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Sábado, Fevereiro 21, 2026

A Arte do Lixo: Mbongeni Buthelezi Pintar Com Plástico

E se o lixo pudesse falar que histórias nos contaria? Talvez nos falasse de histórias de abandono e de desperdício além de consumo desenfreado que devora recursos sem pensar no amanhã, ou talvez nos lembrasse que cada objecto carrega uma memória, um uso, uma vida anterior.Em África há artistas que ousam dar-lhe outra voz: a voz da beleza, da memória e da resistência cultural. São criadores que não vêem lixo, mas sim matéria-prima para a imaginação, símbolos de resistência e possibilidades infinitas. No lixo que a sociedade descarta, eles descobrem matéria-prima para reinventar a vida e inspirar comunidades inteiras.

A Arte do Lixo: Mbongeni Buthelezi Pintar Com Plástico


Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepara-te para conhecer Mbongeni Buthelezi, da África do Sul e descobrir um dos percursos mais singulares da arte contemporânea africana.

Num panorama mundial marcado pelo consumo excessivo, pelo desperdício e por uma crise ambiental cada vez mais visível, Buthelezi destaca-se por uma abordagem técnica e conceptual absolutamente singular: “pintar” com plástico usado.

Em vez de tintas a óleo ou acrílico, o artista utiliza resíduos plásticos recolhidos nas ruas e nas lixeiras urbanas, cortando-os em fragmentos minúsculos que depois fixa manualmente sobre a tela. O plástico substitui a tinta, criando superfícies densas, texturas complexas e uma paleta cromática surpreendentemente rica.

As suas obras retractam cenas do quotidiano sul-africano, paisagens urbanas, figuras humanas e momentos de vida comum, sempre atravessados por uma crítica subtil ao consumismo e à exclusão social. A sua trajectória demonstra que da escassez pode nascer inovação e que a criatividade, quando aliada à consciência ambiental, pode influenciar formas mais responsáveis de olhar o mundo.

Este é o 15.º artigo de uma série de 17 dedicada aos Artistas do Lixo, criadores visionários que resgatam materiais rejeitados e os transformam em discurso artístico, social e ambiental. Em cada obra de Buthelezi existe uma ligação profunda entre técnica, contexto histórico e experiência pessoal.

Se procuras inspiração, inovação e uma perspectiva diferente sobre o que a arte pode ser, não percas esta viagem. Vais conhecer artistas que desafiam os limites do possível e que fazem de África um palco vibrante da arte contemporânea feita a partir do inesperado: o lixo.


Mbongeni Buthelezi


(20251220) A Arte do Lixo Mbongeni Buthelezi Pintar Com Plástico
Imagem: © 2018 Mbongeni Buthelezi

Mbongeni Buthelezi nasceu em 1966 na África do Sul, tendo crescido entre o espaço rural do KwaZulu-Natal e, mais tarde, os ambientes urbanos marcados pela segregação do apartheid.

Ainda criança, revelou uma inclinação natural para a criação artística, moldando pequenas figuras em barro que representavam o quotidiano da vida rural: gado, cabras, cavalos e cenas pastoris que faziam parte do seu universo imediato. A ligação à terra e aos animais marcou profundamente o seu olhar estético e simbólico.

Durante esses primeiros anos, Buthelezi testemunhou um fenómeno perturbador que viria a influenciar decisivamente o seu percurso artístico: a presença crescente de resíduos plásticos no meio rural. Sacos e embalagens abandonados misturavam-se com a paisagem natural e, em casos extremos, provocavam a morte de animais que os ingeriam acidentalmente.

Esta observação precoce do impacto do plástico no ambiente não foi apenas uma memória de infância, tornou-se uma semente conceptual que germinaria mais tarde na sua prática artística.

Na juventude, Mbongeni Buthelezi mudou-se para contextos urbanos mais complexos, onde enfrentou limitações económicas severas. Longe de o afastarem da arte, essas dificuldades moldaram a sua capacidade de adaptação e experimentação.

