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Segunda-feira, Fevereiro 23, 2026

África: Adeus 2025, Bem-vindo 2026

2025 foi um ano que se recusou a passar em silêncio. Entre avanços tímidos e rupturas bruscas, África e o mundo lusófono atravessaram doze meses marcados por instabilidade política, choques climáticos, reconfigurações económicas e sinais contraditórios de esperança. Ao despedir-nos deste ano exigente, o continente entra em 2026 com mais perguntas do que respostas, mas também com a consciência clara de que algumas fronteiras — políticas, sociais e simbólicas — já foram ultrapassadas.

África: Adeus 2025, Bem-vindo 2026


O ano de 2025 confirmou uma tendência crescente: África está cada vez mais no centro das dinâmicas mundiais. Não apenas como um espaço de disputa geopolítica ou reserva de recursos, mas como palco de decisões internas que afectam directamente o equilíbrio regional e internacional.

Nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), o ano foi marcado por tensões políticas persistentes, desafios económicos estruturais e episódios que testaram a resistência institucional.

No restante continente, eleições contestadas, golpes de Estado, conflitos armados e crises humanitárias coexistiram com projectos de integração regional, investimentos estratégicos e movimentos sociais conscientes do seu peso. Em paralelo, as alterações climáticas tornaram-se uma realidade quotidiana, com secas, cheias e deslocações forçadas a afectarem milhões.


Os PALOP em Tensão


Nos PALOP, 2025 foi um ano de contrastes marcantes, simbólica e politicamente carregado pela celebração dos 50 anos de independência de Portugal. Este marco histórico, longe de se limitar a actos protocolares, reabriu debates profundos sobre o legado colonial, os caminhos seguidos desde 1975 e as promessas por cumprir em desenvolvimento, justiça social e soberania económica.

Em alguns dos países, a efeméride funcionou como espelho crítico do presente, expondo a distância entre os ideais fundadores e a realidade vivida por largas franjas da população.

Angola


Em Angola, o ano decorreu sob relativa estabilidade institucional, mas foi marcado por desafios económicos profundos, desde a persistente dependência do petróleo à pressão social do custo de vida e do desemprego juvenil.

Projectos estruturantes na energia e infra-estruturas avançaram, mas o seu impacto no quotidiano da população manteve-se desigual, alimentando debates intensos sobre redistribuição, justiça social e inclusão económica, num país que assinalou meio século de soberania ainda à procura de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado.

Moçambique


Moçambique viveu um dos seus anos mais delicados desde o fim da guerra civil. 2025 foi marcado por uma grave crise política após as eleições presidenciais, com contestação dos resultados, episódios de violência generalizada e um clima de tensão que muitos analistas descreveram como uma situação próxima de guerra civil.

Propostas de alteração dos símbolos nacionais, manifestações reprimidas, confrontos armados localizados e uma profunda erosão da confiança nas instituições agravaram um panorama já fragilizado pela insurgência no Norte, colocando sérios desafios à coesão nacional e à estabilidade do Estado moçambicano no imediato e no médio prazo.

Guiné-Bissau


Na Guiné-Bissau, 2025 ficou indelevelmente marcado pela ruptura institucional após as eleições gerais de Novembro.

A intervenção militar, a suspensão da Constituição e a indefinição política colocaram o país num limbo perigoso, reacendendo preocupações regionais sobre a fragilidade do Estado e o papel recorrente das Forças Armadas na vida política, precisamente num ano que deveria ter sido de celebração nacional.

Cabo Verde e São Tomé


Cabo Verde manteve-se como uma referência de estabilidade democrática no espaço lusófono africano, embora não imune às pressões económicas mundiais, à inflação importada e às vulnerabilidades ambientais que condicionam o seu futuro.

Já São Tomé e Príncipe atravessou 2025 com contenção e prudência, procurando equilibrar reformas internas com uma forte dependência da ajuda externa, num contexto económico frágil.

Em síntese, o ano mostrou que os PALOP seguem trajectórias distintas, mas partilham dilemas comuns: consolidação democrática, diversificação económica, gestão da memória histórica e afirmação soberana num panorama internacional cada vez mais volátil.


África em Mutação


No restante continente africano, 2025 foi um ano de redefinições e choques abruptos. A sucessão de golpes de Estado confirmou a erosão de alguns modelos políticos pós-independência. Países do Sahel permaneceram num ciclo de instabilidade, com juntas militares a prometerem transições que tardam, enquanto a presença de actores externos — estatais e privados — se tornou mais visível e controversa.

Em paralelo, várias nações africanas realizaram eleições disputadas, algumas com alternância pacífica, outras sob contestação e repressão. A União Africana enfrentou dificuldades em afirmar-se como mediadora eficaz, mas manteve um papel relevante na prevenção de conflitos.

