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ToggleÁfrica Pode Contribuir Para O Multilateralismo
Num mundo em constante transformação, o multilateralismo enfrenta desafios sem precedentes. África emerge como um actor com potencial para moldar um futuro mais equitativo e inclusivo.
O economista Carlos Lopes e um dos principais pensadores africanos da actualidade, defende a necessidade urgente de reformular o sistema multilateral, superando as abordagens tradicionais que têm marginalizado o continente africano e apresenta propostas para um sistema multilateral mais eficaz e representativo.
Longe de ser um mero espectador, África tem a oportunidade de se tornar um protagonista na construção de um novo multilateralismo, mais justo, inclusivo e adaptado às realidades do século XXI.
A população jovem, a crescente força de trabalho e a capacidade de inovação de África podem impulsionar esta transformação, abrindo caminho para um futuro onde a sua voz seja ouvida e valorizada no panorama mundial. O continente africano, historicamente marginalizado nas estruturas de poder mundial, encontra-se agora numa posição estratégica para influenciar a ordem do planeta.
A sua diversidade cultural, riqueza de recursos naturais e crescente dinamismo económico oferecem uma base sólida para a construção de um futuro mais próspero e equitativo. No entanto, para concretizar este potencial, é fundamental que África se una e defenda os seus interesses de forma assertiva no panorama internacional.
Novo Multilateralismo
“Reformar o multilateralismo não significa restaurar o passado, mas repensar profundamente os seus objectivos, instrumentos e critérios de legitimidade”.
Referiu o antigo secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), numa apresentação intitulada “África e o fim das certezas multilaterais”, após receber o prémio Amílcar Cabral, na Universidade de Cabo Verde (UniCV).
Para África, o momento actual representa uma escolha estratégica crucial. O continente pode optar por uma adaptação pragmática à nova desordem mundial, explorando oportunidades pontuais sem alterar as estruturas profundas.
Ou então, pode assumir um papel mais ambicioso, contribuindo activamente para a construção de um multilateralismo diferente, menos dependente de regras herdadas e mais orientado para resultados, inclusão e justiça estrutural.
Carlos Lopes defende que o fim das certezas multilaterais não deve ser encarado como um colapso terminal, mas sim como um momento constitutivo, onde novas normas, instituições e hierarquias serão moldadas. A questão central reside em quem participa nesse processo e em que condições.
Se África conseguir articular a sua diversidade interna, fortalecer a cooperação regional e investir em capacidades estratégicas, económicas, tecnológicas e políticas, poderá deixar de ser um mero objecto de reorganização mundiall para se tornar um sujeito activo na sua definição.
Estabilidade e Propósito
Segundo o economista, num mundo em disrupção permanente, a estabilidade não virá da restauração de velhos consensos, mas da capacidade de navegar a incerteza com propósito e direcção. Pelo que defende que o continente africano entra neste momento de ruptura sem estar excessivamente investido na preservação da ordem anterior.
Ordem essa que historicamente o penalizou, com regras comerciais assimétricas, regimes de dívida restritivos, escasso acesso a capitais, exclusão tecnológica e marginalização política – características que marcaram a experiência africana no sistema multilateral. É por isso que África tem menos a perder na ilusão dessas certezas e, paradoxalmente, mais espaço para imaginar alternativas.
Ironicamente, o continente possui a população mais jovem do planeta e a maior força de trabalho em crescimento, uma realidade que continua a ser ignorada e tratada, predominantemente, como um risco associado à migração irregular ou à instabilidade e não como uma oportunidade de co-desenvolvimento.
Diagnóstico e Legitimidade
“A incapacidade do sistema internacional de articular a mobilidade laboral, o investimento produtivo e o desenvolvimento humano revela mais uma vez os limites do multilateralismo existente”.
Acrescentou Carlos Lopes, fazendo um diagnóstico: o problema não é apenas o enfraquecimento das instituições multilaterais, mas a sua inadequação às condições actuais – concebidas para um mundo mais lento, mais previsível e mais hierárquico, que lutam para responder a uma realidade agora marcada por velocidade, complexidade e interdependência assimétrica.
Alertou também para as novas tecnologias, como a inteligência artificial: cada vez mais, nas fronteiras, não será um agente que decidirá, mas o algoritmo e até mesmo noutros níveis, as sanções podem tornar-se algorítmicas.
Transformações que o levam à questão da legitimidade política no sentido profundo que Amílcar Cabral lhe atribuía: não derivava da eficiência técnica, nem do reconhecimento externo, mas da correspondência entre o poder político, a verdade social e a dignidade vivida.
O fim das certezas multilaterais não é o fim da política internacional, é o fim de uma ilusão confortável – e como tantas vezes na história, é quando as ilusões caem que se abrem espaços para a verdade, para a responsabilidade e para a criação.
Carlos Lopes citou várias vezes o patrono do prémio que recebeu, afirmando-se como um filiado aos ideais de Cabral que descreveu como um pensador rigoroso da legitimidade política, fundada em princípios que permanecem centrais: os direitos, a dignidade humana, a soberania e a autodeterminação dos povos.
O reitor da UniCV justificou a escolha do economista como primeiro laureado com o Prémio Amílcar Cabral, considerando que tem sabido, de forma exemplar, chamar a atenção para o ‘sul global’ e sobre a necessidade de ter capacidade de pensar pela própria cabeça – uma expressão muitas vezes usada por Cabral para falar da autodeterminação dos povos.
Conclusão
Neste contexto de incerteza mundial, a visão de Carlos Lopes lança uma luz sobre o potencial de África para moldar um futuro multilateral mais equitativo e inclusivo. Em vez de se deixar paralisar pelas limitações do passado, o continente africano pode aproveitar a sua juventude, diversidade e capacidade de inovação para construir um multilateralismo que reflicta os seus valores e prioridades.
A chave reside na capacidade de fortalecer a cooperação regional, investir em capacidades estratégicas e, acima de tudo, reafirmar a sua legitimidade política com base nos princípios de direitos, dignidade humana, soberania e autodeterminação. Assim, África poderá não só navegar a incerteza com propósito e direcção, mas também inspirar o mundo com a sua visão de um futuro mais justo e sustentável.
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Imagem: © 2026 Elton Monteiro
