CPLP: VI Conferência de Jovens Investigadores

Num continente que procura afirmar-se como produtor de conhecimento, Maputo torna-se palco de uma geração que recusa permanecer na periferia científica mundial.

CPLP: VI Conferência de Jovens Investigadores


A CPLP volta a ganhar centralidade no debate académico com a realização da IV Conferência de Jovens Investigadores que decorre entre 25 e 27 de Março de 2026, em Maputo, Moçambique.

O encontro reúne mais de mil participantes, entre jovens investigadores, académicos, decisores políticos e representantes da sociedade civil, consolidando-se como uma das mais relevantes plataformas científicas no espaço lusófono.

Sob o tema “Diversidade Cultural, Inovação Digital e Saberes Ancestrais: Construindo Futuros Sustentáveis em África”, a conferência propõe uma reflexão profunda sobre o papel do conhecimento africano no panorama científico mundial. Mais do que um evento académico, trata-se de um espaço de afirmação, onde a produção científica local procura ganhar visibilidade e reconhecimento internacional.

Organizada pela Associação Encontro de Jovens Investigadores da CPLP (EJICPLP), com apoio institucional da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a iniciativa surge num momento em que África procura reposicionar-se como actor activo na produção de ciência e inovação.

A crescente participação de jovens evidencia uma mudança estrutural no continente, marcada por maior ambição, ligação em rede e capacidade de intervenção. Neste contexto, Maputo assume-se como um ponto de convergência entre tradição e modernidade, reunindo saberes ancestrais e tecnologias emergentes numa mesma agenda de futuro.


Novo Centro


Maputo transforma-se, durante estes dias, num verdadeiro centro nevrálgico do pensamento científico jovem no espaço da CPLP. A realização da IV Conferência de Jovens Investigadores representa não apenas um encontro académico, mas um movimento estratégico que visa reposicionar o continente no mapa mundial da produção de conhecimento.

O crescimento do evento é evidente. Com mais de 1200 participantes, esta edição supera as anteriores realizadas em Lisboa e Luanda, tanto em dimensão como em diversidade. Este aumento reflecte uma mudança profunda: o surgimento de uma nova geração de investigadores africanos mais conectada, mais consciente do seu papel e mais determinada em influenciar o futuro do continente.

O Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo, acolhe sessões plenárias, mesas redondas, oficinas e actividades culturais, criando um ambiente propício ao intercâmbio de ideias. Paralelamente, o pré-programa realizado na Universidade Eduardo Mondlane e no Instituto Guimarães Rosa aposta na formação prática, com enfoque em escrita académica, inteligência artificial e produção audiovisual.

A presença de mais de 40 oradores provenientes da CPLP e da diáspora reforça a dimensão internacional do encontro. Figuras como Joaquim Chissano, Mamadou Diawara e Cristina Molares d’Abril contribuem para elevar o nível do debate, estabelecendo pontes entre diferentes áreas do saber.

Mais do que um evento pontual, a conferência afirma-se como um espaço de construção colectiva, onde a ciência africana deixa de ser periférica para se posicionar como protagonista.


Ciência Africana


A valorização da ciência africana constitui o eixo central da conferência. Durante décadas, a produção científica no continente foi frequentemente associada a dependência externa e a uma posição marginal no panorama mundial. Este encontro surge precisamente para contrariar essa narrativa.

Cristina Molares D’Abreu, presidente da EJICPLP, sublinhou a importância de reconhecer que a investigação local também é ciência. A afirmação reflecte uma mudança de paradigma: África deixa de ser vista apenas como espaço de aplicação de conhecimento e passa a ser reconhecida como produtora activa.

A apresentação de trabalhos por cerca de 60 jovens investigadores seleccionados representa um momento crucial do evento. Estes projectos abordam áreas diversas, desde tecnologias emergentes até práticas culturais tradicionais, demonstrando a riqueza e a diversidade do pensamento científico africano.

Ao integrar saberes ancestrais com inovação digital, a conferência propõe uma abordagem híbrida, alinhada com as necessidades contemporâneas. Esta articulação permite desenvolver soluções adaptadas às realidades locais, evitando a importação acrítica de modelos externos.

A ciência africana ganha, assim, uma nova dimensão. Deixa de ser reactiva para se tornar propositiva, contribuindo activamente para a resolução de desafios globais. Este processo de afirmação é fundamental para garantir autonomia intelectual e fortalecer a posição do continente no sistema internacional.


