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ToggleONU Alerta: Planeta Está Em Falência Hídrica
O Planeta entrou em “Falência Hídrica”. É o que afirma o último relatório das Nações Unidas sobre a água que sustenta termos atingido esse infeliz momento e propõe um conceito incómodo e definitivo: entramos numa era de escassez de água.
Segundo o relatório, o mundo entrou numa fase qualitativamente diferente, marcada não por carência transitória de água, mas por perdas estruturais e irreversíveis dos sistemas que sustentam a vida humana, a produção de alimentos e a organização económica Mundial.
Intitulado “Falência Hídrica Mundial: Viver Além dos Nossos Meios Hidrológicos na Era Pós-Crise”, o documento defende que muitas bacias hidrográficas já ultrapassaram pontos de não retorno, após décadas de extracção excessiva, poluição, degradação de solos e alterações climáticas.
Para os seus autores, não se trata apenas de menos chuva ou rios mais curtos, mas de reconhecer que os aquíferos compactados, glaciares desaparecidos e zonas húmidas destruídas deixaram de cumprir a função de reserva estratégica de água doce.
Essa carência compromete a capacidade futura de abastecimento, mesmo em anos de precipitação normal, alterando de forma profunda as bases ecológicas sobre as quais assentam cidades, campos agrícolas e Estados inteiros.
Divulgado numa altura politicamente sensível, às vésperas de uma reunião de alto nível em Dakar destinada a preparar a Conferência da ONU sobre a Água de 2026, o relatório surge como um aviso e um convite à mudança de paradigma.
Nova Linguagem

A ONU sustenta que persistir numa lógica de gestão de crises, reagindo apenas quando os sistemas já estão em colapso, é insuficiente e perigoso. Em alternativa, propõe reconhecer formalmente a falência hídrica em regiões afectadas e redefinir prioridades económicas, sociais e políticas à luz de limites físicos já degradados.
A água deixa, assim, de ser encarada apenas como um recurso natural e passa a assumir o estatuto de questão central de segurança, justiça social e estabilidade mundial.
A escolha da palavra “falência” não é retórica nem simbólica. O relatório adopta conscientemente a linguagem das finanças para explicar o estado dos recursos hídricos mundiais.
Segundo os cientistas da ONU, muitas sociedades gastaram a sua “receita” anual de água renovável — proveniente de rios, chuvas e neve — e consumiram as “poupanças” acumuladas ao longo de décadas ou séculos em aquíferos subterrâneos, glaciares e zonas húmidas.
O autor principal do estudo, Kaveh Madani, director do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade da ONU, afirma que continuar a falar em crise sugere um intervalo passageiro depois do qual os sistemas regressariam ao normal. Presentemente, esse “normal”, já não existe.
Declarar a falência hídrica significa reconhecer os limites físicos degradados e aceitar que certos danos não podem ser revertidos. A partir dessa aceitação, torna-se possível reorganizar prioridades, redefinir expectativas e evitar que o défice hídrico continue a crescer de forma incontrolável.
O relatório sublinha que nem todas as bacias hidrográficas se encontram formalmente em falência, mas o panorama de risco mundial mudou porque os sistemas críticos suficientes ultrapassaram pontos sem retorno.
Esses sistemas estão interligados por cadeias de comércio, migração, efeitos climáticos e dependências geopolíticas, o que transforma falhas locais em problemas mundiais. A falência hídrica deixa de ser um problema técnico sectorial e passa a ser uma variável central da estabilidade planetária.
Dados Duros

