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ToggleCAN 2025: Lusofonia Entre Orgulho E Desilusão
O Campeonato Africano das Nações 2025 (CAN 2025) voltou a provar que o futebol africano raramente se deixa dominar por previsões fáceis. Para Angola e Moçambique, duas selecções ligadas pela língua e por percursos recentes de afirmação, a competição terminou mais cedo do que o desejado, mas por caminhos muito distintos.
Num torneio onde o pormenor continua a separar a continuidade da despedida, o CAN 2025 confirmou o seu carácter implacável e no meio deste panorama intenso e imprevisível, Angola e Moçambique escreveram capítulos que ajudam a compreender não apenas o desfecho da sua participação, mas também o lugar que cada uma ocupa hoje no futebol africano.
Angola apresentou-se como uma selecção marcada pelo peso do passado recente. O bom desempenho na edição anterior elevou as expectativas e colocou os Palancas Negras sob um olhar exigente, atento a sinais de continuidade ou de quebra.
Moçambique, por seu turno, entrou na prova com menor pressão externa, mas com uma ambição sustentada por crescimento interno, organização e confiança no trabalho desenvolvido. Essa diferença de enquadramento reflectiu-se na forma como cada equipa viveu os momentos decisivos e reagiu às adversidades do torneio.
Moçambique: Um Feito Histórico

Moçambique encerrou a sua participação no CAN 2025 com uma derrota pesada frente à Nigéria, mas saiu do torneio com um capital simbólico que nenhuma goleada consegue apagar. A presença nos oitavos de final, alcançada pela primeira vez na história da selecção, representou um ponto de viragem no percurso dos Mambas e confirmou um crescimento sustentado.
A eliminação por 4-0 diante de uma Nigéria recheada de talento individual e maturidade competitiva expôs claras diferenças de dimensão futebolística, mas não anulou o mérito do trajecto anterior. A selecção orientada por Chiquinho Conde entrou no jogo já condicionada pela superioridade física e táctica do adversário.
As transições rápidas nigerianas pelos corredores laterais revelaram-se fatais desde cedo, com Lookman e Osimhen a explorarem fragilidades defensivas que Moçambique raramente enfrentara. Ainda assim, a presença de jogadores como Geny Catamo, Witi e Diogo Calila ao longo do torneio simbolizou uma geração que começa a competir sem complexos no panorama continental.
O reconhecimento interno foi imediato. O Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, classificou a campanha como a melhor de sempre numa fase final do CAN, sublinhando o orgulho nacional gerado pelo feito e apontando, com lucidez, a necessidade de investir mais na formação, na intensidade competitiva e na continuidade do trabalho.
A mensagem presidencial traduziu um sentimento partilhado pela maioria dos moçambicanos: a derrota não apaga o caminho, antes confirma a existência de um Projecto credível. Moçambique sai do CAN 2025 eliminado, mas com a cabeça erguida.
Angola: A Queda Precoce

Se Moçambique saiu do CAN 2025 com orgulho, Angola despediu-se com desencanto. Eliminada ainda na fase de grupos, após dois empates e uma derrota, a selecção angolana não conseguiu repetir o desempenho da edição anterior, onde atingira os quartos de final.
O terceiro lugar no Grupo B foi insuficiente para garantir o apuramento e expôs as fragilidades acumuladas desde a preparação até à gestão competitiva dos jogos. Devido ao péssimo desempenho no CAN 2025, a Federação Angolana de Futebol assumiu publicamente a responsabilidade pelo fracasso.
Em conferência de imprensa, o presidente da FAF, Alves Simões, classificou a participação como falhada, atribuindo parte da culpa às alterações do plano de preparação, reduzido de oito para três dias.
A explicação, ainda que factual, não convenceu todos os sectores da opinião pública, sobretudo num contexto em que a selecção revelou dificuldades claras na organização ofensiva, na gestão emocional dos jogos e na capacidade de transformar posse de bola em golos.
A manutenção do seleccionador Patrice Beaumelle foi defendida pela direcção federativa, afastando possíveis demissões imediatas. Esta decisão dividiu as opiniões num país onde a exigência em torno da selecção nacional continua elevada. O argumento da FAF baseia-se na ideia de ciclo e continuidade, mas o CAN 2025 deixou sinais de desgaste entre a equipa técnica, os jogadores e os adeptos.
Angola regressa de Marrocos com mais perguntas do que respostas e com a urgência de repensar os métodos, as prioridades e as ambições, sob pena de transformar um tropeção conjuntural num já de si péssimo problema estrutural.
Os Quartos-de-Final

O CAN 2025 entra na fase em que já não há espaço para leituras generosas: cada jogo transforma-se num teste de nervos, controlo emocional e eficácia. Até aqui, o Mali, o Senegal, os Camarões, o Marrocos, a Argélia, a Nigéria e o Egipto confirmaram o estatuto e garantiram presença nos quartos de final.
São equipas que, formando um núcleo de selecções com experiência, profundidade e soluções para diferentes panoramas competitivos, sabem jogar com o relógio, sofrer quando é necessário e decidir quando a oportunidade aparece, um traço que costuma separar os vencedores dos sobreviventes.
Os apurados para os quartos-de-final, completam um quadro de oito selecções onde o favoritismo existe, mas não oferece seguranças. O Senegal e o Marrocos surgem como referências naturais, pela consistência táctica e qualidade individual, mas não mais do que isso.
A Nigéria, com o seu poder físico e a capacidade de acelerar o jogo, mantém-se como uma ameaça permanente, enquanto a Argélia apresenta um futebol mais controlado, mas igualmente capaz de ferir com precisão. O Mali e o Egipto, com a sua competitividade e disciplina, jogam muitas vezes no limite do risco, mas com uma cultura de decisão que pesa nestas fases.
Os Camarões, por sua vez, são quase sempre um corpo estranho: podem não dominar, mas raramente se entregam ao desespero. Com a Costa do Marfim no lote final, o torneio ganha uma exigência extra, dada a sua profundidade, potência física e cultura competitiva que emerge em momentos decisivos.
A partir daqui os quartos de final deixam de ser apenas futebol: passam a ser também gestão de energia, leitura de detalhes e capacidade de manter a cabeça fria quando o jogo pede sangue.
Conclusão
O CAN 2025 encerrou para Angola e Moçambique de formas opostas, mas reveladoras. Para os Mambas, ficou a certeza de um caminho correcto, onde a ambição pode ser recompensada.
Para os Palancas Negras, o torneio funcionou como um alerta duro, mas necessário: planeamento, exigência e coerência estratégica.
Enquanto os quartos de final reúnem a elite do futebol africano, Angola e Moçambique regressam a casa com lições distintas, mas complementares. O CAN passa, mas a construção do futuro começa sempre no dia seguinte.
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Imagem: © 2026 Torbjorn Tande / DeFodi Images via Profimedia
