Estamos Às Portas De Uma III Guerra Mundial?

Há datas que não anunciam o futuro, mas mudam o modo como o mundo o calcula. O ataque ao Irão, pelos EUA e a consequente retaliação, aliada à escalada da Guerra na Ucrânia, leva-nos a pensar se a III Guerra Mundial não terá já começado.

Estamos Às Portas De Uma III Guerra Mundial?


“III Guerra Mundial” é a expressão que regressa ao debate sempre que a política internacional deixa de parecer um tabuleiro e passa a soar a sirenes de ataque aéreo.

Em 2026, a pergunta “estamos às portas?” já não vive apenas da ansiedade colectiva, mas também de factos recentes que encostam os actores centrais ao limite da contenção e de estruturas que transformam um choque regional numa crise à escala mundial.

Neste dia 28 de Fevereiro de 2026, Israel anunciou que lançou um ataque “preventivo” contra o Irão, com relatos de coordenação com os Estados Unidos da América (EUA), resultando numa reacção iraniana prometida e iniciada, num quadro em que escolas, locais de trabalho e espaço aéreo israelitas foram encerrados por medidas de emergência.

Nestas horas, o elemento mais perigoso não é apenas o míssil, mas o encadeamento. O dossiê nuclear iraniano continua a ser o nó mais sensível da região e as “guerras por procuração” mantêm frentes activas do Leste Europeu ao Mar Vermelho, alargando os riscos com a utilização de redes de aliados e milícias.

E quando a ameaça toca num estrangulamento energético como o Estreito de Ormuz, a turbulência passa da geopolítica para a economia real: os navios deixam de circular, as cargas ficam suspensas, os seguros disparam e os preços futuros antecipam o pior antes mesmo de haver confirmação do dano.

O que se segue não é um manifesto nem uma profecia, mas um retrato jornalístico de como o mundo chegou a um patamar em que a escalada rápida da guerra se tornou um panorama plausível e de quais são, também, os travões ainda existentes.


O Gatilho


A diferença entre “tensão” e “perigo” costuma medir-se pelo momento em que os actores internacionais deixam de falar por intermediários e começam a mexer directamente as peças no tabuleiro.

O dia 28 de Fevereiro de 2026 inscreve-se nesse tipo de inflexão: Israel lançou um ataque contra o Irão, afirmando ser “preventivo”, com explosões a serem reportadas em Teerão e com Israel a accionar medidas de emergência internas, incluindo o fecho de escolas, locais de trabalho e do espaço aéreo.

A reacção internacional ilustra o que está em jogo: Moscovo classificou os ataques conjuntos EUA-Israel como uma agressão armada “não provocada” e pediu um debate no Conselho de Segurança da ONU, num sinal de que o episódio não é lido apenas como um capítulo regional, mas como um choque com potencial para reorganizar os alinhamentos internacionais.

Mesmo quando a linguagem pública é cuidadosamente escolhida, a mecânica do risco é crua: um ataque abre a expectativa de retaliação, a retaliação abre a expectativa de nova resposta e a cadeia reduz a margem para recuos sem perda de credibilidade.

É aqui que a expressão “às portas” ganha conteúdo concreto: a política externa passa a operar com prazos encurtados, com decisões sob pressão e com o peso de audiências internas que exigem firmeza. Numa escalada deste tipo, a diplomacia não desaparece, mas fica subordinada à urgência militar.

Há ainda um factor que torna o momento especialmente sensível: a simultaneidade de frentes. A guerra na Ucrânia continua a consumir recursos e atenção estratégica, enquanto o Mar Vermelho permanece instável o suficiente para obrigar a União Europeia a manter uma operação naval defensiva prolongada.

Quando teatros diferentes se acumulam, qualquer incidente é mais facilmente interpretado como uma peça de um desenho maior e as decisões tendem a ser tomadas com base no pior cenário. O medo, na política internacional, raramente é abstracto: é um cálculo.


Ormuz


O Estreito de Ormuz é o ponto onde uma guerra regional pode transformar-se numa crise mundial em poucos dias. Não por simbolismo, mas por matemática: a energia que passa por ali alimenta economias, indústrias e estabilidade social muito para lá do Golfo.

