5 C
Londres
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2026

Zimbabwe Decreta Nova Amnistia Geral

Um novo perdão presidencial volta a abrir as portas das prisões no Zimbabwe e reacende o debate sobre justiça, reintegração e sobrelotação das cadeias.

Zimbabwe Decreta Nova Amnistia Geral


A Amnistia Geral decretada hoje no Zimbabwe, surge como mais uma tentativa de aliviar a pressão sobre um sistema prisional cronicamente sobrelotado. O Governo anunciou que a medida, aprovada em Conselho de Ministros, permitirá a libertação de várias categorias de reclusos, incluindo todas as mulheres condenadas, presos com penas até 48 meses e detidos com doenças terminais certificadas.

O Presidente Emmerson Mnangagwa exercerá o seu poder de clemência num gesto que o executivo apresenta como instrumento de reabilitação e reintegração social. Segundo o ministro da Informação, Publicidade e Serviços de Radiodifusão, Jenfan Muswere, o objectivo é acelerar processos de reinserção e criar um ambiente prisional mais seguro para os reclusos que permanecem detidos.

A decisão insere-se numa linha de medidas semelhantes adoptadas nos últimos anos, sempre com a mesma finalidade declarada: descongestionar as cadeias e reduzir a pressão estrutural sobre os estabelecimentos prisionais. Contudo, a repetição destas amnistias levanta interrogações sobre as causas profundas da sobrelotação e a eficácia deste tipo de solução.


Sistema Sob Pressão


A Amnistia Geral de 2026 é apresentada pelas autoridades como uma resposta pragmática a um problema estrutural. As prisões do Zimbabwe enfrentam há anos níveis elevados de sobrelotação, uma realidade que compromete as condições sanitárias, a segurança interna e os programas de reabilitação.

Vários relatórios de organizações de direitos humanos têm apontado para a necessidade de reformas profundas no sistema judicial e prisional, incluindo a revisão de penas e o fortalecimento de alternativas à prisão. O ministro Jenfan Muswere afirmou que o perdão presidencial permitirá criar um ambiente mais saudável e seguro para os reclusos remanescentes.

A lógica é simples: menos presos significa menos pressão sobre os recursos limitados. Contudo, os especialistas sublinham que a libertação periódica de reclusos não resolve, por si só, as causas da sobrelotação, entre as quais se encontram atrasos processuais, penas longas para crimes menores e dificuldades no acesso à liberdade condicional.

A medida abrange todas as mulheres condenadas, independentemente do crime, desde que não se enquadrem nas exclusões previstas. Inclui ainda reclusos com penas até 48 meses e presos com doenças terminais. Os condenados presos há mais de 48 meses beneficiarão de uma redução adicional de um quarto da pena efectiva.

A decisão contempla igualmente reclusos com mais de 60 anos, detidos com deficiência e condenados à prisão perpétua que já tenham cumprido pelo menos 20 anos da pena.

Critérios e Exclusões


Apesar do alcance amplo, a Amnistia Geral não se aplica indiscriminadamente. O Governo definiu um conjunto rigoroso de exclusões. Ficam de fora os reclusos previamente libertados por amnistias anteriores, indivíduos condenados por tribunais marciais e aqueles com antecedentes de fuga da custódia legal.

Também não beneficiarão do perdão presidencial os condenados por crimes considerados graves, como homicídio, traição, violação, crimes sexuais, roubo de veículos, roubo à mão armada, violência pública, tráfico de pessoas e posse ilegal de armas de fogo. O executivo sustenta que estes critérios visam equilibrar clemência e segurança pública.

O discurso oficial realça que apenas os reclusos que tenham demonstrado boa conduta e disposição para se reintegrar na sociedade poderão beneficiar plenamente da medida. Antes da entrada em vigor do novo sistema de liberdade condicional, esta amnistia é apresentada como um mecanismo transitório de alívio.

Ainda assim, a ausência de dados concretos sobre o número dos beneficiários levanta algumas reservas. As autoridades não especificaram quantos reclusos serão efectivamente libertados, o que dificulta a avaliação do impacto imediato da decisão. Em termos políticos, a medida reforça a prerrogativa presidencial de exercer clemência como instrumento de gestão institucional e sinal de autoridade.


Histórico Recorrente


Esta não é a primeira vez que o Zimbabwe recorre a amnistias para aliviar as prisões. Em Maio de 2023, o Presidente Mnangagwa ordenou a libertação de 4.270 reclusos através de uma ordem presidencial com objectivo semelhante. Em Abril de 2024, cerca de três mil presos foram igualmente perdoados para reduzir a sobrelotação.

Cada uma dessas decisões foi acompanhada por justificações idênticas: necessidade de criar condições mais dignas e seguras nos estabelecimentos prisionais. O padrão revela uma estratégia recorrente de gestão de crise. Em vez de reformas estruturais profundas no sistema penal, o executivo opta por intervenções pontuais que produzem alívio temporário.

Vários analistas regionais consideram que este modelo pode reduzir a pressão imediata, mas não altera o fluxo constante de novos detidos. A ausência de medidas complementares robustas como investimento em infra-estruturas prisionais, fortalecimento do sistema de liberdade condicional e revisão de penas mínimas obrigatórias mantém o problema latente.

No panorama da África Austral, decisões semelhantes têm sido adoptadas por outros Estados em momentos de pressão institucional. Contudo, o caso do Zimbabwe destaca-se pela frequência com que o recurso à amnistia é utilizado como ferramenta administrativa.

A Amnistia Geral de 2026 inscreve-se assim numa linha de continuidade política que combina clemência presidencial e gestão pragmática de recursos limitados.


Conclusão


A Amnistia Geral de 2026 coloca novamente o Zimbabwe perante um dilema estrutural. Libertar reclusos alivia a pressão imediata e cria melhores condições internas, mas não substitui reformas profundas no sistema judicial e prisional.

O gesto presidencial reafirma autoridade e demonstra preocupação com a reintegração social, mas deixa em aberto a questão central: como evitar que as prisões voltem rapidamente ao ponto de saturação?

O futuro do sistema dependerá da capacidade de transformar medidas excepcionais em políticas sustentáveis que garantam justiça, segurança e dignidade.

 


Estas amnistias no Zimbabwe, tem lógica? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2019 Jerome Delay via Alamy
Logo Mais Afrika 544
Mais Afrika

Ultimas Notícias
Noticias Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Leave the field below empty!

Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!

error: Content is protected !!