12.5 C
Londres
Domingo, Fevereiro 22, 2026

CAN 2025: Lusofonia Entre Orgulho E Desilusão

O CAN 2025 terminou mais cedo do que Angola e Moçambique desejavam e deixou marcas profundas: de um lado, a frustração de um projecto que não se cumpriu; do outro, a confirmação de que um sonho, quando bem trabalhado, pode tornar-se realidade mesmo perante os gigantes do futebol africano.

CAN 2025: Lusofonia Entre Orgulho E Desilusão


O Campeonato Africano das Nações 2025 (CAN 2025) voltou a provar que o futebol africano raramente se deixa dominar por previsões fáceis. Para Angola e Moçambique, duas selecções ligadas pela língua e por percursos recentes de afirmação, a competição terminou mais cedo do que o desejado, mas por caminhos muito distintos.

Num torneio onde o pormenor continua a separar a continuidade da despedida, o CAN 2025 confirmou o seu carácter implacável e no meio deste panorama intenso e imprevisível, Angola e Moçambique escreveram capítulos que ajudam a compreender não apenas o desfecho da sua participação, mas também o lugar que cada uma ocupa hoje no futebol africano.

Angola apresentou-se como uma selecção marcada pelo peso do passado recente. O bom desempenho na edição anterior elevou as expectativas e colocou os Palancas Negras sob um olhar exigente, atento a sinais de continuidade ou de quebra.

Moçambique, por seu turno, entrou na prova com menor pressão externa, mas com uma ambição sustentada por crescimento interno, organização e confiança no trabalho desenvolvido. Essa diferença de enquadramento reflectiu-se na forma como cada equipa viveu os momentos decisivos e reagiu às adversidades do torneio.


Moçambique: Um Feito Histórico


(20260106) CAN 2025 Lusofonia Entre Orgulho e Desilusão
Imagem © 2025 Luísa Nhantumbo

Moçambique encerrou a sua participação no CAN 2025 com uma derrota pesada frente à Nigéria, mas saiu do torneio com um capital simbólico que nenhuma goleada consegue apagar. A presença nos oitavos de final, alcançada pela primeira vez na história da selecção, representou um ponto de viragem no percurso dos Mambas e confirmou um crescimento sustentado.

A eliminação por 4-0 diante de uma Nigéria recheada de talento individual e maturidade competitiva expôs claras diferenças de dimensão futebolística, mas não anulou o mérito do trajecto anterior. A selecção orientada por Chiquinho Conde entrou no jogo já condicionada pela superioridade física e táctica do adversário.

As transições rápidas nigerianas pelos corredores laterais revelaram-se fatais desde cedo, com Lookman e Osimhen a explorarem fragilidades defensivas que Moçambique raramente enfrentara. Ainda assim, a presença de jogadores como Geny Catamo, Witi e Diogo Calila ao longo do torneio simbolizou uma geração que começa a competir sem complexos no panorama continental.

O reconhecimento interno foi imediato. O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, classificou a campanha como a melhor de sempre numa fase final do CAN, sublinhando o orgulho nacional gerado pelo feito e apontando, com lucidez, a necessidade de investir mais na formação, na intensidade competitiva e na continuidade do trabalho.

A mensagem presidencial traduziu um sentimento partilhado pela maioria dos moçambicanos: a derrota não apaga o caminho, antes confirma a existência de um Projecto credível. Moçambique sai do CAN 2025 eliminado, mas com a cabeça erguida.


Angola: A Queda Precoce


(20260106) CAN 2025 Lusofonia Entre Orgulho e Desilusão
Imagem © 2025 Mohamed Tageldin / Middle East Images via AFP

Se Moçambique saiu do CAN 2025 com orgulho, Angola despediu-se com desencanto. Eliminada ainda na fase de grupos, após dois empates e uma derrota, a selecção angolana não conseguiu repetir o desempenho da edição anterior, onde atingira os quartos de final.

