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Domingo, Fevereiro 15, 2026

África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Num continente onde a neve é uma raridade e o calor dita o ritmo das estações, existem atletas africanos que desafiam o gelo e escrevem a sua história nos Jogos Olímpicos de Inverno.

África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026


África está representada nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, com 14 atletas de oito nações, sendo uma delas a Guiné-Bissau, demonstrando um crescimento notável e uma presença cada vez mais estruturada do continente no evento.

Para um continente que se estende pelo equador e é maioritariamente definido por climas tropicais, onde o gelo e a neve são raros, a presença de África nos Jogos Olímpicos de Inverno é notável. Apesar das condições, atletas de todo o continente têm encontrado formas criativas de praticar desportos de Inverno, treinando e competindo longe de casa para alcançar o palco olímpico.

Tal como tem acontecido frequentemente, muitos dos representantes de África em Milano Cortina 2026 nasceram no estrangeiro – tendo crescido em países onde existem infra-estruturas de desportos de Inverno estabelecidas – mas escolheram competir pelas suas nações de origem.

Desde Squaw Valley 1960, quando a África do Sul se tornou a primeira nação africana a competir nos Jogos Olímpicos de Inverno, até ao recorde de 14 países presentes nestes jogos, o percurso foi feito de obstáculos políticos, limitações estruturais e talento forjado longe das montanhas africanas.

Milano Cortina 2026 surge assim como mais um capítulo desta história de resistência e visão, onde o gelo se torna um palco para África reivindicar o seu lugar.


Pioneiros do Gelo


(20260215) África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026
Imagem: © 1992 David Madison via Getty Images

A história de África nos Jogos Olímpicos de Inverno começou oficialmente em 1960, quando a África do Sul levou quatro patinadores artísticos a Squaw Valley, nos Estados Unidos. Foi um primeiro passo tímido, mas simbólico que abriu caminho para futuras gerações de atletas.

Contudo, poucos anos depois, as políticas do apartheid conduziram à exclusão do país do Movimento Olímpico, prolongando um silêncio de três décadas nos Jogos Olímpicos de Inverno. Esse hiato revelou que a presença africana no gelo sempre esteve ligada não apenas ao clima, mas também às tensões políticas e às transformações sociais do continente.

Marrocos tornou-se o segundo país africano a entrar no mapa do Inverno olímpico ao participar em Grenoble 1968 com cinco esquiadores alpinos. Seguiram-se participações intermitentes até que, em Sarajevo 1984, três nações africanas – Senegal, Egipto e Marrocos – marcaram presença simultânea.

Nesse mesmo ano, Lamine Gueye, do Senegal, tornou-se o primeiro africano negro a competir nos Jogos Olímpicos de Inverno. A sua imagem nas pistas europeias desafiou preconceitos e ampliou horizontes, inspirando muitos jovens africanos a sonhar com a possibilidade de praticar desportos de Inverno.

O Quénia surgiria mais tarde com Philip Boit em Nagano 1998, apenas dois anos depois de o atleta ter visto neve pela primeira vez. A história de Boit é particularmente inspiradora, tendo começado a treinar com equipamento emprestado e sem qualquer experiência prévia em esqui de fundo.

O abraço do norueguês Bjorn Daehlie a Boit após a prova tornou-se um dos gestos mais humanos e emblemáticos da história olímpica, simbolizando a camaradagem e o espírito de união que o desporto pode proporcionar. Desde então, outros atletas africanos têm seguido os passos destes pioneiros, demonstrando que a paixão pelo desporto pode superar barreiras geográficas e climáticas.

Uma Presença, Cada Vez Mais Presente


Atletas como Kwame Nkrumah-Acheampong, o “Snow Leopard” do Gana e Sabrina Simader, a esquiadora queniana que competiu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang 2018, têm contribuído para aumentar a visibilidade dos desportos de Inverno em África e inspirar novas gerações de atletas.

Até 2022, um total de quinze países africanos já tinham participado nos Jogos Olímpicos de Inverno. Nenhum conquistou medalhas na competição sénior, mas o ouro de Adam Lamhamedi do Marrocos, nos Jogos Olímpicos da Juventude de Inverno de Innsbruck 2012, demonstrou que o talento africano pode brilhar também em temperaturas negativas.

África nos Jogos Olímpicos de Inverno passou assim de excepção a presença constante – com 8 países representados nos actuais jogos – sustentada por uma geração que recusa aceitar os limites geográficos e que procura oportunidades para desenvolver o seu talento em diferentes partes do mundo.


Milano Cortina 2026


(20260215) África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026
Imagem: © 2026 DR

Milano Cortina 2026 representa um marco quantitativo e qualitativo para África nos Jogos Olímpicos de Inverno. Catorze atletas de oito países competem nas pistas italianas, um aumento significativo face aos seis atletas que estiveram em Pequim 2022. Este aumento reflecte um crescente interesse e investimento nos desportos de Inverno em África, bem como uma melhor preparação e apoio aos atletas.

