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Terça-feira, Fevereiro 3, 2026

Moçambique: Mais Cheias Com Nova Depressão

A água continua a subir em Moçambique e com ela cresce uma crise que já ultrapassa a dimensão climática, transformando-se numa emergência humana de larga escala. Agora, com previsões de uma nova depressão tropical com rajadas até 70 quilómetros por hora e ondas até quatro metros, o panorama pode ficar ainda mais complicado.

Moçambique: Mais Cheias Com Nova Depressão


Uma nova depressão tropical vem agravar a crise das cheias em Moçambique, expondo as fragilidades do país, exigindo uma resposta urgente. As cheias em África, já deixaram de ser um fenómeno sazonal previsível para se afirmarem como uma crise estrutural que expõe as fragilidades antigas além de criar novas que precisam de ser enfrentadas.

As chuvas intensas e quase ininterruptas provocaram inundações severas, sobretudo no Sul, afectando centenas de milhares de pessoas, destruindo habitações e infra-estruturas e forçando a deslocação de comunidades. Os dados oficiais confirmam a dimensão da catástrofe: mais de uma centena de mortos, milhares de casas destruídas e cerca de 680 mil pessoas afectadas.

A situação das cheias agrava-se agora com a aproximação de uma nova depressão tropical, criando um risco adicional num território onde as bacias hidrográficas já se encontram acima dos níveis de alerta. As autoridades meteorológicas emitiram avisos sucessivos para chuva moderada a forte, ventos intensos e agitação marítima, enquanto equipas de resgate operam em condições extremamente difíceis.

Ao mesmo tempo, organizações humanitárias e agências das Nações Unidas alertam para uma crise silenciosa que afecta sobretudo as crianças. A interrupção do acesso a água potável, saúde, nutrição e educação ameaça empurrar milhares de menores para uma espiral de doenças, subnutrição e abandono escolar.

A resposta do Estado, apoiada por parceiros internacionais, tenta dar prioridade ao salvamento de vidas e à assistência imediata, mas enfrenta limitações logísticas e financeiras significativas.


Alerta Climático


A aproximação de uma nova depressão tropical ao Canal de Moçambique colocou o país em estado de alerta máximo e atenção reforçada numa altura em que vastas áreas já se encontram inundadas.

O Instituto Nacional de Meteorologia emitiu avisos amarelos sucessivos, prevendo chuva moderada a forte, vento com rajadas até 70 quilómetros por hora e um estado do mar capaz de gerar ondas até quatro metros, sobretudo nas províncias costeiras de Maputo, Gaza e Inhambane.

Estes fenómenos surgem num contexto de saturação dos solos e de rios acima dos níveis de segurança, aumentando o risco de novas inundações repentinas. A persistência das chuvas tem obrigado à abertura das comportas das barragens, incluindo em países vizinhos, por falta de capacidade de retenção, o que contribui para o agravamento das cheias a jusante.

Este efeito em cadeia demonstra a interdependência regional dos sistemas hídricos e a dificuldade de gestão em períodos de precipitação extrema. As autoridades alertam que o estado do tempo condiciona fortemente as operações de resgate, muitas vezes dependentes de meios aéreos, cuja actuação é limitada por ventos fortes e visibilidade reduzida.

As principais vias rodoviárias do sul do país continuam severamente afectadas. A Estrada Nacional número 1, eixo fundamental de ligação entre a capital e o resto do território, permanece intransitável em vários troços, comprometendo a circulação de bens essenciais e o acesso das equipas humanitárias às zonas mais isoladas.

A Estrada Nacional número 2 enfrenta problemas semelhantes, agravando o isolamento de comunidades já fragilizadas. Este bloqueio das ligações terrestres transforma este fenómeno natural numa crise logística de grandes proporções.


Impacto Humano


O balanço humano das cheias, até ao momento, está a ser pesado e continua a ser actualizado à medida que as águas recuam em algumas zonas, revelando a verdadeira extensão dos danos. Segundo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres, o número de mortos subiu para 114, com seis pessoas desaparecidas e 99 feridas.

No total, 677.831 pessoas já foram afectadas, o equivalente a 141.818 famílias que viram as suas rotinas interrompidas de forma abrupta. Mais de 11 mil casas ficaram parcialmente destruídas e quase cinco mil foram totalmente arrasadas, obrigando à deslocação de dezenas de milhares de pessoas.