Redes Lusófonas


Um dos principais activos da conferência reside na criação de redes científicas no espaço da CPLP. O contacto directo entre jovens investigadores e especialistas internacionais constitui uma oportunidade rara, sobretudo para aqueles que enfrentam limitações estruturais nos seus contextos de origem.

O intercâmbio promovido pelo evento vai além da partilha de conhecimento. Trata-se de um processo de construção de relações que podem dar origem a projectos conjuntos, parcerias institucionais e iniciativas de investigação colaborativa. Num mundo cada vez mais interligado, estas redes são essenciais para garantir competitividade e inovação.

A participação de representantes da diáspora acrescenta uma dimensão adicional ao encontro. Estes actores funcionam como pontes entre África e outros centros de produção científica, facilitando a circulação de ideias e a integração em redes internacionais.

A CPLP desempenha, neste contexto, um papel estratégico. Ao promover a cooperação entre países de língua portuguesa, contribui para a criação de um espaço científico comum, baseado na partilha de língua, cultura e interesses.

Este modelo de cooperação revela-se particularmente relevante num momento em que o conhecimento se afirma como um dos principais motores de desenvolvimento. Ao fortalecer as ligações entre investigadores, a conferência contribui para consolidar uma comunidade científica capaz de responder aos desafios do futuro.


Saberes Vivos


A integração de saberes ancestrais na agenda científica representa uma das dimensões mais inovadoras da conferência. Durante muito tempo, o conhecimento tradicional foi marginalizado nos espaços académicos, sendo frequentemente desvalorizado face às abordagens ocidentais.

Este encontro, realizado pela CPLP, propõe uma inversão dessa lógica. Ao reconhecer o valor dos saberes locais, promove uma ciência mais inclusiva e contextualizada. Práticas tradicionais relacionadas com agricultura, medicina e gestão ambiental são analisadas à luz das necessidades contemporâneas, revelando o seu potencial para contribuir para o desenvolvimento sustentável.

A articulação entre tradição e inovação surge como um dos principais desafios. A inclusão de temas como inteligência artificial, cinema e escrita académica demonstra a intenção de alinhar competências locais com as exigências da economia do conhecimento.

Esta abordagem híbrida permite não apenas preservar o património cultural, mas também transformá-lo em recurso estratégico. Ao valorizar as raízes africanas, a conferência contribui para a construção de uma identidade científica própria.

Os saberes vivos tornam-se, assim, um elemento central na construção de futuros sustentáveis. Mais do que memória, representam uma fonte de inovação capaz de responder aos desafios actuais.


Desafio Futuro


Apesar do entusiasmo gerado pelo encontro, o principal desafio reside na continuidade. A consolidação deste tipo de iniciativas depende da capacidade de transformar ideias em acções concretas, garantindo financiamento sustentável e integração em políticas públicas.

A ciência precisa de ser encarada como um pilar central do desenvolvimento económico e social. Sem investimento consistente, os avanços alcançados correm o risco de se dissipar. A conferência demonstra que existe potencial humano e intelectual, mas a sua materialização exige compromisso político e institucional.

A criação de mecanismos que permitam acompanhar os projectos apresentados e apoiar a sua implementação será determinante. O networking gerado durante o evento deve traduzir-se em resultados tangíveis, capazes de gerar impacto real.

África encontra-se num momento decisivo. A emergência de uma nova geração de investigadores abre caminho para uma transformação estrutural. O desafio passa por garantir que este impulso não se perde.

A conferência de Maputo, promovida pela CPLP, representa, assim, mais do que um evento, mas sim um sinal de mudança, um passo na construção de um continente que se afirma através do conhecimento.


Conclusão


A ciência africana ganha voz em Maputo e recusa-se a permanecer à margem, afirmando-se no espaço da CPLP como um actor cada vez mais relevante.

Ao reunir jovens investigadores, saberes diversos e ambições comuns, a IV Conferência de Jovens Investigadores demonstra que o futuro do continente passa pela valorização do conhecimento produzido localmente e pela cooperação científica lusófona.

Celebrar e investir nestas iniciativas é garantir que África deixa de ser apenas objecto de estudo para se afirmar como sujeito activo na construção do pensamento mundial.

 


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Imagem: © 2026 - EJICPLP-ÁFRICA
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