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ToggleGuiné-Bissau: UA Envia Patrice Trovoada
A Guiné-Bissau volta ao centro das atenções diplomáticas em África. O enviado especial da União Africana, Patrice Trovoada, afirmou que “ainda há muito trabalho a fazer” para que o país regresse a uma ordem constitucional legítima, inclusiva e aceite por todos.
Suspensa da União Africana desde o golpe militar de 26 de Novembro de 2025, a Guiné-Bissau vive sob um Governo de transição liderado por um Alto-Comando Militar que interrompeu o processo eleitoral poucos dias após a realização das eleições gerais.
A nomeação de Patrice Trovoada, antigo primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe, pelo presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, insere-se num esforço coordenado com a CEDEAO e outros parceiros internacionais para evitar o agravamento da crise.
A missão diplomática surge numa altura em que o Executivo de transição anunciou novas eleições para 06 de Dezembro, decisão que levanta dúvidas quanto à credibilidade e inclusão do processo. O desafio não se resume à organização de um acto eleitoral, mas à reconstrução de confiança entre actores políticos e à reposição de uma arquitectura institucional reconhecida interna e externamente.
A União Africana reforça agora a pressão diplomática para o regresso à ordem constitucional, num dos momentos mais delicados da história política recente da Guiné-Bissau desde o golpe militar de 26 de Novembro de 2025.
Nomeado a 23 de Janeiro pelo presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, Trovoada chega a Bissau num contexto de suspensão do país de várias organizações internacionais, exigências de transição curta e inclusiva e críticas sobre a legitimidade de processos eleitorais conduzidos por autoridades resultantes de golpes de Estado.
A sua missão surge numa fase em que o Governo de transição marcou eleições para 06 de Dezembro, decisão que levanta interrogações sobre credibilidade, inclusão política e estabilidade futura. A diplomacia africana move-se entre a prudência e a firmeza enquanto procura evitar que a crise se transforme numa erosão prolongada da confiança institucional.
Missão Diplomática
Patrice Trovoada, enviado especial da União Africana para a Guiné-Bissau, enquadrou a sua deslocação a Bissau como parte de um processo em que “ainda há muito trabalho a fazer” para o país regressar a uma ordem constitucional “legítima, inclusiva e aceite por todos”.
Antes de chegar ao terreno, Trovoada passou por Adis Abeba e aproveitou a cimeira da União Africana para recolher impressões e conselhos junto de actores que acompanham dossiês de transições políticas no continente.
Entre os contactos referidos, incluiu reuniões com o presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, e com o presidente em exercício da CEDEAO, Julius Maada Bio, além de conversas com outros chefes de Estado e personalidades africanas.
O enviado especial sublinhou que é a CEDEAO que está na linha da frente da mediação, em coordenação com a UA, mas salientou que qualquer contributo que ajude a restabelecer a normalidade constitucional é bem-vindo, incluindo o apoio da CPLP e da União Europeia.
Trovoada disse ter na sua posse elementos resultantes do acompanhamento feito por várias organizações, lembrando que a Guiné-Bissau tem sido alvo de missões e iniciativas ao longo dos anos, umas com ganhos claros, outras com resultados discutíveis.
Para o enviado especial, estes dados funcionam como base de apoio à missão, que pretende estabelecer contacto e diálogo com as autoridades de transição, as forças políticas, as instituições republicanas e a sociedade civil, na tentativa de criar um clima mínimo de confiança para conversações sobre a saída da crise.
Crise e Calendário
A missão surge num contexto de rutura política desencadeada pelo golpe militar de 26 de Novembro de 2025, ocorrido na véspera do anúncio de resultados das eleições gerais realizadas três dias antes.
Com a interrupção do processo eleitoral, a Guiné-Bissau foi suspensa de várias organizações internacionais e regionais que exigem o regresso à ordem constitucional e a libertação de presos políticos, entre as quais a União Africana, a CEDEAO e a CPLP.
A suspensão na CPLP teve ainda um efeito simbólico adicional: a presidência rotativa deixou de estar em Bissau e passou para Timor-Leste, situação que gerou tensão política e diplomática entre as partes e acabou por contaminar iniciativas previstas, incluindo missões que foram anunciadas e depois canceladas em ambiente de acusações públicas.
No plano interno, o país passou a ser governado por um Alto-Comando Militar, que nomeou como Presidente da República de Transição o general Horta Inta-a. O parlamento foi substituído por um Conselho Nacional de Transição, órgão que aprovou uma revisão da Constituição atribuindo mais poderes ao Presidente.
As autoridades de transição anunciaram eleições gerais, legislativas e presidenciais para 06 de Dezembro, um calendário que a mediação regional observa com cautela. Trovoada afirmou que toma nota da data e que pretende discutir o assunto em Bissau, lembrando que “não são coisas fáceis” e que o essencial é construir uma saída que seja aceite internamente e credível perante parceiros externos.
A CEDEAO já enviou missões ao país sem que se conheçam resultados públicos consistentes, o que reforça a pressão para que a próxima etapa produza sinais verificáveis.
Legitimidade e Saída
O debate, porém, não se esgota na existência de uma data eleitoral. Na cimeira da União Africana, o Presidente angolano João Lourenço alertou para o risco de se confundir restabelecimento da ordem constitucional com a simples realização de eleições em que os autores de golpes acabam por se legitimar, descrevendo esse caminho como uma forma de “branqueamento” de um ato ferido de legitimidade.
O alerta reforça a linha de várias organizações: o objetivo não é apenas votar, mas criar condições políticas e institucionais para que o resultado seja reconhecido como legítimo e para que o processo não aprofunde a desconfiança já instalada.
Patrice Trovoada, por seu lado, insiste que o foco deve ser a “normalidade” com estabilidade para os guineenses e credibilidade para o país, apontando que há “várias ferramentas” para chegar lá.
Entre essas ferramentas, coloca o diálogo inclusivo, a escuta das forças políticas e sociais e a leitura do passado recente do país, onde transições falhadas e acordos incompletos deixaram marcas na confiança pública.
O enviado especial evita comprometer-se com fórmulas fechadas, preferindo assumir que a missão é abrir canais e reduzir a erosão institucional, criando condições para conversações políticas que envolvam os guineenses e tenham respaldo regional e internacional.
Perante críticas sobre alegada proximidade a figuras do poder deposto, Trovoada relativiza e afirma que a neutralidade da UA é crucial e que a missão se orienta pela Carta da organização.
A visita a Bissau, anunciada como oficial e com encontros com altas entidades do Estado e figuras da vida pública nacional, é apresentada como um passo de recolha e aproximação. Resta saber se esse passo produzirá compromissos concretos sobre transição, inclusão e garantias políticas, num país onde a urgência do calendário se cruza com a fragilidade das instituições.
Conclusão
A presença de Patrice Trovoada na Guiné-Bissau simboliza a persistência da diplomacia africana em evitar que a crise se consolide como padrão. O restabelecimento da ordem constitucional exige mais do que datas eleitorais: exige confiança, inclusão e compromisso com regras claras.
O desafio é transformar um episódio de rutura num processo de reconstrução institucional que devolva aos guineenses estabilidade e credibilidade perante o continente e a comunidade internacional.
Patrice Trovoada, o enviado da UA à Guiné-Bissau, vai conseguir resolver alguma coisa? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.
Imagem: © Inácio Rosa
