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Segunda-feira, Janeiro 12, 2026

Angola 50 Anos: Entre A Memória E O Sacrifício

50 Anos depois do 11 de Novembro de 1975, a pergunta que se impõe não é apenas o que Angola conquistou com a Independência, mas como transformar essas conquistas em prosperidade partilhada num mundo mais instável e exigente.

Angola 50 Anos: Entre A Memória E O Sacrifício


Comemorou-se hoje, na Praça da República, em Luanda, os 50 Anos da Independência de Angola, data que devolve ao país a dimensão plena da sua própria história e da luta que a tornou possível.

O acto central das celebrações, reuniu chefes de Estado, 45 delegações estrangeiras, antigos combatentes, jovens, artistas e milhares de cidadãos que, à distancia, testemunharam um momento simultaneamente solene e emotivo.

Entre desfiles cívicos e militares, a homenagem a António Agostinho Neto — que proclamou a independência em 1975 — simbolizou a continuidade de uma nação que se reconhece na memória dos que lutaram e no esforço dos que constroem.

50 anos depois, Angola reencontra-se com a sua própria história — uma história feita de resistência, sacrifício e reconstrução, mas também de contrastes e desafios ainda por resolver.

Meio século de soberania impõe uma leitura política, económica e moral do trajecto nacional: o caminho entre a libertação e a modernização, entre o ideal e a prática, entre a conquista da liberdade e a urgência de a transformar em prosperidade partilhada.

Mais do que um marco comemorativo, este cinquentenário ergue-se como espelho e bússola — um apelo à consciência colectiva de um povo que continua a procurar no presente a promessa que fez a si mesmo em 1975.


A Independência


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © 1975 Domínio Público

A proclamação da Independência efectuada há 50 anos atrás, por António Agostinho Neto, “perante África e o Mundo”, libertou-nos do jugo colonial e inaugurou um ciclo histórico marcado por coragem, guerra, reconstrução e reformas.

O trajecto nacional não se mede só por metáforas de epopeia e renascimento mede-se por escolas abertas e hospitais em funcionamento, por estradas que encurtam distâncias, por energia que chega a populações antes esquecidas, por uma economia que tenta diversificar-se além do crude.

Hoje o país celebra uma alfabetização que passou de 5% para mais de 75% e uma população que cresceu de 6,5 para cerca de 35 milhões. Mas celebra também com sobriedade sabendo que persistem assimetrias regionais, pobreza estrutural, urbanização desordenada e desafios de governação que pedem instituições mais sólidas e um Estado mais eficaz.

No cinquentenário, a Praça da República, em Luanda, voltou a reunir símbolos e chefes de Estado, desfiles cívicos e militares e a homenagem a Agostinho Neto.

Contudo a verdadeira homenagem mede-se pelo que conseguirmos fazer a seguir: consolidar a paz, diversificar a economia, capacitar as pessoas e garantir que a herança de soberania se traduz num futuro de oportunidades concretas para todas as famílias angolanas.

De Kifangondo ao Presente


A Independência de 1975 foi o culminar de séculos de resistência e de um processo de descolonização acelerado após o 25 de Abril em Portugal. Kifangondo, em 10 de Novembro, selou a possibilidade de proclamar a soberania no dia seguinte.

A seguir chegou a brutalidade da guerra civil entre movimentos de libertação, um conflito que corrompeu afectos e devorou recursos que deviam ter sido investidos em pessoas e infra-estruturas. Desde 2002 a paz tornou possível reerguer pontes literais e figuradas.

O Estado investiu em barragens hidroeléctricas, portos, estradas, escolas, universidades e hospitais criando condições para ligar o território e recuperar serviços públicos.

O crescimento económico, apoiado pelo petróleo, trouxe receitas e obras, mas expôs uma vulnerabilidade estrutural que nos acompanha há demasiado tempo: a dependência de matérias-primas e a volatilidade de preços que ora aceleram ora travam o desenvolvimento.

Daí a urgência de um novo paradigma que transforme capital natural em capital produtivo e humano apostando em agricultura, indústria transformadora, energia limpa, turismo, finanças e tecnologia. A transição política também produziu marcos relevantes com os Acordos de Bicesse e as eleições de 1992 a abrirem portas ao multipartidarismo.

Contudo fragilidades ligadas à transparência, responsabilização pública e cultura democrática insistem em lembrar que não há atalhos institucionais. No cinquentenário exige-se lucidez: celebrar feitos, reconhecer falhas, fixar prazos de execução e responsabilizar quem decide e quem executa para que o progresso deixe de ser episódico e passe a ser rotina.


Unidade, Memória, Compromisso


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © 2025 Ampe Rogério / EPA

Na mensagem dos 50 Anos da Independência, o MPLA convocou unidade e vigilância para preservar conquistas que custaram suor, lágrimas e vidas. A exortação às novas gerações para se inspirarem nos antepassados só fará sentido se a memória histórica encontrar uma prática cívica de participação informada e crítica.

