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Toggle50 Anos Depois, A Palavra Aos Africanos
Os 50 anos das independências dos PALOP são celebrados no livro, apresentado esta sexta-feira em Lisboa, “50 anos de independências africanas vistos pelos seus cidadãos”, onde se oferece uma perspectiva plural e profundamente humana sobre meio século de soberania política.
Reunindo quarenta personalidades dos PALOP e de outros espaços africanos, a obra, coordenada por Rui Verde e Eugénio da Costa Almeida, percorre 440 páginas de ensaios, testemunhos e reflexões. Abordam-se o legado político e cultural das independências, as transições democráticas, os modelos de governação adoptados e os desafios económicos e sociais persistentes.
Longe de uma narrativa meramente de celebração, o livro assume-se como um exercício colectivo de memória e responsabilidade, sublinhando que as independências são um processo em permanente revisão, sujeito a escolhas, erros e correcções.
Neste espírito, os coordenadores abriram espaço a olhares provenientes da política, da cultura, do jornalismo, da academia e da sociedade civil, procurando uma análise construtiva e sem complacências.
Uma Leitura Crítica
Segundo Eugénio da Costa Almeida, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE e co-coordenador da obra, a riqueza do livro reside precisamente na diversidade dos contributos. Há textos breves, quase biográficos e há ensaios densos que oferecem leituras estruturadas sobre o percurso dos Estados africanos dos PALOP desde a independência.
Participam antigos chefes de governo, dirigentes políticos, intelectuais, jornalistas e figuras do mundo cultural, compondo um mosaico que ajuda a compreender o que foram – e o que não conseguiram ser – estes cinquenta anos. Uma das opções assumidas pelos coordenadores foi a de não filtrar a crítica.
Muitos autores apontam falhas estruturais, promessas não cumpridas, bloqueios institucionais e expectativas frustradas. Há críticas de natureza política, social e económica, mas também reflexões mais optimistas, centradas na ideia de que os próximos cinquenta anos podem e devem ser melhores do que os anteriores.
A crítica negativa convive, assim, com uma crítica positiva, orientada para a melhoria e não para a negação do percurso feito. A inclusão da Guiné-Bissau que completou 52 anos de independência, foi deliberada.
Como recorda Almeida, Portugal só reconheceu formalmente a independência guineense quase um ano depois da proclamação, razão pela qual o país foi integrado neste balanço colectivo. Paradoxalmente, é também um dos casos que melhor ilustra a fragilidade institucional persistente no espaço lusófono africano.
Governos, Memória e Futuro
Questionado sobre o impacto que esta obra sobre os 50 anos das independências dos PALOP poderá ter junto aos respectivos governos, Eugénio da Costa Almeida mostra prudência. Não espera exercícios formais de autocrítica por parte do poder político, reconhecendo que muitos sistemas não incentivam esse tipo de reflexão.
Ainda assim, acredita que o livro possa funcionar como referência indirecta, sobretudo dentro dos próprios partidos e entre quadros políticos e intelectuais com capacidade de influência. Mais do que um manual para governantes, a obra assume-se como um instrumento de memória e aprendizagem para as gerações futuras.
Serve para identificar o que correu bem, o que correu mal e o que ficou aquém das expectativas. E, sobretudo, para evitar a repetição de erros. Contra a ideia de que a História não se repete, Almeida é claro: repete-se, sim, se não for compreendida. O valor do livro está precisamente em oferecer matéria para essa compreensão.
Alguns dos textos apresentados lançam pistas claras para trabalhos futuros, seja em formato académico, jornalístico ou ensaístico. Há análises que vão além da subtileza e assumem uma frontalidade rara, inclusive vindas de figuras com passado governativo.
Entre os contributos, destacam-se os de Carlos Veiga, antigo primeiro-ministro de Cabo Verde, Joaquim Rafael Branco, ex-chefe de governo de São Tomé e Príncipe e Domingos Simões Pereira, antigo primeiro-ministro da Guiné-Bissau e ex-secretário-geral da CPLP, actualmente detido em Bissau, numa situação que o próprio coordenador considera preocupante e injustamente silenciada.
Conclusão
O livro “50 anos de independências africanas vistos pelos seus cidadãos” não oferece respostas definitivas nem fórmulas prontas. Oferece algo mais raro: honestidade intelectual e pluralidade de pensamento.
Num tempo em que a memória tende a ser instrumentalizada e o debate reduzido a slogans, o livro propõe uma travessia cuidadosa entre passado e futuro, assente na crítica, na responsabilidade e na esperança contida. Não para glorificar o que foi feito, mas para lembrar que a independência, sem reflexão contínua, corre sempre o risco de se esvaziar de sentido.
É, por isso, uma obra que merece ser lida – não apenas como balanço histórico, mas como convite permanente à construção de um futuro africano mais consciente, mais exigente e, sobretudo, mais fiel às expectativas dos seus próprios cidadãos.
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Imagem: © 2026 DR
