Burquina Fasso tentou reagir ofensivamente, mas com dificuldades em criar lances claros face à defesa argelina bem organizada. A Argélia preferiu baixar o ritmo, controlar o jogo e proteger a vantagem mínima, evitando exposição desnecessária.

Manteve-se, contudo, perigosa em transições rápidas, através da mobilidade de Amoura e da inteligência posicional de Bennacer no meio-campo. Na segunda parte, o Burquina Fasso assumiu mais riscos, com substituições e pressionando mais alto. Apesar do volume territorial, faltou eficácia e clareza nas decisões finais.

A Argélia resistiu, fechou espaços, ganhou duelos e manteve a serenidade, mesmo nos minutos finais, quando o jogo se fragmentou e se tornou mais emocional. Com este triunfo, a Argélia reforça a candidatura ao primeiro lugar do grupo no CAN 2025, confirmando a consistência de um colectivo talentoso e disciplinado.

Para o Burquina Fasso, a derrota exige uma resposta forte na última jornada, onde a margem de erro é mínima.


Conclusão


O CAN 2025 está a desenhar-se como um torneio em que a linha entre o feito histórico e a frustração se mede na capacidade de manter a lucidez quando o jogo pede nervos de aço.

Moçambique foi, até agora, o grande rosto emocional desta ronda, não apenas por vencer, mas por o fazer com identidade, protagonismo e uma figura central em Geny Catamo, decisivo em bola parada, na marca de grande penalidade e na forma como arrastou a equipa para o lado certo da história.

À volta desse momento, o resto do continente confirmou que ninguém atravessa a fase de grupos sem sofrer, com resultados imprevisíveis e momentos de alta tensão. A fase de grupos continua a produzir sinais e alertas: alguns candidatos afirmam-se, outros tremem e várias selecções vivem já com contas de calculadora na mão.

Para Moçambique, porém, o CAN 2025 já valeu por uma conquista concreta e simbólica. O desafio, agora, é transformar o feito histórico em trajecto histórico.

 


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Imagem: © 2025 Getty Images
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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