A ausência de recursos tradicionais levou-o a procurar alternativas materiais, desenvolvendo uma relação directa com os resíduos urbanos que o rodeavam. O artista construiu, assim, um percurso profundamente ligado à realidade social sul-africana, transformando vivências pessoais em linguagem visual.

A sua identidade artística nasceu assim, da observação atenta do mundo que o rodeia e da recusa em aceitar a escassez como obstáculo à criação.


A Arte de Mbongeni Buthelezi


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Imagem: © 2025 Mbongeni Buthelezi

A arte de Mbongeni Buthelezi distingue-se, antes de mais, pela sua técnica inovadora, frequentemente designada como plastic painting. Em vez de pincéis e tintas, o artista utiliza fragmentos de plástico descartado, cuidadosamente cortados e organizados.

Cada pedaço é colado manualmente sobre a tela, criando uma superfície que funciona como pintura e relevo ao mesmo tempo. O processo é meticuloso e exige um controlo rigoroso da composição cromática.

O plástico, quando aquecido e manipulado com instrumentos térmicos eléctricos, adquire uma maleabilidade que permite ao artista criar efeitos semelhantes a pinceladas largas, camadas densas ou linhas delicadas. Esta abordagem evita o uso de chama directa, reduzindo a libertação de gases tóxicos e tornando o método mais seguro e consciente do ponto de vista ambiental.

Buthelezi desenvolveu ao longo dos anos cerca de dezoito variações técnicas dentro deste mesmo método. Algumas obras utilizam cores vibrantes e contrastes intensos, enquanto outras exploram tons sépia, neutros e gradações subtis que conferem profundidade visual e emocional.

Em certos trabalhos, o plástico é aplicado de forma linear, quase gráfica; noutros, cria massas orgânicas que evocam movimento e textura. A técnica não é apenas um meio, mas parte integrante do discurso artístico.

O espectador reconhece o material industrial, mas também percebe a sua transformação em algo inesperadamente sensível e pictórico. Esta tensão entre origem e resultado é um dos elementos mais fortes do trabalho de Mbongeni Buthelezi.

Matéria Viva


O uso exclusivo de plástico usado não é uma escolha estética arbitrária, foi uma decisão profundamente simbólica. Para Mbongeni Buthelezi, o plástico representa simultaneamente progresso, descuido e sobrevivência.

É um material omnipresente no quotidiano contemporâneo, barato, resistente e amplamente utilizado, mas também um dos principais responsáveis pela degradação ambiental. Ao incorporar resíduos plásticos nas suas obras, o artista estabelece uma ligação directa entre arte e realidade social.

O material provém, muitas vezes, das ruas de Joanesburgo, de espaços urbanos marcados pela desigualdade, pela exclusão e pela ausência de oportunidades. Cada fragmento transporta consigo uma história de consumo e abandono que é ressignificada no contexto artístico. Buthelezi vê-se a si próprio como um espelho da sociedade em que vive.

A sua obra não procura esconder as feridas do meio urbano, mas antes torná-las visíveis através de uma linguagem visual acessível e poderosa. O plástico, enquanto resíduo, torna-se metáfora de comunidades marginalizadas e de vidas consideradas descartáveis pelo sistema económico.

Ao mesmo tempo, existe uma dimensão de esperança muito clara. Transformar lixo em arte é um acto de resistência e de afirmação. O artista acredita que, ao observar as suas obras e conhecer o seu percurso, as pessoas podem perceber que é possível construir uma vida e uma carreira a partir do nada. A matéria rejeitada torna-se, assim, matéria viva e portadora de futuro.

Consciência Social


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Imagem: © 2019 Mbongeni Buthelezi

A obra de Mbongeni Buthelezi está profundamente enraizada numa reflexão social e ambiental. O artista observa atentamente os efeitos do consumo excessivo e da desigualdade nas cidades sul-africanas, onde o plástico se acumula como vestígio visível de um sistema que produz mais do que consegue gerir.

