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ToggleCabo Verde: 35 Anos De Estabilidade Política
Cabo Verde assinala, a 13 de Janeiro, o 35.º aniversário da Liberdade e Democracia, uma data que ultrapassa o simbolismo comemorativo para afirmar um percurso político singular no contexto africano e mundial.
Três décadas e meia após a consolidação do regime democrático, o arquipélago apresenta-se como um dos exemplos mais consistentes de continuidade institucional, alternância pacífica do poder e cultura cívica enraizada, num continente onde a democracia permanece, em muitos casos, frágil e reversível.
As celebrações oficiais, promovidas pelo Governo e pela Presidência da República ao longo de uma semana, reflectem essa maturidade democrática. Não se limitam a atos protocolares, mas abrem espaço à reflexão crítica, ao debate inter-geracional e à valorização da memória colectiva.
Monumentos, festivais, conferências académicas, exposições históricas e iniciativas dirigidas à juventude e à Diáspora compõem um programa que sublinha a democracia como prática viva e não como conquista encerrada.
Este momento coincide ainda com uma leitura internacional favorável sobre o posicionamento de Cabo Verde enquanto Estado estável, previsível e atractivo para o investimento, num equilíbrio delicado entre limitações estruturais e governação consistente.
A democracia cabo-verdiana surge, assim, não apenas como valor político, mas como pilar económico e social. Ao longo deste artigo, percorremos o significado destes 35 anos, as iniciativas comemorativas, o papel da juventude e da Diáspora, bem como a forma como a estabilidade política se projecta para além da esfera institucional, influenciando a economia, o investimento e a imagem externa do país.
Democracia: Património Vivo

As comemorações dos 35 anos da Liberdade e Democracia em Cabo Verde foram pensadas como um exercício de memória activa. O arranque, com a inauguração do Monumento à Liberdade e Democracia em Achada Grande Frente, na cidade da Praia, simboliza a inscrição física da democracia no espaço público, transformando-a em património visível e partilhado.
A presença do primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva e de diversas entidades nacionais e internacionais reforçou o carácter institucional do momento, mas o programa rapidamente se expandiu para além do ritual oficial.
A capital cabo-verdiana acolheu aulas magnas em várias universidades, conferências internacionais e exposições que retratam o percurso democrático desde a transição para o multipartidarismo em 1991.
A conferência “O livro numa sociedade democrática” e a exposição comemorativa dos 35 anos permitiram enquadrar a democracia não apenas como sistema político, mas como ecossistema cultural, educativo e cívico. Um dos eixos centrais das celebrações foi a reflexão crítica.
Longe de uma leitura auto-complacente, o Governo assumiu a necessidade de promover espaços de debate sobre os desafios actuais da democracia cabo-verdiana, num mundo marcado pela desinformação, pelo afastamento dos jovens da política formal e pela erosão da confiança nas instituições.
O painel dedicado ao tema “A construção da democracia cabo-verdiana: desafios actuais e o papel da juventude” reflectiu essa preocupação, colocando as novas gerações no centro da equação democrática.
Ao assumir a democracia como processo em permanente construção, Cabo Verde reafirma uma cultura política que privilegia a participação cidadã, a liberdade de expressão e o Estado de Direito Democrático. É essa normalização da democracia, tornada quotidiana que explica em grande medida a estabilidade alcançada ao longo de 35 anos.
Monumento Histórico

Como parte das comemorações do dia de hoje, foi inaugurado, o Monumento da Democracia e Liberdade em Cabo Verde que assinala os 35 anos das primeiras eleições multipartidárias.
Construído na Rotunda de Achada Grande Frente que também dá acesso ao aeroporto Amílcar Cabral, na cidade da Praia, o Monumento assinala mais de três décadas de um percurso político pautado pela liberdade, pelo pluralismo e pela participação cívica. Estes pilares consolidaram o país como uma referência democrática em África e no mundo.
O Monumento surge como símbolo vivo da coragem colectiva de um povo que, em 1991, escolheu o caminho da alternância democrática através do voto livre e soberano. Desde então, Cabo Verde tem afirmado, de forma consistente, a maturidade das suas instituições, a estabilidade política e o respeito pelo Estado de Direito, alicerçando o desenvolvimento nacional na legitimidade popular.
Localizado na capital do país, o Monumento não é apenas uma homenagem ao passado; é também um compromisso com o futuro. Representa a memória dos que lutaram pela abertura democrática e convoca as novas gerações a protegerem e a aprofundarem as conquistas alcançadas.
Na sua presença, reafirma-se a convicção de que a democracia é um processo contínuo que se fortalece com participação, diálogo e responsabilidade. A cerimónia de inauguração reúne figuras institucionais, representantes da sociedade civil e cidadãos, num momento de celebração e reflexão sobre o caminho percorrido e os desafios que se avizinham.
Num mundo marcado por incertezas, Cabo Verde reafirma a sua opção firme pela democracia, pela paz e pela liberdade. Antes da inauguração, o Parlamento reúne-se em sessão solene e evocativa da data, num momento marcado pelas intervenções de representantes de todos os partidos com assento parlamentar, bem como comunicações dos presidentes da Assembleia Nacional e do chefe de Estado.
Juventude, Diáspora, Renovação