A agência energética do governo dos EUA descreve Ormuz como um dos mais importantes “chokepoints” do planeta, com volumes de crude e produtos petrolíferos suficientes para representar uma parte enorme do comércio marítimo mundial e com poucas alternativas de escoamento caso haja uma interrupção efectiva.

No próprio dia 28 de Fevereiro de 2026, a Reuters noticiou que grandes empresas de energia, armadores e negociadores suspenderam temporariamente as remessas através de Ormuz após os ataques, enquanto Teerão anunciava o fecho da via, com imagens de satélite a sugerirem acumulação de embarcações e com avisos de segurança emitidos por forças navais para navegação na região.

Este detalhe é decisivo: quando os navios param ou recuam, não é preciso um bloqueio total para haver choque — basta incerteza suficiente para alterar rotas, prazos e prémios de risco. E o choque energético não fica no combustível. Ele entra no custo dos transportes, no preço dos alimentos, na inflação e na paz social.

Ao mesmo tempo, afecta directamente países que não têm voto na crise, mas têm facturas para pagar: importadores líquidos em África e na Ásia tendem a sentir primeiro a subida do custo de vida e a pressão sobre as moedas e as reservas. A ameaça, portanto, não é apenas militar: é sistémica.

Nesta engrenagem, Ormuz funciona como multiplicador: uma decisão tomada em Teerão, Jerusalém ou Washington pode repercutir-se numa fila de navios no Golfo e, de seguida, numa prateleira mais cara em mercados distantes. Quando isto acontece, o conflito deixa de ser “de lá” e passa a ser “de todos”.


Arsenais


Falar da possibilidade de uma III Guerra Mundial no século XXI sem falar em dissuasão nuclear é deixar o principal travão fora do quadro. O inventário total de ogivas no planeta continua muito elevado e concentrado: segundo a Federation of American Scientists, nove países possuíam cerca de 12 321 ogivas no início de 2026, com os EUA e a Rússia a reunirem a esmagadora maioria do total mundial.

A mesma fonte sublinha que, apesar de a contagem ter vindo a descer desde o fim da Guerra Fria, o ritmo de reduções abrandou e a transparência também sofre abalos, o que aumenta a dificuldade de avaliar os riscos com precisão. Este ponto muda a leitura da pergunta “às portas?”.

A existência de arsenais nucleares torna menos provável uma guerra total directa entre grandes potências, porque o custo potencial é incomportável. Mas também cria um paradoxo: pode incentivar confrontos “limitados”, porque cada lado acredita que o outro evitará escalar até ao ponto de ruptura. É o tipo de lógica que produz acidentes históricos: jogam-se limites e um erro de cálculo torna-se irreversível.

A dimensão nuclear não é apenas EUA-Rússia. A China surge com um crescimento do arsenal para centenas de ogivas e projecção estratégica crescente, enquanto Israel mantém opacidade histórica sobre as suas capacidades nucleares, aparecendo em estimativas internacionais com um stock reduzido em comparação com as superpotências e, ainda assim relevante, na dissuasão regional.

E, no centro do actual foco, permanece o dossier iraniano: mesmo quando a guerra é conduzida com aviões e mísseis convencionais, a ansiedade nuclear define prazos políticos e torna a contenção mais difícil. Os arsenais nucleares não são o destino, são o contexto. Mas o contexto, quando combinado com frentes múltiplas e rivalidades de grande escala, transforma o erro numa moeda caríssima.


Procurações


A escalada contemporânea raramente começa com declarações formais de guerra. Começa por procurações: aliados armados, milícias, sabotagens, ataques de drones, guerras de atrito que permitem negar envolvimento total enquanto se testam limites.

O Mar Vermelho é o exemplo mais nítido de como este mecanismo transporta risco para a economia mundial: a União Europeia decidiu estender a operação naval EUNAVFOR ASPIDES até 28 de Fevereiro de 2027, justificando a medida com a necessidade de salvaguardar a liberdade de navegação perante as ameaças persistentes contra os navios mercantes.

