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Sábado, Fevereiro 21, 2026

África Contra o Rapto de Nicolás Maduro

Quando um presidente eleito é capturado por uma potência estrangeira sem a existência de qualquer mandato internacional, o silêncio ou a prudência diplomática deixam de ser neutros. A reacção africana ao rapto de Nicolás Maduro pelos EUA revelou muito mais do que posições circunstanciais: expôs fissuras profundas na ordem mundial e obrigou África a confrontar-se com o valor real da soberania num tempo em que a força volta a falar mais alto do que o direito.

África Contra o Rapto de Nicolás Maduro


O recente rapto do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro e da sua esposa, Cilia Flores, por forças militares norte-americanas em solo venezuelano, marcou um momento disruptivo na política internacional. Conduzida sem mandato multilateral ou quadro jurídico reconhecido, a operação desafiou os princípios estruturantes da ordem mundial pós-Segunda Guerra Mundial.

Em África, o episódio gerou cautela, desconforto e, por vezes, condenação aberta. A diversidade de reacções – da prudência institucional à firme oposição de nações como a África do Sul e o Gana – reflecte memórias históricas de ingerência externa, colonialismo e da instrumentalização de recursos que levam ao risco da erosão do direito internacional e do reposicionamento geopolítico mundial.


As Reacções Africanas


A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) emitiu a primeira reacção institucional africana. Optou por uma formulação prudente, reconhecendo o direito de combater o crime, mas apelando ao respeito pela soberania e integridade territorial da Venezuela, conforme a Carta das Nações Unidas, situação que não se coaduna com o rapto de Nicolás Maduro.

Esta posição reflecte o equilíbrio delicado que muitos países africanos procuram num contexto internacional polarizado. A CEDEAO alinhou-se com a União Africana (UA) que evitou condenar directamente os Estados unidos da América (EUA).

A UA sublinhou a centralidade do diálogo político inclusivo e da resolução pacífica de conflitos, reafirmando o compromisso com a autodeterminação dos povos e o respeito pelos quadros constitucionais. Alertou ainda para os riscos de escalada e instabilidade regional.

Esta abordagem de contenção diplomática visa preservar canais de diálogo com todas as potências, sem abdicar dos princípios fundadores da organização pan-africana. Contudo, esta moderação institucional contrastou com posições mais firmes de alguns Estados africanos, revelando divergências internas sobre o episódio venezuelano e o papel de África.

Condenações Claras


Entre as reacções mais contundentes, destacou-se a da África do Sul, cujo Governo afirmou que a acção norte-americana mina a estabilidade da ordem internacional e o princípio da igualdade entre as nações. Pretória vê o ataque como uma regressão perigosa para relações internacionais baseadas na imposição, não na legalidade.

O Gana foi mais explícito, condenando o uso unilateral da força e classificando as declarações do Presidente dos EUA como evocativas da era colonial. Acra alertou para o precedente perigoso da intervenção, sublinhando que tentativas de ocupação de territórios e controlo externo de recursos petrolíferos têm implicações adversas para a estabilidade mundial.

Estas posições reflectem uma familiaridade com vulnerabilidades: riqueza em recursos, fragilidade institucional e exposição a interesses externos. O apoio expresso por Angola, Namíbia, Burkina Fasso, Libéria, Chade, Níger, Gâmbia e Burundi, transmitido pelo ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, revela solidariedade política.

Esta solidariedade ancora-se numa memória comum de ingerência e na preocupação partilhada com a normalização de acções unilaterais. Para estes Estados, a questão transcende Nicolás Maduro, focando-se na defesa de um princípio que, se violado num continente, pode sê-lo em qualquer outro.


Nova Ordem Mundial


A operação norte-americana na Venezuela com o suposto objectivo de levar Nicolás Maduro à justiça, é vista por muitos analistas africanos como símbolo da consolidação de uma nova ordem mundial, menos regulada por normas e mais condicionada pela correlação de forças.

A substituição do primado do direito internacional pela “lei do mais forte” reabre feridas históricas, criando incerteza para países pequenos e médios. Em África, onde as fronteiras artificiais e os equilíbrios frágeis exigem gestão cuidadosa, a legitimação tácita de intervenções unilaterais representa um risco sistémico.

O paralelismo entre a invasão da Ucrânia pela Rússia e a intervenção dos EUA na Venezuela ganha relevo: normalizar uma legitima a outra. A percepção de que grandes potências podem agir livremente nas suas esferas de influência reforça a lógica de um mundo fragmentado, onde a ONU e os tratados internacionais perdem eficácia.

A reunião de emergência do Conselho de Segurança, solicitada pela Venezuela com apoio da China e da Rússia, expôs as limitações de um sistema bloqueado por vetos e interesses estratégicos. Para África que aposta no multilateralismo como escudo, esta erosão institucional levanta questões existenciais sobre segurança colectiva, soberania real e capacidade de resposta a crises futuras.

Implicações para África


As implicações do caso venezuelano para África transcendem a diplomacia imediata. O factor importante a reter não é se a opção pelo rapto de Nicolás Maduro foi correcta ou não. O verdadeiro problema é a normalização de acções militares sem mandato internacional que fragilizam a posição de países africanos em futuras disputas sobre recursos, fronteiras ou estabilidade interna.

Para a CPLP que reúne Estados com diferentes alinhamentos e fortes ligações históricas, o episódio constitui um alerta sério. Angola, como actor regional relevante e defensor do multilateralismo, vê reforçada a necessidade de uma diplomacia activa e coerente, privilegiando soluções negociadas e o respeito pelo direito internacional.

A crise venezuelana expõe também a vulnerabilidade de economias dependentes de matérias-primas estratégicas num contexto de competição geopolítica intensificada. A instrumentalização do petróleo como argumento político-militar reaviva receios antigos em África, onde a abundância de recursos tem sido frequentemente associada à instabilidade e à intervenção externa.

Neste panorama, a posição africana, ainda que diversa, converge num ponto essencial: a defesa da soberania não é um luxo ideológico, é uma condição de sobrevivência num sistema internacional cada vez mais imprevisível.


Conclusão


A reacção africana ao rapto de Nicolás Maduro pelos EUA revelou um continente consciente dos perigos da erosão do direito internacional. Entre prudência institucional e condenações explícitas, África afirmou princípios que conhece bem por experiência própria. Num mundo onde a força ameaça substituir as regras, a posição africana é uma afirmação de memória, autonomia e vigilância estratégica.

Este episódio deixou claro que a defesa da soberania é uma batalha quotidiana e que o silêncio, nestes momentos, também comunica. Para África e os seus parceiros, o desafio será transformar esta consciência em acção diplomática consistente, protegendo interesses próprios num sistema mundial em rápida transformação.

 


O que pensas do rapto de Nicolás Maduro e das suas implicações para África? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 DR
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