A integração regional avançou de forma desigual, com projectos logísticos e acordos comerciais a contrastarem com barreiras políticas e securitárias. Apesar do panorama tenso, 2025 também revelou uma África em movimento social. Protestos urbanos, reivindicações juvenis e debates públicos sobre governação, corrupção e soberania digital ganharam espaço.

O continente mostrou-se menos disposto a aceitar narrativas impostas de fora e mais empenhado em discutir os seus próprios caminhos. Esta tensão entre ruptura e continuidade definiu grande parte do ano africano e deixou marcas profundas para sanar em 2026.


Clima e Ambiente


Se houve um tema transversal em 2025, esse foi o clima. Em África, as alterações climáticas deixaram de ser secundárias para se tornarem um factor central de instabilidade social e económica. Secas prolongadas no Corno de África, cheias devastadoras na África Austral e tempestades imprevisíveis afectaram a segurança alimentar, os meios de subsistência e a mobilidade humana.

Milhões de pessoas foram obrigadas a deslocar-se pela degradação ambiental. A agricultura, base económica de grande parte do continente, sofreu impactos severos, expondo a fragilidade dos sistemas de produção e a dependência de factores climáticos extremos.

Ao mesmo tempo, o debate sobre energia intensificou-se: África foi chamada a escolher entre explorar recursos fósseis para financiar o desenvolvimento ou acelerar uma transição energética que exige investimentos e tecnologia ainda escassos.

Em 2025, multiplicaram-se conferências, promessas e compromissos internacionais, mas a distância entre discurso e acção permaneceu evidente. Ainda assim, surgiram iniciativas locais de adaptação, conservação e energia limpa que demonstraram a capacidade africana de inovar em contextos adversos. O ano terminou com uma certeza inquietante: o clima será um dos grandes árbitros do futuro africano.


Instabilidade Persistente


Os conflitos armados continuaram a moldar o mapa político de África e do mundo em 2025. Da persistência da guerra no Sudão às tensões crónicas no leste da República Democrática do Congo, o continente conviveu com crises prolongadas que desafiam soluções rápidas. Em muitos casos, as linhas entre conflito interno, disputa regional e interesses internacionais tornaram-se cada vez mais difusas.

Golpes de Estado e tentativas de subversão da ordem constitucional reforçaram a sensação de um ciclo de instabilidade difícil de quebrar. A normalização do discurso militar como alternativa ao poder civil levantou preocupações profundas sobre o futuro da democracia em várias regiões.

Fora de África, guerras e tensões geopolíticas influenciaram directamente o continente, seja através do aumento dos preços dos alimentos e da energia, seja pela reconfiguração de alianças estratégicas.

2025 mostrou que a paz continua a ser um projecto inacabado, dependente não apenas de acordos formais, mas de justiça social, inclusão política e soberania real. As rupturas do ano deixaram cicatrizes visíveis e lembraram que a estabilidade não pode ser construída apenas com soluções de curto prazo.


Cultura e Tecnologia


Para além da política, do clima e dos conflitos, 2025 foi também um ano de afirmação cultural e tecnológica. A produção artística africana ganhou visibilidade internacional, a música e o cinema continuaram a atravessar fronteiras e as diásporas reforçaram a ligação entre África e o mundo.

No campo tecnológico, apesar das desigualdades, houve avanços em inovação digital, empreendedorismo e soluções locais para problemas antigos. A juventude africana destacou-se como actor central, não apenas como estatística demográfica, mas como força criativa e crítica. Este conjunto de sinais, menos ruidosos do que os conflitos, foi fundamental para equilibrar o retracto do ano.


Perspectivas Para 2026


O ano de 2026 aproxima-se carregado de expectativas cautelosas. Muitas das crises de 2025 transitarão intactas, mas também se abrem janelas de oportunidade. Eleições decisivas, possíveis processos de transição política e novos acordos económicos poderão redefinir rumos. O desafio será transformar aprendizagem em mudança concreta.

Conclusão


O adeus a 2025 não é apenas uma fórmula ritual. É o reconhecimento de um ano duro, revelador e decisivo. 2026 surge no horizonte como um apelo à lucidez e à responsabilidade. África entra no novo ano consciente das suas fragilidades, mas também da sua capacidade de resistir, criar e reinventar-se. O futuro não está garantido, mas está em aberto.

Com esse espírito, despedimo-nos de 2025 lado a lado convosco, caros leitores que nos acompanham todos os dias com atenção crítica e curiosidade inquieta. Que 2026 vos encontre informados, atentos e exigentes, mas também com espaço para a esperança, para a dúvida saudável e para a construção de futuros possíveis. É isso, acima de tudo, o que o Mais Afrika deseja a todos.

 


Tens algum comentário a fazer sobre o que se passou em África neste ano transacto de 2025? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2025 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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