Este dado é mais do que burocracia: é admissão de que a instabilidade marítima deixou de ser episódica e passou a ser paisagem. E quando uma região se transforma em paisagem de risco, aumenta a probabilidade de incidente: uma identificação errada, um míssil que cai onde não devia e uma resposta “proporcional” que o outro lado lê como escalada deliberada.

Ao mesmo tempo, o teatro europeu mantém a pressão constante. No quarto ano do conflito, o Kremlin descreveu a guerra na Ucrânia como o confronto mais amplo com o Ocidente, o que reforça a narrativa de blocos e alimenta a política de alianças.

Uma avaliação citada na imprensa britânica, atribuída ao IISS, sugere que a Rússia pode sustentar operações ao longo de 2026, o que prolonga o tempo em que a Europa vai ficar depende de apoio externo e mantém a NATO num estado de alerta constante.

O efeito combinado é perigoso: proxies abrem frentes sem declarar guerra e frentes prolongadas criam fadiga política o que pode levar os líderes a decisões mais bruscas para “encerrar” os problemas. A pergunta “Estamos Às Portas De Uma III Guerra Mundial” nasce, em grande parte, deste acoplamento: não é uma única crise, é o modo como crises diferentes passam a reforçar-se.


Dinheiro


As guerras modernas não se fazem apenas de munições; fazem-se de reservas, moedas, cadeias logísticas e percepção de estabilidade. Aqui, o debate sobre a “desdolarização” exige muito rigor.

Dados do FMI compilados pela Reuters indicam que a quota do dólar nas reservas mundiais reportadas ao Fundo desceu para 56,92% no terceiro trimestre de 2025, enquanto o euro subiu para cerca de 20,33% e outras moedas ganharam espaço. Isto não é um colapso, é uma diversificação gradual.

Ainda assim, a diversificação tem significado político: um sistema menos concentrado pode ser, em certos choques, menos previsível. No plano europeu, a Reuters noticiou que o BCE vendeu uma pequena parte de activos em dólares no primeiro trimestre de 2025 e reinvestiu o ganho em ienes, descrevendo a operação como reequilíbrio de carteira.

O próprio gesto, mesmo apresentado como técnico, alimenta leituras num momento em que sanções, tarifas e rivalidades comerciais voltam a misturar finanças com geopolítica. E há um indicador ainda mais simbólico e, ao mesmo tempo, mensurável: o ouro. O World Gold Council reportou compras líquidas de 863 toneladas por bancos centrais em 2025, com maior aceleração no último trimestre.

Em linguagem simples: muitos Estados continuam a procurar activos que funcionem como seguro quando o mundo parece menos estável. Como isto se liga à pergunta inicial? Liga-se porque as crises energéticas e as crises de confiança financeira alimentam-se mutuamente.

Se Ormuz treme, sobe o petróleo; se sobe o petróleo, cresce a inflação; se cresce a inflação, endurece a política interna; se endurece a política interna, reduz-se a margem para recuos estratégicos. O dinheiro, aqui, é o combustível da decisão.


Conclusão


Não se responde com dramatismo, nem com uma negação confortável, à pergunta se “Estamos Às Portas De Uma III Guerra Mundial”.

Hoje, neste dia 28 de Fevereiro de 2026, o mundo entrou num patamar em que a acção militar directa entre vários actores centrais e as perturbações potenciais criadas no estreito de Ormuz tornam plausíveis os cenários de uma escalada rápida da guerra, com um impacto imediato na energia e no comércio.

Isso não torna inevitável que vá eclodir uma guerra mundial, mas reduz o espaço para erro, sobretudo quando as frentes de guerra por procuração permanecem activas e os arsenais nucleares continuam a definir o limite do impensável.

A diferença entre “às portas” e “a caminho” dependerá, menos dos discursos e mais de contenção operacional, dos canais de crise e das decisões que aceitem uma verdade antiga: numa rivalidade entre potências mundiais, a vitória absoluta costuma ser apenas outro nome para “ruína partilhada”.

 


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Imagem: © 2026 Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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