Para sustentar a gravidade do diagnóstico, o relatório apresenta um conjunto extenso de dados que desenham um panorama de degradação acelerada do capital hídrico natural.
Mais de metade dos grandes lagos do mundo perdeu volume de água desde o início da década de 1990, enquanto cerca de 410 milhões de hectares de zonas húmidas naturais desapareceram nas últimas cinco décadas, uma área equivalente à da União Europeia.
Cerca de 70% dos principais aquíferos do planeta apresentam declínio a longo prazo e mais de 30% da massa glaciar mundial perdeu-se desde 1970. Estas perdas reduzem drasticamente a quantidade de água segura disponível para consumo humano, rega agrícola e manutenção de ecossistemas.
A ONU estima que cerca de mil milhões de pessoas vivem actualmente em situação de insegurança hídrica crónica e quase quatro mil milhões enfrentam escassez grave de água durante pelo menos um mês por ano. Num dado particularmente revelador, o relatório indica que quase três quartos da população mundial reside em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água.
Estes números mostram que o problema não se limita à variabilidade das chuvas ou a episódios de seca extrema, mas resulta do esgotamento sistemático das reservas subterrâneas, da degradação dos solos e da poluição que torna parte significativa da água inutilizável. A falência hídrica, segundo a ONU, é estrutural e cumulativa.
Agricultura Sob Pressão
A agricultura surge no relatório como o sector simultaneamente mais vulnerável e mais determinante para o futuro da água. Madani sublinha que as fontes hídricas estão a tornar-se cada vez mais pequenas, poluídas ou a desaparecer, ao mesmo tempo que milhões de agricultores são pressionados a produzir mais alimentos para populações em crescimento.
Cerca de três mil milhões de pessoas e mais de metade da produção mundial de alimentos concentram-se em regiões onde o armazenamento total de água já está a diminuir ou é instável. Isto transforma a escassez hídrica num risco directo para a segurança alimentar mundial, afectando preços, exportações, importações e a estabilidade social.
O relatório alerta para que, sem uma transição rápida para uma agricultura inteligente em relação à água, a falência hídrica irá alastrar-se com rapidez. Entre as medidas defendidas estão mudanças nos tipos de culturas, reformas profundas nos sistemas de irrigação e uma redução deliberada da dependência de modelos agrícolas intensivos em água.
A ONU propõe que os governos deixem de reagir apenas em momentos de crise e passem a gerir a falência de forma consciente, evitando danos irreversíveis adicionais e ajustando políticas públicas à capacidade real dos sistemas naturais.
Isto implica decisões politicamente difíceis, incluindo a revisão de direitos de uso da água e o abandono de promessas de crescimento baseadas em recursos que já não existem em quantidade suficiente.
Justiça Social

Um dos aspectos mais sublinhados pelo relatório é a dimensão social e política da falência hídrica. A ONU insiste que não se trata apenas de um problema hidrológico, mas de uma questão de justiça.
Os encargos da escassez recaem de forma desproporcionada sobre os pequenos agricultores, povos indígenas, residentes urbanos de baixos rendimentos, mulheres e jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo da água tendem a favorecer actores mais poderosos. Esta assimetria transforma a falência hídrica num factor de fragilidade, deslocação populacional e conflito.
Tshilidzi Marwala, subsecretário-geral da ONU e reitor da Universidade das Nações Unidas, afirma que gerir a escassez de forma justa é agora fundamental para manter a paz, a estabilidade e a coesão social. A água passa, assim, a integrar o mesmo nível de prioridade das grandes questões de segurança nacional e internacional.
O relatório defende que proteger comunidades vulneráveis e partilhar equitativamente perdas inevitáveis deve ser um princípio central das políticas públicas. Não se trata apenas de construir infra-estruturas ou abrir novos furos, mas de decidir quem será protegido quando o recurso se tornar insuficiente.
A falência hídrica vai obrigar os Estados a enfrentarem escolhas morais e políticas que já não podem ser adiadas.
Nova Governação
Apesar do tom severo, a ONU insiste que o relatório não é uma declaração de desespero. Declarar falência, segundo Madani, significa começar de novo com honestidade e realismo.
O documento reconhece que há perdas irreversíveis — não se reconstrói um glaciar desaparecido nem se reabastece rapidamente um aquífero compactado — mas defende que ainda é possível evitar a destruição do capital natural remanescente.
Para isso, propõe elevar a água ao centro das negociações sobre clima, biodiversidade, desertificação, financiamento do desenvolvimento e construção da paz. O relatório recomenda ainda o reforço do acompanhamento com ferramentas modernas como observação da Terra, Inteligência Artificial e modelação integrada, permitindo uma gestão baseada em limiares e não apenas em reacções a desastres.
A água é apresentada como uma possível ponte num mundo fragmentado, capaz de criar cooperação onde outros temas geram divisão. A governação da falência hídrica exige instituições adaptáveis, coragem política e a aceitação de que o crescimento futuro terá de operar dentro de limites físicos mais restritos.
Conclusão
A declaração de uma era de falência hídrica mundial marca uma mudança profunda na forma como a ONU e a comunidade científica encaram a água. Já não se trata de gerir crises passageiras, mas de reorganizar sociedades inteiras para viver com menos recursos disponíveis.
A Conferência da ONU de 2026, sobre a Água, preparada em Dakar e a ser realizada em Dezembro, será um teste decisivo à vontade política dos Estados. Se a falência hídrica é real, a resposta terá de ser igualmente real, com decisões difíceis e prioridades claras.
Tal como numa conta bancária esgotada, quanto mais se adia o reconhecimento do problema, maior se torna o défice e mais violento será o momento do acerto final. A água deixou de ser invisível. Ignorá-la já não é uma opção.
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Imagem: © 2026 UNI-INWEH / Report 2026