As suas pinturas de plástico não se limitam a denunciar problemas. Elas procuram influenciar uma mudança de percepção, mostrando que os materiais rejeitados ainda têm valor e potencial. Esta abordagem é particularmente relevante em contextos onde a falta de oportunidades limita o acesso à educação artística e aos recursos criativos.

Buthelezi acredita que a arte pode fornecer ferramentas adicionais aos indivíduos e às comunidades, oferecendo novas perspectivas e caminhos possíveis. Ao utilizar lixo como matéria-prima, ele demonstra que a criatividade não depende de luxo ou da abundância, mas sim da imaginação e do compromisso.

A dimensão ambiental do seu trabalho liga-se a uma visão optimista do futuro. Quando questionado sobre a eventual escassez de plástico, o artista responde que esse seria o maior sucesso do seu projecto. O objectivo último não é perpetuar o lixo, mas contribuir para um mundo em que ele deixe de existir.


Formação


(20251220) A Arte do Lixo Mbongeni Buthelezi Pintar Com Plástico
Imagem: © 2013 Mbongeni Buthelezi

A trajectória de formação de Mbongeni Buthelezi reflecte a sua persistência e capacidade de adaptação. Entre 1986 e 1992, frequentou cursos no Singaporean Institute of Art, em Joanesburgo, onde teve contacto com abordagens experimentais e técnicas alternativas.

Mais tarde, entre 1997 e 1998, aprofundou os seus estudos na Universidade de Witwatersrand, onde obteve um diploma avançado em Belas-Artes. Antes disso, passou por instituições fundamentais como o African Institute of Art e a Johannesburg Art Foundation, espaços que desempenharam um papel central na formação de artistas negros durante e após o apartheid.

Nestes contextos, Buthelezi aprendeu a trabalhar com materiais não convencionais, nomeadamente através de técnicas de colagem com revistas descartadas, uma solução prática para a falta de tintas e recursos tradicionais. A formação académica foi complementada por uma intensa experiência prática e por residências artísticas internacionais.

O artista participou como artist in residence em vários países, incluindo Alemanha, Estados Unidos da América (EUA) e África do Sul. Estes períodos permitiram-lhe dialogar com outros contextos culturais e consolidar o reconhecimento internacional do seu trabalho.

Apesar do sucesso fora do seu país, Mbongeni Buthelezi manteve sempre uma ligação profunda à realidade sul-africana. A sua formação não é apenas técnica ou académica, mas também social e vivencial, resultante de décadas de observação crítica e envolvimento com as comunidades que inspiram a sua obra.


Carreira e Reconhecimento


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Imagem: © 2025 Mbongeni Buthelezi

O trabalho de Mbongeni Buthelezi alcançou um reconhecimento internacional significativo, construindo um percurso que atravessa continentes e contextos culturais diversos.

As suas obras foram apresentadas em museus, bienais e colecções de prestígio, como o Museum for African Art em Nova Iorque, o Goch Museum na Alemanha e a Bienal de Praga, evidenciando a sua relevância no circuito da arte contemporânea.

Colecções de entidades como a Mercedes-Benz África do Sul, a Daimler AG na Alemanha, a Johannesburg Art Gallery e a Spier Collection integram as suas obras, confirmando a importância do seu contributo artístico e a solidez do seu percurso ao longo de várias décadas.

Para além das exposições, Buthelezi participou em festivais e programas de residência artística na Alemanha, nos EUA e noutros países, o que lhe permitiu aprofundar a dimensão pedagógica do seu trabalho e confrontar diferentes realidades ambientais e sociais, enriquecendo a sua linguagem visual. Apesar dessa dimensão mundial, o artista mantém uma coerência temática e conceptual notável.

