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O Fórum CELAC-África iniciou-se ontem em Bogotá e decorre entre 18 e 21 de Março de 2026. Representantes de países africanos, latino-americanos e caribenhos reúnem-se na capital colombiana com a ambição de transformar afinidades históricas em coordenação política, cooperação económica e acção diplomática concertada.
O encontro decorre sob a presidência pro tempore da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), exercida pela Colômbia e surge como um esforço organizado para dar novo impulso às relações Sul–Sul num momento em que as antigas hierarquias mundiais já não oferecem a estabilidade nem a previsibilidade de outros tempos, mostrando sinais claros de desgaste.
Mais do que uma cimeira protocolar, o fórum foi concebido como uma plataforma de diálogo entre regiões marcadas por passados comuns de colonização, escravatura, extracção de recursos e desenvolvimento desigual. A agenda incluiu debates sobre transição energética, alterações climáticas, soberania sanitária, justiça étnico-racial, reparações históricas, comércio, investimento e circulação de conhecimento.
Ao juntar governos, instituições financeiras, quadros académicos e organizações regionais, Bogotá converteu-se num espaço onde África e a América Latina procuraram desenhar uma relação menos dependente dos centros tradicionais de poder. O objectivo além de aproximar continentes, procura lançar bases duradouras para uma parceria capaz de influenciar o panorama mundial a médio prazo.
Novo Eixo
O primeiro sinal de relevância do encontro reside no contexto político em que ocorre. O Fórum CELAC-África surge num período em que guerras, rivalidades comerciais, crise climática, endividamento externo e instabilidade energética pressionam os países do Sul a procurar novas alianças.
Bogotá serve de palco para uma tentativa de reposicionamento estratégico de regiões que, durante séculos, são tratadas como periferias do poder mundial.
Ao reunir chefes de delegação, ministros, enviados especiais e representantes de organizações multilaterais, o fórum procura mostrar que África, a América Latina e as Caraíbas não precisam de esperar por convites alheios para pensar o seu futuro colectivo.
Na sessão de abertura, a tónica recai sobre a necessidade de criar uma arquitectura de cooperação mais estável e assente em mecanismos permanentes de diálogo. A Colômbia, enquanto presidente pro tempore da CELAC, apresenta o encontro como uma oportunidade para reforçar a projecção externa do bloco latino-americano e caribenho.
Do lado africano, vários participantes insistem que a relação deve ir além da retórica da solidariedade histórica, focando-se numa parceria com resultados concretos, capacidade de negociação conjunta e voz mais forte nos fóruns onde se discutem financiamento, clima, saúde, dívida e comércio.
A relevância simbólica do encontro também não passa despercebida. Bogotá acolhe delegações de regiões ligadas por rotas atlânticas de violência colonial, deslocação forçada e resistência.
Essa memória comum é evocada como fundamento político. O fórum apresenta-se como mais do que uma reunião diplomática: um ensaio de um novo eixo internacional em que o Sul procura deixar de ser objecto de disputa entre potências e passar a agir como sujeito de decisão.
Cooperação Sul-Sul
Se o discurso político procura definir o alcance simbólico do fórum, os debates sobre desenvolvimento procuram testar a sua utilidade prática. Um dos eixos centrais do encontro incide sobre a cooperação em áreas estruturais que afectam directamente a vida de centenas de milhões de pessoas nos dois lados do Atlântico.
Alterações climáticas, biodiversidade, segurança alimentar, acesso à energia, saúde pública e inclusão digital aparecem como desafios partilhados. Em vez de tratar estes temas como dossiers separados, os participantes tentam articulá-los numa visão mais ampla de soberania e desenvolvimento.
A mensagem repetida em várias sessões é clara: sem capacidade própria em energia, tecnologia, produção sanitária e financiamento, o Sul continuará vulnerável a choques externos.
Vários painéis paralelos chamam a atenção para a necessidade de políticas adaptadas às realidades locais. Em matéria climática, por exemplo, é sublinhado que muitos países africanos e latino-americanos enfrentam impactos severos apesar de terem responsabilidade histórica reduzida pelas emissões globais.
Daí a insistência num financiamento climático mais justo e em modelos de transição energética que não reproduzam dependências antigas sob nova linguagem verde. Também no domínio da saúde houve apelos a uma maior cooperação em produção farmacêutica, investigação, vigilância epidemiológica e troca de experiências acumuladas durante crises recentes.
Outro aspecto relevante é a valorização do conhecimento local. Em vez de importar automaticamente soluções concebidas noutros contextos, vários intervenientes defendem a integração de práticas comunitárias, saberes tradicionais e experiências nacionais na formulação de políticas públicas.
Isso fica patente nas discussões sobre agricultura resiliente, gestão da água, conservação florestal e medicina preventiva. A cooperação Sul–Sul é apresentada, neste quadro, não como um gesto ideológico, mas como necessidade estratégica, visando reduzir vulnerabilidades, reforçar a autonomia e criar respostas mais estáveis para crises comuns.
Reparações Históricas
O debate sobre reparações históricas confere ao fórum uma densidade política rara em encontros internacionais deste tipo. Durante décadas, a questão é tratada como reivindicação moral sem espaço central na diplomacia formal. Em Bogotá, porém, ela surge como um dos pilares do diálogo entre África, a América Latina e as Caraíbas.
As intervenções insistem que a escravatura transatlântica, o colonialismo e a expropriação prolongada de territórios e corpos não pertencem apenas ao passado.