Benim, Guiné-Bissau, Nigéria, Quénia e Eritreia serão representados por um atleta cada. Madagáscar e Marrocos terão dois atletas cada, enquanto a África do Sul terá a maior delegação do continente, com cinco atletas.

Nove dos atletas competirão em esqui alpino, três em esqui de fundo, um em skeleton e outro em esqui de estilo livre.

Atletas Africanos em Milano Cortina 2026


  • Benim: Nathan Tchibozo, 21 anos, esqui alpino. Nascido em França, fará a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Inverno, tornando-se o primeiro atleta do Benim a competir no evento.
  • Eritreia: Shannon-Ogbnai Abeda, 29 anos, esqui alpino. Nascido no Canadá, competirá nos seus terceiros Jogos Olímpicos de Inverno, tendo representado a Eritreia em PyeongChang 2018 e Pequim 2022. Abeda fez história em 2018 ao tornar-se o primeiro atleta masculino a representar a Eritreia nos Jogos Olímpicos de Inverno.
  • Guiné-Bissau: Winston Tang, 19 anos, esqui alpino. Nascido em Park City, Utah, é um atleta com origens taiwanesas, americanas e guineenses. Fará a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Inverno, representando a Guiné-Bissau.
  • Nigéria: Samuel Ikpefan, 33 anos, esqui de fundo. Criado nos Alpes franceses, representará a Nigéria nos Jogos Olímpicos de Inverno pela segunda vez. A sua estreia em Pequim 2022 foi afetada por perturbações relacionadas com a COVID-19, pelo que procura agora uma campanha mais consistente.
  • Quénia: Issa Laborde, esqui alpino. Também representou o país nos Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude Gangwon 2024. Nascido e criado em França, escolheu representar o país da sua mãe.
  • Madagáscar:
    • Mialitiana Clerc, 24 anos, esqui alpino. Nascida em França, competirá nos seus terceiros Jogos Olímpicos de Inverno, tornando-se a primeira mulher africana a participar em três edições do evento.
    • Mathieu Neumuller (conhecido como Mathieu Gravier), esqui alpino. Participará nos seus segundos Jogos Olímpicos, após a estreia em Pequim 2022.
  • Marrocos:
    • Pietro Tranchina, esqui alpino. Nascido em Piedmont, Itália, mudou a sua nacionalidade para Marrocos em junho de 2025. Fará a sua estreia na Taça do Mundo em Sölden, em outubro, no slalom gigante.
    • Abderrahim Kemmissa, esqui de fundo. Competirá na prova de 10km estilo livre.
  • África do Sul:
    • Lara Markthaler, 18 anos, esqui alpino.
    • Thomas Weir, 17 anos, esqui alpino.
    • Matthew Smith, esqui de fundo.
    • Malica Malherbe, esqui de estilo livre.
    • Nicole Burger, skeleton.

Histórias Inspiradoras


(20260215) África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026
Imagem: © 2026 Cortesia de Mialitiana Clerc

Para além dos números e das estatísticas, são as histórias individuais dos atletas que tornam a participação africana nos Jogos Olímpicos de Inverno tão inspiradora. Muitos destes atletas enfrentam desafios significativos para perseguir os seus sonhos, desde a falta de infra-estruturas e equipamento adequado até às dificuldades financeiras e à necessidade de treinar longe dos seus paises.

  • Samuel Ikpefan (Nigéria): Criado nos Alpes franceses, Samuel Ikpefan escolheu representar a Nigéria, país de seu pai, como forma de honrar as suas origens e inspirar outros jovens nigerianos a praticar desportos de inverno. Depois de uma estreia condicionada em Pequim 2022 devido às restrições da pandemia, regressa agora mais preparado e determinado a mostrar o seu talento. A sua história simboliza a ligação entre diáspora e identidade, um elemento recorrente em África nos Jogos Olímpicos de Inverno.
  • Mialitiana Clerc (Madagáscar): Nascida em França, Mialitiana Clerc assumiu Madagáscar como pátria desportiva e tornou-se uma referência para jovens africanas que nunca imaginaram competir na neve. A sua terceira participação olímpica não é apenas um feito estatístico; é uma declaração de continuidade e um exemplo de que é possível superar as dificuldades e alcançar os seus objetivos com trabalho árduo e dedicação.
  • Shannon-Ogbnai Abeda (Eritreia): Shannon-Ogbnai Abeda, da Eritreia, também regressa para a sua última presença olímpica, sublinhando que o legado não se mede apenas por classificações, mas pela abertura de caminhos e pela inspiração que proporciona a outros atletas. A sua participação serve como um exemplo de resiliência e perseverança, mostrando que é possível competir ao mais alto nível, mesmo enfrentando adversidades.
  • Nathan Tchibozo (Benim) e Winston Tang (Guiné-Bissau): Nathan Tchibozo, do Benim e Winston Tang, da Guiné-Bissau, representam estreias históricas, evidenciando a mundialização do desporto e a importância das bolsas de Solidariedade Olímpica do Comité Olímpico Internacional (COI) que apoiaram vários atletas africanos na preparação para Milano Cortina 2026. As suas histórias mostram que o apoio financeiro e estrutural é fundamental para permitir que atletas de países com poucos recursos possam competir em igualdade de condições.