As questões que o motivam permanecem ligadas à experiência sul-africana, mas dialogam com problemáticas universais, como a poluição, o desperdício e a marginalização social. A sua presença em eventos internacionais contribuiu para a valorização da arte contemporânea africana, demonstrando que inovação e reflexão crítica não são exclusivas dos centros artísticos tradicionais.

O reconhecimento não afastou o artista da sua missão inicial; pelo contrário, fortaleceu a sua vontade de continuar a explorar o plástico como meio artístico e como instrumento de diálogo crítico. Cada exposição e residência representa uma oportunidade de levar a discussão sobre o desperdício, o consumo e a responsabilidade colectiva a novos públicos e geografias.

Percurso Mundial


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Ao longo dos anos, Mbongeni Buthelezi construiu um percurso que atravessa continentes e contextos culturais diversos. As residências artísticas na Alemanha, nos EUA e noutros países permitiram-lhe confrontar diferentes realidades ambientais e sociais, enriquecendo a sua linguagem visual.

Apesar dessa dimensão mundial, o artista mantém uma coerência temática e conceptual notável. As questões que o motivam permanecem ligadas à experiência sul-africana, mas dialogam com problemáticas universais, como a poluição, o desperdício e a marginalização social.

A sua presença em eventos internacionais contribuiu para a valorização da arte contemporânea africana, demonstrando que inovação e reflexão crítica não são exclusivas dos centros artísticos tradicionais. Buthelezi afirma-se como um criador que transporta consigo a memória dos lugares de onde vem, sem se deixar absorver por modas ou expectativas externas.

Este equilíbrio entre enraizamento local e projecção mundial é um dos aspectos mais consistentes do seu trabalho e explica a sua relevância continuada no panorama artístico contemporâneo.

Legado


(20251220) A Arte do Lixo Mbongeni Buthelezi Pintar Com Plástico
Imagem: © 2019 Mbongeni Buthelezi

No contexto actual, marcado por crises ambientais e sociais interligadas, a obra de Mbongeni Buthelezi adquire uma pertinência particular. A sua prática artística demonstra que a arte pode ser simultaneamente estética, política e pedagógica, sem perder profundidade ou rigor técnico.

Buthelezi não apresenta soluções fáceis, mas propõe um olhar atento e responsável sobre o mundo. Através do plástico, material símbolo do excesso contemporâneo, ele constrói narrativas visuais que questionam hábitos de consumo e modelos de desenvolvimento.

O seu percurso prova que a escassez pode ser um motor da inovação e que a criatividade, quando aliada à consciência social, pode influenciar transformações reais. Seguir o trabalho de Mbongeni Buthelezi é acompanhar um artista que permanece fiel às suas origens e aos seus princípios, mesmo diante do reconhecimento internacional.

Num mundo saturado de imagens e discursos, a sua obra destaca-se pela coerência e pela capacidade de transformar lixo em linguagem, matéria em mensagem, abandono em possibilidade.


Conclusão


Mbongeni Buthelezi é mais do que um artista que utiliza plástico. É um criador que transformou a necessidade em método e a observação crítica em linguagem artística. A sua obra reflecte décadas de experimentação, formação e compromisso com a realidade social e ambiental da África do Sul e do mundo.

A sua trajectória pessoal, técnica inovadora e filosofia de trabalho entrelaçam-se num corpo de obra sólido e relevante. Num tempo em que criar arte é, muitas vezes, um acto de resistência, Buthelezi demonstra que é possível construir beleza e significado a partir do lixo. Seguir o seu percurso é acompanhar uma visão artística que não ignora os problemas do presente, mas que insiste em imaginar alternativas.

 


Conheces os artistas africanos que transformam lixo em arte? Não? Então prepara-te para conhecer Mbongeni Buthelezi, da África do Sul e descobrir um dos percursos

 

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Imagem: © 2023 Mbongeni Buthelezi
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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