Dos 83 centros de alojamento abertos desde o início da época das chuvas, 72 permanecem activos, acolhendo cerca de 88.500 pessoas, muitas delas retiradas preventivamente das zonas de risco. Estes centros funcionam frequentemente acima da sua capacidade, criando desafios adicionais em termos de saneamento, saúde pública e dignidade humana.

As infra-estruturas sociais também sofreram danos significativos. Foram afectadas dezenas de unidades de saúde e centenas de escolas, comprometendo o acesso a cuidados de saúde e à educação em regiões já carentes destes serviços.

Pontes, aquedutos e milhares de quilómetros de estradas ficaram danificados, fragmentando ainda mais o território e dificultando a resposta coordenada à emergência. O Governo estima que cerca de 40% da província de Gaza se encontra submersa, com vários distritos da província de Maputo igualmente inundados.


Crianças em Risco


Entre os dados mais preocupantes desta crise está o impacto desproporcionado sobre as crianças. O Fundo das Nações Unidas para a Infância estima que mais de metade das pessoas afectadas pelas cheias são menores, um dado que transforma a emergência climática numa crise de protecção infantil.

Mais de 50 mil crianças foram forçadas a abandonar as suas casas e encontram-se agora em centros temporários, muitos deles sobrelotados, onde as condições de higiene e segurança são precárias. As cheias não se limitam a destruir infra-estruturas, afectam também a qualidade da água disponível para consumo, abrindo espaço para surtos de doenças transmitidas pela água.

A combinação entre água imprópria, subnutrição e acesso limitado a serviços de saúde constitui uma ameaça mortal para as crianças já de si vulneráveis. Antes mesmo das inundações, quase quatro, em cada dez crianças em Moçambique, sofriam de subnutrição crónica, um problema estrutural que tende a agravar-se com a perda de colheitas e a interrupção dos circuitos de abastecimento alimentar.

A interrupção da educação é outro factor crítico. Escolas submersas ou danificadas obrigam à suspensão das aulas, aumentando o risco de abandono escolar, sobretudo entre as raparigas e os adolescentes.

A UNICEF alerta que o que acontecer nos próximos dias e semanas será determinante não apenas para a sobrevivência imediata destas crianças, mas também para a sua capacidade de recuperar, regressar à escola e reconstruir os seus projectos de vida.


Resposta Solidária


Face à dimensão da crise, a resposta nacional tem sido acompanhada por uma mobilização internacional significativa. Portugal activou um instrumento de resposta rápida no valor de 300 mil euros para apoio humanitário nas províncias mais afectadas, através do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua.

O apoio destina-se a reforçar a assistência às populações atingidas, num gesto que sublinha os laços históricos e de cooperação entre os dois países. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) apelou à solidariedade internacional, sublinhando a necessidade de apoiar as populações vulneráveis afectadas por crises climáticas cíclicas.

Num comunicado, a organização exortou entidades internacionais como a FAO, o Programa Alimentar Mundial e a Organização Meteorológica Mundial a unirem esforços em prol da justiça climática e do reforço de programas de prevenção e assistência humanitária.

No terreno, as organizações da sociedade civil desempenham um papel central. A Cáritas Moçambicana reforçou a sua presença nas províncias de Gaza e do Maputo, assegurando o fornecimento de água potável, alimentação, saneamento e apoio a grupos vulneráveis.

A Helpo, organização não governamental para o desenvolvimento, activou planos de resposta focados na assistência a estudantes bolseiros e na reposição de material escolar em escolas afectadas. Estas iniciativas mostram que a resposta à crise depende tanto da acção do Estado como do envolvimento activo da sociedade civil e de parceiros internacionais.


Conclusão


As cheias em Moçambique revelam uma realidade que vai além da emergência imediata e coloca questões profundas sobre perseverança, prevenção e justiça climática. A conjugação de fenómenos extremos, fragilidades estruturais e uma população maioritariamente jovem cria um quadro de elevada vulnerabilidade que exige respostas rápidas e, ao mesmo tempo, soluções de longo prazo.

Salvar vidas continua a ser a prioridade absoluta, mas a reconstrução que se seguirá terá de integrar infra-estruturas mais resistentes, sistemas de alerta eficazes e políticas de protecção social capazes de reduzir o impacto de futuras crises.

O desafio não é apenas reconstruir casas e estradas, mas garantir que as comunidades afectadas tenham condições para recuperar com dignidade e segurança num contexto climático cada vez mais imprevisível.

 


Achas que o governo de Moçambique está a fazer tudo o que deveria em relação a estas cheias?  Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 SIC Notícias
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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