Preservar conquistas implica consolidar a paz como política de Estado, blindar a reconciliação nacional contra tentações divisionistas e tratar a diversidade como riqueza comum.

Implica também garantir que os símbolos não substituem as entregas: serviços de saúde que funcionam com medicamentos e profissionais motivados, escolas onde se aprende de facto, protecção social que chega a quem precisa, justiça que decide com celeridade, segurança que protege direitos e liberdades.

A unidade que interessa não é unanimismo estéril é capacidade de colocar o interesse nacional acima das querelas partidárias para aprovar reformas que façam diferença na vida real. A vigilância que interessa não é desconfiança generalizada é acompanhamento cívico de políticas públicas com métricas claras, metas calendarizadas e prestação de contas regular.

O cinquentenário ajuda a cristalizar um consenso mínimo: sem diversificação económica não haverá estabilidade social nem orçamento capaz de sustentar serviços públicos de qualidade. Sem instituições fortes não haverá confiança para investir nem crédito externo a custos aceitáveis.

E sem uma cultura de mérito e integridade na função pública cada kwanza adicional se perderá no labirinto da ineficiência. A geração que já nasceu em paz tem o dever de exigir mais e melhor porque herdar a liberdade inclui a responsabilidade de a aprofundar.


Angola e o Mundo


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © 2025 CIPRA

Durante as comemorações dos 50 Anos da Independência, o PR avisou que Angola olha o mundo com apreensão. O regresso de guerras convencionais na Europa e de conflitos persistentes no Médio Oriente, a proliferação de grupos terroristas no Sahel e a multiplicação de golpes de Estado em África compõem um panorama de insegurança que banaliza a vida humana e testa o sistema internacional.

A impotência prática das Nações Unidas para prevenir e resolver crises de alta intensidade expõe a desactualização da arquitectura de segurança global face ao equilíbrio de poderes do século XXI. Defender o multilateralismo, como fez o Chefe de Estado, é reconhecer que não existe alternativa inclusiva para gerir bens públicos globais como paz, clima, biodiversidade, oceanos e fluxos migratórios.

Mas defender o multilateralismo hoje implica defender a reforma do Conselho de Segurança, dos mecanismos de financiamento ao desenvolvimento e das regras comerciais que penalizam países de rendimento médio em transição, como Angola.

Implica também uma diplomacia económica que converta capital político em oportunidades de investimento produtivo com transferência de tecnologia e conteúdo local qualificado.

Neste contexto a Cimeira UE–União Africana, anunciada para Luanda, oferece palco para aprofundar uma parceria de igual para igual em energia, transição ecológica, digital, comércio, investimento e segurança marítima no Atlântico Sul.

Quando António Costa, presidente do Conselho Europeu, fala de “parceria cada vez mais forte”, a leitura útil para Angola é pragmática: projectos viáveis, cronogramas definidos, financiamento claro e ganhos mútuos explícitos.

A política externa deve servir a diversificação interna, ancorar a integração regional através de corredores logísticos como o do Lobito e colocar Angola como plataforma de estabilidade e negócios entre Atlântico e África Central.


Economia Real


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © DR

A narrativa dos 50 anos confirma uma lição dura: crescer não basta é preciso transformar a base produtiva e distribuir oportunidades pelo território. O ciclo do petróleo financiou infra-estruturas vitais, mas não conseguiu por si só gerar uma classe média produtiva robusta, capaz de sustentar emprego qualificado e receitas fiscais diversificadas.

A agenda de diversificação precisa de metas por sector, incentivos inteligentes e burocracia amiga da produção. Na agricultura a prioridade é ligar pequenos e médios produtores a cadeias de valor com crédito acessível, assistência técnica, irrigação e extensão rural moderna para reduzir importações de alimentos e estabilizar preços.

Na indústria transformadora urge aproveitar matérias-primas locais para produzir com valor acrescentado integrando o mercado regional da SADC e as oportunidades da Zona de Comércio Livre Continental Africana. Na energia, solar e hídrica devem ampliar fiabilidade e reduzir custos para empresas e famílias fortalecendo a competitividade.

Nos serviços a digitalização do Estado pode diminuir custos de contexto, melhorar o ambiente de negócios e reduzir espaços de arbitrariedade. O capital humano é o eixo transversal: sem professores formados, currículos actualizados, formação técnica e profissional ajustada às necessidades do mercado, a produtividade não sobe e a inovação não aparece.

Investir em saúde é igualmente investir na economia porque doenças evitáveis e mortalidade materno-infantil elevada pesam sobre a força de trabalho e sobre o orçamento das famílias.

Finalmente a coesão territorial importa tanto quanto as médias nacionais: sem políticas específicas para periferias urbanas e para províncias com menor densidade de serviços públicos as assimetrias perpetuam-se e alimentam frustrações que corroem a confiança social.


Instituições, Integridade e Execução


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © 2018 CIPRA

Nestes 50 Anos, Angola não ficou parada. A qualidade da governação mede-se no detalhe: concursos públicos transparentes, contractos executados no prazo e dentro do orçamento, sistemas de compras que evitem preços inflacionados, tribunais de contas com autonomia e meios, agências reguladoras que actuem com competência e independência.