As suas consequências continuam visíveis nas desigualdades sociais, nas hierarquias raciais, na fragilidade institucional e na distribuição mundial da riqueza. Ao colocar o tema no centro da agenda, o fórum procura fazer uma ponte entre memória, justiça e geopolítica.
A presença da CARICOM e de vozes ligadas à defesa de reparações no espaço caribenho reforça essa linha de reflexão. Carla Barnett, secretária-geral da organização, tem insistido em diversos fóruns na necessidade de transformar o tema numa agenda internacional coerente, ancorada em reconhecimento, responsabilização e acção.
Em Bogotá, a convergência entre África e Caraíbas ganha relevo por mostrar que o debate já não se limita a círculos académicos ou movimentos sociais, mas é discutido como matéria de articulação diplomática entre Estados e organizações regionais. Isso poderá ampliar a capacidade de pressão em instâncias multilaterais onde a questão continua a enfrentar resistências.
Importa notar que os debates não reduzem reparações a compensações monetárias. Aborda-se também a dignidade, a restituição de património, a memória colectiva, o acesso a arquivos, a valorização das culturas africanas e afrodescendentes e a revisão de narrativas históricas impostas durante séculos.
Comércio Activo
A terceira frente do encontro concentra-se no comércio, no investimento e nos instrumentos necessários para que a aproximação política produza efeitos verificáveis nas economias das duas regiões. A constatação de partida é simples: existe afinidade histórica e há vontade diplomática, mas a densidade económica da relação ainda permanece muito abaixo do potencial.
Os debates insistem na urgência de melhorar as ligações marítimas e aéreas, reduzir entraves burocráticos, criar plataformas de contacto empresarial e fortalecer instituições financeiras capazes de sustentar projectos conjuntos. Sem infra-estruturas, crédito e mecanismos de facilitação, o discurso sobre parceria estratégica corre o risco de ficar preso à retórica.
Ao longo das sessões, é sublinhada a importância dos bancos de desenvolvimento e de instrumentos financeiros próprios. Vários participantes defendem maior coordenação entre entidades regionais para reduzir dependências excessivas de financiamento externo condicionado.
A assinatura de memorandos de entendimento entre instituições financeiras e parceiros estratégicos é apresentada como um dos resultados tangíveis do fórum, revelando uma tentativa de converter intenções em arquitectura económica. Isso inclui a possibilidade de apoiar projectos em infra-estruturas, energias renováveis, agro-indústria, inovação tecnológica e formação profissional.
A educação aparece igualmente como dimensão económica e não apenas cultural. Os intercâmbios universitários, a mobilidade académica e a partilha de conhecimento técnico são descritos como investimento em competitividade.
Em sectores como tecnologia, saúde, agricultura e gestão pública, a circulação de quadros pode funcionar como alavanca para reduzir assimetrias e acelerar capacidades nacionais. Esse esforço também é ligado à juventude, ao empreendedorismo e à criação de cadeias de valor mais consistentes entre as duas margens do Atlântico com benefícios económicos duradouros.
Bogotá Decide

O segmento final do Fórum CELAC-África é pensado para transformar a acumulação de debates numa orientação política mais nítida. A reunião de chefes de Estado e de Governo confere ao encerramento um peso simbólico especial, mas a sua importância real depende sobretudo da capacidade de fixar compromissos.
Nesse contexto, a esperada Declaração de Bogotá surge como peça central. O documento deverá condensar as principais posições assumidas ao longo do encontro e servir de base para uma agenda de cooperação futura entre África, a América Latina e as Caraíbas.
Mais do que um texto de boas intenções, o seu valor será medido pela clareza dos objectivos, pela definição de mecanismos de acompanhamento e pela criação de instâncias capazes de manter o processo activo para lá do entusiasmo inicial.
Outro ponto relevante do encerramento está ligado ao próprio lugar da CELAC no mundo. A organização tem procurado reforçar a sua projecção externa através de contactos com outros blocos e regiões e o fórum com África enquadra-se nessa estratégia.
A passagem da presidência pro tempore da Colômbia para o Uruguai marca não apenas uma transição administrativa, mas a prova de que a continuidade política será decisiva para que a iniciativa não se esgote num único ciclo diplomático. Se a nova presidência der seguimento ao impulso actual, o encontro de Bogotá poderá ser lembrado como momento fundador de uma relação mais estruturada.
O peso do fórum também decorre do contexto mundial em que ele se realiza. Num cenário de fragmentação geopolítica, endividamento crescente e disputa por recursos estratégicos, o Sul Global procura espaços de concertação próprios.
África, a América Latina e as Caraíbas sabem que partilham vulnerabilidades, mas também sabem que possuem recursos naturais, peso demográfico, património cultural e margem diplomática para negociar em melhores condições.
Conclusão
O Fórum CELAC-África pode ainda estar longe de alterar sozinho a ordem mundial, mas o encontro de Bogotá mostra que há espaço para uma diplomacia mais ousada entre regiões historicamente subalternizadas.
Se os compromissos forem acompanhados por mecanismos de execução, financiamento e acompanhamento político, esta aproximação poderá ganhar espessura e continuidade.
O que começou como uma reunião de alto nível poderá tornar-se numa referência duradoura de um Sul que já não quer apenas ser ouvido. Quer decidir.
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Imagem: © 2026 Obreal