Além das Medalhas


(20260215) África nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026
Imagem: © DR

O continente africano soma mais de 400 medalhas nos Jogos Olímpicos de Verão desde 1908, sobretudo nas corridas de média e longa distância. Nos Jogos Olímpicos de Inverno, porém, a contagem de medalhas permanece em branco. A explicação não exige complexas análises: a geografia e o clima africanos não oferecem as condições naturais para a prática regular de desportos de neve e gelo.

A temperatura média anual ronda os 26 graus Celsius e a diferença entre os meses mais quentes e mais frios é reduzida. Ainda assim, África nos Jogos Olímpicos de Inverno cumpre um papel central no ideal de universalidade que sustenta o Movimento Olímpico. Desde 1984, pelo menos uma nação africana participou em cada edição dos Jogos Olímpicos de Inverno.

Essa continuidade revela persistência institucional e ambição, mostrando que os países africanos estão empenhados em promover os desportos de Inverno e em dar oportunidades aos seus atletas. A globalização, as migrações e o acesso à formação no estrangeiro permitiram que jovens africanos fossem expostos a modalidades como o esqui alpino, o esqui de fundo ou o skeleton.

Muitos regressaram para competir sob as cores dos seus países de origem, transformando a diáspora num activo estratégico e contribuindo para o desenvolvimento dos desportos de Inverno em África. Milano Cortina 2026 confirma que África já não é apenas uma presença ocasional, mas sim uma componente estrutural do evento.

A ausência de medalhas não diminui o significado da participação. Cada descida numa pista alpina, cada impulso num trenó de skeleton, cada quilómetro percorrido no esqui de fundo representa uma afirmação colectiva: o desporto não pertence a uma latitude específica, mas à vontade humana de superar fronteiras e de perseguir os seus sonhos, independentemente das circunstâncias.

Desportos de Inverno em África


Apesar dos desafios, o futuro dos desportos de Inverno em África parece promissor. Com o aumento do interesse e do investimento, a melhoria das infra-estruturas e do apoio aos atletas e a crescente participação da diáspora africana, é possível que, num futuro próximo, vejamos atletas africanos a conquistar medalhas nos Jogos Olímpicos de Inverno.

Para além dos resultados desportivos, a participação africana nos Jogos Olímpicos de Inverno tem um impacto positivo na sociedade, promovendo a inclusão, a diversidade e o espírito olímpico. Os atletas africanos servem como modelos para os jovens, mostrando que é possível superar as dificuldades e alcançar os seus objectivos com trabalho árduo e dedicação.

Além disso, a organização de eventos desportivos de Inverno em África, como a African Ski Cup no Marrocos, pode ajudar a popularizar os desportos de neve e gelo no continente e a criar oportunidades para os atletas locais competirem e desenvolverem o seu talento.


Conclusão


A presença africana em Milano Cortina 2026 não altera de imediato o quadro estatístico das medalhas, mas altera a percepção do possível. O gelo italiano acolhe bandeiras que outrora pareciam deslocadas naquele panorama branco. Cada atleta africano que entra em pista reafirma que o Olimpismo é uma ideia mundial e que o talento não obedece a mapas climáticos.

África nos Jogos Olímpicos de Inverno continuará a crescer enquanto houver jovens dispostos a trocar o calor tropical pelo frio das montanhas para provar que o impossível é apenas uma etapa do caminho.

A história de África nos Jogos Olímpicos de Inverno é uma história de persistência, de superação e de paixão pelo desporto. É uma história que merece ser contada e celebrada, pois demonstra que o espírito olímpico pode florescer em qualquer parte do mundo, independentemente das condições climáticas ou geográficas.

 


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Imagem: © DR
Francisco Lopes-Santos

Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.

Francisco Lopes-Santos
Francisco Lopes-Santoshttp://xesko.webs.com
Atleta Olímpico, tem um Doutoramento em Antropologia da Arte e dois Mestrados, um em Treino de Alto Rendimento e outro em Belas Artes, além de vários cursos de especialização em diversas áreas. Escritor prolifero, já publicou vários livros de Poesia e de Ficção, além de vários ensaios e artigos científicos.
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