A cultura de integridade no sector público e nas empresas deve ser construída com incentivos correctos e consequências claras para desvios. O controle social precisa de informação aberta e tempestiva para que jornalistas, academia e sociedade civil acompanhem metas, indicadores e orçamentos.

A luta contra a corrupção, para ser crível, tem de combinar prevenção, fiscalização e punição, mas sobretudo criar um ecossistema em que a oportunidade de desvio diminua porque os processos são digitais, auditáveis e simples. Em paralelo convém institucionalizar a avaliação de políticas públicas com base em evidência, evitando soluções que brilham nos anúncios e falham na prática.

A reconciliação entre Estado e contribuinte também se faz com previsibilidade fiscal e com serviços que funcionam no balcão e no telemóvel. A descentralização administrativa pode aproximar decisões das comunidades desde que venha acompanhada de capacidades técnicas e financeiras locais.

Neste nomento, o país não precisa de mais diagnósticos precisa de execução com método, prazos, métricas e prestação de contas. A boa notícia é que a paz dá tempo para reformar e que a juventude angolana tem talento e apetite por resultados. A má notícia é que o relógio do desenvolvimento não pára e que cada ano perdido custa oportunidades para milhões de vidas.


Angola no Xadrez Mundial


(20251111) Angola 50 Anos Entre A Memória E O Sacrifício
Imagem: © 2025 CIPRA

50 Anos após a Independência, o Corredor do Lobito simboliza uma visão logística e económica que transcende fronteiras. Ao ligar o Atlântico ao interior do continente, conecta mineração, agro-indústria e comércio, reduz tempos de transporte, atrai investimento e encurta a distância entre produtores e mercados.

Combinado com a modernização de portos e ligações rodoviárias e ferroviárias, pode reposicionar Angola como nó estratégico da integração regional. Isso exige contractos bem estruturados, manutenção contínua, formação de quadros e uma regulação que assegure concorrência leal e qualidade de serviço.

No plano externo a diversificação de parceiros — África, Europa, Américas, Ásia — deve seguir o critério do interesse nacional com transferência de tecnologia, conteúdo local e emprego qualificado. No plano climático a transição energética abre janelas para hidrogénio verde, produção de equipamentos, serviços de engenharia e finanças verdes.

A cooperação com a União Europeia, pela dimensão do bloco, pode ser alavanca em financiamento, normas técnicas, certificação e acesso a mercados. Com os parceiros africanos convém acelerar a harmonização regulatória para que o mercado continental deixe de ser promessa e se torne plataforma real para empresas angolanas.

Em segurança regional, o país pode continuar a ser voz de equilíbrio, mediando tensões e promovendo soluções diplomáticas, porque a estabilidade na vizinhança é condição de crescimento sustentado. Em suma a política externa deve ser extensão coerente da estratégia interna de desenvolvimento inclusivo, elevando o perfil de Angola sem perder de vista as entregas domésticas.


Conclusão


O balanço destes 50 anos é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e espelho de contradições. Orgulho porque um povo que saiu de séculos de dominação e de décadas de guerra ergueu a paz, reconstruiu cidades, expandiu escolas e hospitais e afirmou-se como actor regional respeitado. Mas há uma sombra que não pode ser ignorada.

As comemorações do cinquentenário que deviam pertencer a todos, transformaram-se num espectáculo distante — pomposo para quem assiste de dentro, frustrante para quem observa de fora.

Enquanto as delegações estrangeiras, dignitários e convidados oficiais desfilavam sob o olhar das câmaras e o brilho das bandeiras, o povo — o mesmo que pagou o preço da liberdade — via-se contido por barreiras e policiamento, afastado da Praça da República onde se celebrava a data que lhe pertence por direito. Celebrou-se a Independência, mas nem todos sentiram a independência de participar.

Urge, portanto que o símbolo se converta em substância. Porque as cerimónias não podem substituir políticas e os aplausos não pagam salários. A desigualdade persiste, a economia continua à espera de diversificação e a qualidade institucional ainda não acompanha a ambição do discurso. O cinquentenário não deve ser ponto de chegada, deve ser um marcador de viragem.

Transformar a herança da soberania em prosperidade inclusiva exige compromissos reais e mensuráveis: diversificar a economia com metas claras, investir a sério em capital humano, fortalecer instituições íntegras e previsíveis, apostar em logística e integração regional, e construir parcerias internacionais que tragam tecnologia e emprego qualificado.

A paz é o nosso maior activo, mas não pode ser dada por garantida. A juventude é o nosso maior potencial, mas não pode continuar à margem das oportunidades. E a memória é o nosso maior guia, mas não deve ser reescrita para fins cerimoniais.

Herdámos a liberdade dos que tombaram — e talvez o verdadeiro teste à nossa maturidade nacional seja o modo como a tratamos: se como ritual de Estado ou como promessa viva de inclusão.

 


Os 50 Anos da Independência de Angola, são importantes para ti? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2025 CIPRA
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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