A XV Semana da República, integrada nas celebrações dos 35 anos de democracia, introduziu um elemento particularmente revelador: o foco explícito na Geração Z e na renovação das linguagens cívicas.
Sob o lema “Cabo Verde: novas vozes, novos caminhos”, o Presidente da República procurou sublinhar que a continuidade democrática depende da capacidade de escutar, integrar e valorizar as expectativas das gerações mais jovens. A iniciativa “Portas Abertas” que permitiu a visita pública ao Palácio Presidencial, assumiu um carácter simbólico forte.
Ao abrir um espaço historicamente reservado ao poder, o Estado reforça a ideia de proximidade institucional e pertença cidadã. A visita guiada, conduzida pelo staff da Presidência, transformou a memória republicana num instrumento pedagógico acessível.
O programa estendeu-se à Praia e ao Mindelo, com aulas magnas, encontros com jovens e debates sobre Constituição, direitos de participação e futuro da cidadania.
A apresentação do quarto volume da obra “No Ofício do Bem Comum” e do fac-símile “Quando Nasce a República” reforçou a ligação entre memória histórica e responsabilidade presente, num gesto de preservação documental que dialoga com o Cinquentenário da Independência Nacional.
A Diáspora cabo-verdiana ocupou igualmente um lugar central. Actividades comemorativas em Dakar, Lisboa e Brockton reconheceram o papel decisivo das comunidades emigradas na afirmação da democracia, na economia e na projecção internacional do país.
Esta ligação transnacional reforça a ideia de uma cidadania que ultrapassa fronteiras físicas, mas mantém vínculos políticos e culturais sólidos. Ao colocar juventude e Diáspora no centro das celebrações, Cabo Verde demonstra compreender que a estabilidade política não se herda automaticamente. Constrói-se através da inclusão, da educação cívica e da renovação constante do contracto social.
Estabilidade e Credibilidade

A leitura internacional sobre Cabo Verde reforça a ligação directa entre estabilidade política e desempenho económico. De acordo com uma análise da consultoria In On Africa, o arquipélago apresenta-se como um dos países mais estáveis da África Subsariana, apesar da escassez de recursos naturais e das limitações geográficas.
paradoxalmente, a experiência acumulada na gestão de recursos limitados tornou-se, um factor de credibilidade. O relatório sublinha que Cabo Verde ocupa a terceira posição entre os países mais liberais economicamente da região, beneficiando de políticas abertas ao comércio e ao investimento.
O turismo continua a ser o principal motor económico, complementado pela pesca e por investimentos crescentes em infra-estruturas e modernização energética. O objectivo de atingir 50% da produção eléctrica a partir de fontes renováveis até 2030 demonstra uma visão estratégica alinhada com as alterações climáticas e a sustentabilidade.
Persistem desafios claros: custos logísticos elevados, escassez de mão de obra qualificada e limitada área arável. Ainda assim, processos simplificados para abertura de empresas, infra-estruturas estratégica e acesso ao mercado da CEDEAO posicionam Cabo Verde como plataforma de ligação entre a União Europeia e a África Ocidental.
A democracia surge, neste contexto, como factor económico estruturante. A previsibilidade institucional, a alternância pacífica do poder e o respeito pelas regras reduzem o risco político e tornam o país atractivo para investidores que privilegiam estabilidade a curto e médio prazo. A possibilidade de cidadania por investimento, com valores mínimos definidos, enquadra-se nessa lógica de abertura controlada.
Conclusão
Os 35 anos de Liberdade e Democracia em Cabo Verde não representam um ponto de chegada, pelo contrário, é a confirmação de um caminho sustentado. Num continente onde a estabilidade política continua a ser a excepção, o arquipélago demonstra que a democracia, quando praticada com coerência, gera confiança, atrai investimentos e fortalece a coesão social.
As celebrações de Janeiro não são apenas um olhar para o passado, são um exercício consciente de projecção do futuro. Cabo Verde não celebra apenas o que foi. Afirma, sobretudo, o que escolheu continuar a ser.
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Imagem: © 2026 Governo de Cabo Verde