O terceiro lugar no Grupo B foi insuficiente para garantir o apuramento e expôs as fragilidades acumuladas desde a preparação até à gestão competitiva dos jogos. Devido ao péssimo desempenho no CAN 2025, a Federação Angolana de Futebol assumiu publicamente a responsabilidade pelo fracasso.

Em conferência de imprensa, o presidente da FAF, Alves Simões, classificou a participação como falhada, atribuindo parte da culpa às alterações do plano de preparação, reduzido de oito para três dias.

A explicação, ainda que factual, não convenceu todos os sectores da opinião pública, sobretudo num contexto em que a selecção revelou dificuldades claras na organização ofensiva, na gestão emocional dos jogos e na capacidade de transformar posse de bola em golos.

A manutenção do seleccionador Patrice Beaumelle foi defendida pela direcção federativa, afastando possíveis demissões imediatas. Esta decisão dividiu as opiniões num país onde a exigência em torno da selecção nacional continua elevada. O argumento da FAF baseia-se na ideia de ciclo e continuidade, mas o CAN 2025 deixou sinais de desgaste entre a equipa técnica, os jogadores e os adeptos.

Angola regressa de Marrocos com mais perguntas do que respostas e com a urgência de repensar os métodos, as prioridades e as ambições, sob pena de transformar um tropeção conjuntural num já de si péssimo problema estrutural.


Os Quartos-de-Final


(20260106) CAN 2025 Lusofonia Entre Orgulho e Desilusão
Imagem © 2025 CAF

O CAN 2025 entra na fase em que já não há espaço para leituras generosas: cada jogo transforma-se num teste de nervos, controlo emocional e eficácia. Até aqui, o Mali, o Senegal, os Camarões, o Marrocos, a Argélia, a Nigéria e o Egipto confirmaram o estatuto e garantiram presença nos quartos de final.

São equipas que, formando um núcleo de selecções com experiência, profundidade e soluções para diferentes panoramas competitivos, sabem jogar com o relógio, sofrer quando é necessário e decidir quando a oportunidade aparece, um traço que costuma separar os vencedores dos sobreviventes.

Os apurados para os quartos-de-final, completam um quadro de oito selecções onde o favoritismo existe, mas não oferece seguranças. O Senegal e o Marrocos surgem como referências naturais, pela consistência táctica e qualidade individual, mas não mais do que isso.

A Nigéria, com o seu poder físico e a capacidade de acelerar o jogo, mantém-se como uma ameaça permanente, enquanto a Argélia apresenta um futebol mais controlado, mas igualmente capaz de ferir com precisão. O Mali e o Egipto, com a sua competitividade e disciplina, jogam muitas vezes no limite do risco, mas com uma cultura de decisão que pesa nestas fases.

Os Camarões, por sua vez, são quase sempre um corpo estranho: podem não dominar, mas raramente se entregam ao desespero. Com a Costa do Marfim no lote final, o torneio ganha uma exigência extra, dada a sua profundidade, potência física e cultura competitiva que emerge em momentos decisivos.

A partir daqui os quartos de final deixam de ser apenas futebol: passam a ser também gestão de energia, leitura de detalhes e capacidade de manter a cabeça fria quando o jogo pede sangue.


Conclusão


O CAN 2025 encerrou para Angola e Moçambique de formas opostas, mas reveladoras. Para os Mambas, ficou a certeza de um caminho correcto, onde a ambição pode ser recompensada.

Para os Palancas Negras, o torneio funcionou como um alerta duro, mas necessário: planeamento, exigência e coerência estratégica.

Enquanto os quartos de final reúnem a elite do futebol africano, Angola e Moçambique regressam a casa com lições distintas, mas complementares. O CAN passa, mas a construção do futuro começa sempre no dia seguinte.

 


O que achaste da participação de Angola e Moçambique neste CAN 2025? Queremos saber a tua opinião, não hesites em comentar e se gostaste do artigo partilha e dá um “like/gosto”.

 

Imagem: © 2026 Torbjorn Tande / DeFodi Images via Profimedia 
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
Ultimas Notícias
Noticias Relacionadas

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Leave the field below empty!

Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!

error: Content is protected !!